Com o aumento da frequência e intensidade dos incêndios florestais no Distrito Federal, um estudo inédito está investigando os riscos químicos aos quais bombeiros militares estão expostos durante o combate direto ao fogo. A pesquisa é conduzida pela professora Eloísa Dutra Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), em parceria com o bombeiro militar e doutorando Fausto Jaime Miranda de Araújo. Financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), o projeto foi selecionado pelo edital Demanda Espontânea de 2022.
Intitulado “Avaliação de risco químico para bombeiros militares por exposição à fumaça em incêndios florestais no Distrito Federal”, o estudo é pioneiro no país por analisar a exposição em condições reais de combate. Os dados levantados devem subsidiar protocolos de segurança e políticas públicas voltadas à saúde ocupacional dos profissionais envolvidos no enfrentamento das queimadas.
Exposição invisível e perigos reais
As primeiras análises revelaram a presença de substâncias altamente tóxicas na fumaça, como benzeno, tolueno, xileno, etilbenzeno, formaldeído, acroleína e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA) — compostos associados a doenças respiratórias graves e até câncer. Em diversos casos, os níveis de benzeno identificados superaram em centenas de vezes os limites ocupacionais recomendados.
Para obter dados em campo, a equipe desenvolveu um sistema de monitoramento com bombas de coleta instaladas nos uniformes dos bombeiros. Foram necessárias mais de 100 tentativas em diferentes focos de incêndio até a obtenção de 35 amostras válidas, evidenciando a complexidade do trabalho. A iniciativa contou com o apoio logístico do Corpo de Bombeiros Militar do DF.
Trajetórias que se complementam
A idealizadora do projeto, Eloísa Dutra Caldas, é uma das principais referências nacionais em toxicologia ocupacional. Professora titular do Departamento de Farmácia da UnB desde 1997, tem formação em química e doutorado em química ambiental pela Universidade da Califórnia. Há mais de duas décadas, coordena estudos sobre riscos químicos com foco na proteção da saúde de trabalhadores.
A proposta da pesquisa surgiu da experiência prática de Fausto Jaime, bombeiro militar, doutorando em ciências da saúde na UnB e mestre em toxicologia alimentar. A vivência no combate a incêndios despertou nele a preocupação com a ausência de medidas protetivas eficazes. “Muitas vezes atuamos sem máscaras. A fumaça é um risco real, agravado pelas mudanças climáticas. O poder público ainda não tratou isso com a devida atenção”, afirma.
Além do trabalho em campo, Fausto se especializou em engenharia de segurança do trabalho, o que ampliou sua compreensão dos perigos ocultos enfrentados por colegas de farda. “Essa é uma questão de saúde pública global. Só agora a ciência começa a tratar com seriedade a proteção dos bombeiros florestais.”
Novas etapas e impacto social
Os próximos passos da pesquisa envolvem a análise detalhada dos dados coletados e a publicação de artigos científicos. Está prevista também a coleta de material biológico, como amostras de urina, para avaliação mais precisa dos impactos da exposição no organismo dos bombeiros.
Mais do que um avanço acadêmico, o estudo busca promover mudanças concretas na rotina dos profissionais. Entre as principais recomendações, está a necessidade do uso regular de equipamentos de proteção respiratória, medida ainda pouco adotada.
O projeto tem potencial para influenciar diretamente protocolos de segurança, orientações técnicas e decisões de gestão pública. Ao proteger os bombeiros, a pesquisa também contribui para a saúde da população do DF, frequentemente exposta à fumaça durante os períodos de seca e queimadas.
A expectativa dos pesquisadores é que os dados obtidos sirvam de base para políticas públicas mais eficazes e inclusivas no enfrentamento dos incêndios florestais — uma urgência ambiental, sanitária e social.
Com informações da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF)