Raphaella Sconetto
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O volume de chuva abaixo do esperado poupou os brasilienses da multiplicação dos buracos nas vias. Porém, onde eles não insistem em surgir, a má qualidade do asfalto já basta para provocar dor de cabeça aos motoristas. O Jornal de Brasília constatou ambas as situações em regiões como Taguatinga, Setor de Indústrias Gráficas e Gama. Especialista afirma que qualidade e manutenção são o problema na capital.
Em 2016, foram investidos R$ 48 milhões para as operações para tapar buraco e pavimentar nas ruas. A expectativa do governo até o final deste ano é de um investimento de R$ 8 milhões por mês.
O Setor Sul do Gama é onde o JBr. encontrou a situação mais crítica. Os moradores reclamam de buracos que chegam a ocupar metade das vias. O estudante Wesley Lopes, 23 anos, amassou a roda do carro nesta semana. “Tive que arrumar o pneu e desamassar a roda. Foi na via principal do Setor Sul”, lembra. O prejuízo ficou em R$ 80. Segundo ele, ali não existe um sistema de drenagem eficiente. “Quando chove, a água não tem pra onde escorrer, aí as pistas ficam assim”, critica, mostrando o buraco ao lado do carro dele.
Ainda de acordo com o estudantes, os buracos aparecem somente nos períodos de chuva. “Ano passado foi do mesmo jeito. A qualidade é péssima”, conta. Na mesma rua do cursinho frequentado por Wesley, comerciantes colocaram uma vara de pescar dentro do buraco como forma de protesto. Eles afirmam que as crateras estão fazendo aniversário de três anos.
“Trabalho todos os dias aqui e não vejo o governo trabalhando no Setor Sul. Essa parte é onde os carros mais pesados passam, seja caminhão ou ônibus”, cobra o autônomo José Roberto Marinho, de 40 anos.
As fotos do protesto foram encaminhadas à administradora regional do Gama, Maria Antônia Magalhães. “Ela não viu e muito menos respondeu”, afirma.
O dono de uma padaria na mesma rua conta que já tirou dinheiro do bolso para tapar os buracos. “Comprei cascalho, brita e cimento, mas não resolve”, conta Divino César Ferreira, 51 anos. “Se não fizer isso, os clientes não vêm, e o prejuízo é maior. Perdemos clientes porque os buracos tomam conta da rua inteira e eles não têm onde estacionar”, conclui.
Cratera na QNL
Em Taguatinga, a cratera na via que liga a QNL à Samdu ainda está causando transtornos. A via está interditada desde o dia 20 deste mês, depois que um buraco de 5 metros abriu no meio da pista, em consequência do rompimento de uma adutora. A reportagem esteve no local e observou que, após as obras, novas crateras se abriram, chegando até o início da via do sentido contrário. Um funcionário que trabalha no local afirmou que, com a quantidade de água que escorre, as obras ainda devem demorar, pois o que foi feito a chuva levou.
Ponto de vista
O problema do asfalto no Distrito Federal é a falta de manutenção. Essa é a opinião do professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Brasília Paulo César Marques. “Qualidade não é o único problema. Toda vez que tem uma trinca na massa asfáltica é preciso fazer uma junta para não infiltrar água, que compromete a base. Isso não acontece”, alega.
Quando a água chega até a base, que fica abaixo do pavimento asfáltico, ocorre a formação de depressões nas vias. “Vai aprofundando e se não tiver o cuidado isso vai aumentando, o que vira o buraco”, explica o especialista. “Com o buraco, é feito somente um revestimento na superfície, que deixará de ser homogênea e vai causando as irregularidades na pista”, conclui.
Mudança em Vicente Pires
Vicente Pires é conhecida pelos buracos, mas a situação já foi bem pior. O comerciante Hugo Cândido, 53 anos, credita a ligeira melhora à presença de equipes do governo na região. “Mas não falta. Na Rua 8, aqui na Rua 3 e na 4, o que mais se vê é buraco e enchente”, conta.
Há um deles a poucos metros da loja de Hugo. Ele afirma que, quando a situação está mais crítica, os clientes não chegam até o comércio. “Ficamos sem fazer nada. Ainda é pior quando chove, porque ficamos ilhados: moto não sai para fazer entrega, cliente não vem e tenho que fechar a loja para não alagar”, conta, revoltado. “O governo quase não aparece aqui. Em Vicente Pires, os buracos existem independentemente de ter chuva ou não”, completa.
Na Rua 4, a Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos está realizando obras de drenagem pluvial, pavimentação asfáltica, colocação de meios-fios e instalação de calçadas. O investimento para Vicente Pires é de R$ 463 milhões. Enquanto isso, os moradores precisam desviar da lama e de partes da via que estão na terra.
Comércio ainda não sentiu
A falta de precipitações impactou também nas oficinas mecânicas, que costumavam lucrar mais em épocas de chuva. “Aqui no Setor de Oficinas estamos todos parados, pode ir em qualquer lugar. Nessa época era para estarmos trabalhando mais, mas está uma negação. Pouquíssimos clientes vieram por conta de pneu que estragou”, afirma o gerente de uma oficina no Sudoeste Josias Marques, 50 anos.
Versão oficial
A Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) informou que “mantém sete equipes próprias de manutenção de vias para a operação tapa-buraco. A Novacap também fornece massa asfáltica para as administrações regionais realizarem esse tipo de trabalho com equipes próprias”. De acordo com a empresa, a manutenção das vias é feita constantemente, independentemente da época de seca ou de chuva.
Em 2016, para as operações para tapar buraco e fazer pavimentação nas ruas foram investidos R$ 48 milhões. A expectativa até o final deste ano é de um investimento de R$ 8 milhões por mês.
Em relação às obras da QNL, a companhia afirmou que equipes estão no local desde o dia 21 deste mês para corrigir uma rede de drenagem pluvial em Taguatinga, na via de ligação da QNL com a Samdu. “Os trabalhos devem durar duas semanas. No conserto, estão sendo trocados três tubos de drenagem e restaurado o poço de visita (bueiro usado para a rede de drenagem). Ainda será reforçada a estrutura da rede de drenagem”, alegou, em nota.
