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Brasília

No Dia das Mães, jovens do DF mostram os desafios de ser mãe solo

Arquivo Geral

13/05/2018 8h00

Atualizada 11/05/2018 19h57

Tainá Morais. Foto: Myke Sena

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

Uma a cada três famílias com filhos no Distrito Federal é formada por mulheres que encaram o desafio da criação sozinhas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há quase 200 mil mães solo na capital. Entre responsabilidades multiplicadas, preconceitos infundados e medo da culpa, cresce um amor difícil de explicar. O Jornal de Brasília reuniu histórias de jovens que entendem bem o ditado popular que diz que ser mãe é padecer no paraíso.

“Mãe solo” refere-se às mulheres que são as únicas ou as principais responsáveis pelos cuidados dos filhos. No Brasil, mais de nove mil compõem as estatísticas. No DF, os números ajudam a entender esse universo. Em 2005, eram 149 mil, em uma realidade com 729 mil arranjos familiares.

Mais de uma década depois, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que, em 2016, elas passaram a 197 mil em 1,031 milhão de lares. No período em que a quantidade de domicílios cresceu 41%, o número de mães solo aumentou 32%.

Aqui, a Companhia de Planejamento (Codeplan) tem alguns estudos que abordam o tema e descobriu que 30% das residências brasilienses são comandadas financeiramente por mulheres. Em 88,79%, não há cônjuge. Do outro lado, o cenário é oposto: para os homens, este percentual é de apenas 12,67%. Apesar dos índices, mães solo são obrigadas a lidar com olhares tortos, piadas machistas e o remorso interno.

“Essas mulheres precisam se orgulhar do que fazem. São guerreiras, que merecem solidariedade em forma de elogio”, acredita Tânia Fontenele, coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam), economista e pesquisadora de gênero.

“Criar um filho não é fácil, mesmo tendo companheiro, companheira ou guarda compartilhada. Imagina sozinha, sofrendo preconceito e discriminação? Há sofrimento psíquico emocional dessas mães”, diz.

Nada de “mãe solteira” ou “pãe” 
Dois meses antes de engravidar, Joyce Oliveira, 25 anos, teve um aborto espontâneo. A chegada de Melina foi comemorada e esperada, mas a união estável de dois anos acabou quando a criança tinha quatro meses. “Decidi encarar sozinha”, diz.

Ali, a mulher se tornou mãe solo. No início, foi difícil e ela teve de repensar hábitos básicos, como tomar banho e ir ao banheiro, possíveis apenas na madrugada.
Para ela, a maternidade, especialmente solo, sobressai a tudo, e as responsabilidades são acumuladas. “Na minha cabeça era necessária a presença dele. Eu tive um pai ausente, sei como causa problemas, mas o que vi foi resistência”, explica Joyce.

A participação do pai na vida da filha não tem rotina ou hábito: é quando ele quer. Hoje ela entende que o papel de “pãe”, mãe e pai ao mesmo tempo, não existe.

Joyce Oliveira e a filha Melina. Foto: João Stangherlin

“Se ele não quer ser pai, não posso obrigar, mas também não posso exercer esse papel. Meu papel é o de mãe e tenho que fazer o meu melhor. Isso eu faço incluindo ela na minha rotina”.

Trabalhando como profissional liberal, ela leva Melina para reuniões e para salas de coworking e tenta fazer coincidir com horários mais tranquilos para a criança, mas encara olhares julgadores por onde passa.

“No mercado de trabalho, perguntam se sou casada quando descobrem que sou mãe, como se fosse uma correlação óbvia. Não é. A maternidade não está relacionada a status de relacionamento ou estado civil”, explica.

Por mais que tenha capacitação, experiência, bons resultados em testes, ela percebe que o fator filho é sempre um empecilho, piorado quando se trata de mãe-solo: “Presumem que algo deu errado”.

Medo da culpa
A estudante Tainá Moraes, 23 anos, se tornou mãe solo no dia em que o filho foi registrado. Há quase um ano, é como se o pai não existisse. A estudante conta que ele nunca teve interesse em conhecer a criança, e ela teme a culpa.

Tainá Morais. Foto: Myke Sena

“Eu sinto falta do papel de pai, que eu sempre tive, para meu filho. Meu medo é o Heitor crescer e me cobrar ou culpar por não ter o nome paterno na certidão ou na vida”.

Ela namorava quando engravidou, por acidente, em setembro de 2016. O susto se transformou em ansiedade e, logo, em apreensão, com uma gestação de risco e conflitos com o rapaz.

“Ele pareceu feliz, mas queria que eu largasse trabalho, faculdade e morasse na casa dele, dependesse da mãe dele. Ali começou o inferno, com agressões verbais constantes, que pioraram quando terminamos. Ele chegou a desejar o mal pro nosso filho, perturbou a gravidez inteira”, lembra.

No dia do nascimento de Heitor, o homem a ofendeu por telefone e pediu exame de DNA, mas também não apareceu para fazê-lo. Na certidão de nascimento e na vida do menino, é o vazio que faz vez de pai. “Foi ele quem negou a responsabilidade. Jamais impedirei meu filho de conhecê-lo, se ele quiser, mas vou contar a história inteira”, garante a jovem, que diz receber carga negativa da sociedade que julga o fato de ser mãe solo.

“A sorte é que tenho pais que me apoiam e muito me ajudam, mas ainda tenho que me desdobrar em cinco para dar conta de tudo. Minha vida parou, mas o sorriso do Heitor faz a gente esquecer os problemas. Esqueço tudo o que passei pela alegria que ele é para família. Ser mãe é uma dádiva de Deus”, diz.

Julgamento e discriminação
“A parte mais difícil não é criar a Olívia. É ser encarada e julgada como ‘mãe solteira’”, diz Nathana Andrade. A estilista de 27 anos sente-se acuada dentro do próprio condomínio onde vive com a filha há cerca de um ano. Ela conta que as demonstrações preconceituosas iniciaram ainda na mudança. No ápice do problema, ela deixou de passar pela portaria do prédio para evitar constrangimento. A opção foi usar a garagem, mesmo que saísse a pé.

“Assim que me mudei, cheguei com caixas na mão e logo perguntaram sobre meu marido. Tive que ouvir de uma vizinha que ela estava orando e que ‘com a fé de Deus o casamento seria retomado’, sem saber se eu queria voltar ou não”, lembra. Os embaraços não cessaram com o passar dos dias.

Nathana Andrade. Foto: João Stanbgherlin

Recentemente, em uma reunião de condomínio, Nathana foi condenada por deixar o carrinho de bebê na vaga vazia da garagem – enquanto outros moradores usam o espaço de depósito livremente.

“Também já aconteceu de eu sair à noite e ter que ouvir piada que não ocorre com homem, com pai, e com outros moradores. E de perguntarem para convidados sobre minha vida pessoal. Me sinto julgada”, reclama. A jovialidade também é questão controversa: “Atribuem a mim condição de adolescente”.

Enquanto a mãe passa por tudo isso, a pequena de dois anos e cinco meses se desenvolve e os rompantes de crescimento chamam a atenção. “É o que mais me emociona. Parece que ela vai dormir e acorda mais velha”, brinca. A guarda é compartilhada com o pai, que cumpre seu papel.

Mulher Maravilha?
A coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam) Tânia Fontenele defende a discussão do tema. Ela repudia os relatos de preconceito e discriminação representados por Joyce, Tainá e Nathana.

“Em pleno século XXI é impensável que mulheres que se esforçam para criar os filhos sozinhas sofrerem qualquer tipo de preconceito. Ao contrário, a sociedade deveria dar amparo, ter um sistema de apoio psicológico”.

A especialista lembra que mulheres protagonizam lutas como essas desde a década de 1960. “Já conquistaram e derrubaram tanto. Acende uma luz vermelha termos depoimentos assim na capital da República. Contra o preconceito temos que lutar sempre”, destaca.

Para a pesquisadora, é preciso acabar com a “síndrome da mulher maravilha” e a crença de que mulheres precisam dar conta de tudo do dia a dia sozinhas, plenas e lindas. “Há sobrecarga. Ninguém é invencível”, pontua.

Saiba mais
No Brasil, mais de nove milhões de famílias são compostas por mulheres e filhos que vivem sem qualquer outro parente, segundo o IBGE. Isso representa cerca de 12% de todos os arranjos familiares do País. Das mais de 71 milhões de famílias contabilizadas pelo instituto, 9.112.631 são mulheres sem cônjuge com filhos até 14 anos.

A mais antiga menção histórica sobre o Dia das Mães é da Grécia Antiga. Acreditava-se que a entrada da primavera era festejada em honra de Rhea, a Mãe dos Deuses. No século XVII, fábricas inglesas destinaram um domingo para homenagear as mães das operárias.

Aqui, o Dia das Mães começou a ser celebrado há 86 anos. A tradição foi criada a partir de um decreto do governo de Getúlio Vargas, em 1932. A data é sempre celebrada no segundo domingo do mês de maio.

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