O Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito, celebrado no terceiro domingo de novembro, teve neste ano uma ação inédita no Distrito Federal. Pela primeira vez, o Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), por meio da Diretoria de Educação de Trânsito (Direduc), prestou homenagem a cinco famílias que perderam entes queridos em sinistros do tipo. O evento foi organizado com o objetivo de honrar as histórias dessas vítimas e sensibilizar a população sobre o impacto dos acidentes nas vias. A homenagem foi realizada nesta terça-feira, ocasião em que foi lançado o livro “Vidas Interrompidas”, escrito pelo agente de trânsito Mário Fernando de Freitas.
O objetivo da autarquia é cumprir seu papel institucional de promover a conscientização e acolhimento, ao reafirmar o compromisso com a prevenção de sinistros e a preservação da vida. Segundo a pasta, de janeiro a setembro deste ano, foram registrados 174 sinistros fatais no trânsito.
De acordo com o diretor-geral do Detran-DF, Marcu Bellini, esse evento realizado pela instituição é de extrema importância para toda a sociedade. “Para que nós usemos esse momento de luto que a gente vive, esse momento triste, que a gente consiga transformar tudo isso numa alerta para a sociedade”, comentou. Ele acredita que é preciso mais paz no trânsito e que o que a autarquia está fazendo atualmente é trabalhar a parte educativa para conscientizar a população. “O grande problema que nós encontramos hoje é que a nossa conversa com a sociedade estava um pouco difícil. As pessoas não entendem que o Detran, além de ser um órgão fiscalizador, é um órgão que está defendendo a vida das pessoas”, frisou.
A principal meta do órgão, segundo Marcu, é educar mais e lutar menos, para colocar a vida das pessoas em primeiro plano no trânsito. “As pessoas bebem, as pessoas transgridem, descumprem a legislação e não levam em consideração que a vida das pessoas que estão ali pode ser a minha vida, a vida do meu filho, a vida do seu filho, a vida do pai, da mãe, inclusive delas mesmas”, ressaltou. Ele afirmou que a maneira de fazer isso é por meio da fiscalização mais severa, principalmente no que diz respeito à alcoolemia. “Nós queremos buscar que as pessoas tenham essa consciência de que nós precisamos salvar vidas. O trânsito não é um lugar para matar, o trânsito é para facilitar as nossas vidas.”
Mais do que números

Durante o evento, foi lançado o livro “Vidas Interrompidas”, do autor e agente de trânsito Mário Fernando de Freitas, que destacou que o Brasil é o terceiro país no mundo com mais de 30 mil mortos por ano — números que ele apontou serem de 2023. No DF, Mário apontou que mais de 200 famílias por ano perdem algum parente em acidentes nas vias. Para o autor, “O fato principal é que não importa o número de mortes, mas sim criar a consciência que nós estamos tendo ao realizar eventos como esse”, considerou.
A partir dos dados e da frustração de não ter como saber se o trabalho dos agentes de trânsito está efetivamente evitando acidentes e novas vítimas, Mário sentiu a necessidade de tornar esse o tema de seu mestrado, e assim nasceu o livro. “Nós buscamos saber como essas famílias estavam, porque a primeira pergunta que nós fizemos foi: será que em um ano essas famílias já estão em condições normais, no sentido de estarem prontas para trabalhar e para seguirem em frente? Acho que não.” Ele citou que as famílias entrevistadas apresentavam problemas financeiros, psiquiátricos e espirituais, chegando a encontrar refúgio na religião.
Ele entrevistou algumas famílias que perderam entes queridos em sinistros de trânsito, e cinco delas foram homenageadas no evento de terça-feira. Mário acredita que está faltando esse acolhimento para as famílias. “Falta essa visão nossa de que a partir do momento que você se importa com o próximo, talvez você vai dirigir com mais responsabilidade.”
Homenagem às vítimas

No total, oito famílias foram homenageadas no evento. A farmacêutica Lorena de Carvalho Miranda Rodrigues, 28 anos, perdeu o pai e a mãe em um engavetamento na BR-414, entre Abadiânia e Anápolis, Goiás, em 2023, que envolveu 18 carros e deixou quatro mortos. Os dois estavam a caminho de Anápolis — onde Lorena reside atualmente — e levavam os dois filhos dela, um com três anos e o outro com cinco meses na época. O mais velho, Davi, teve luxação na bacia, e o Luís Augusto, o mais novo, teve cortes superficiais. “Meu filho mais velho conta que os avós os protegeram na hora que aconteceu.”
Depois de dois anos do acidente, ela desabafou que ainda não conseguiu recomeçar, tamanha a dor que carrega desde o dia em que os perdeu. “O Natal é diferente, o aniversário é diferente. Naquele dia, eu enterrei a minha mãe e meu pai, que eram as duas pessoas mais importantes da minha vida. Mas Deus me deu de volta os meus filhos, que hoje estão comigo, mas a saudade e as memórias do meu pai e da minha mãe sempre vão ficar”, declarou.
Ela contou que está procurando os direitos devidos para a família — que, além dela e dos filhos, também inclui mais dois irmãos. “Porque os meus pais não estavam errados, eles estavam respeitando os sinais de trânsito, que era o pare e siga. E a gente espera na justiça de Deus e na justiça do homem”, disse.
Ela e os filhos foram uma das famílias que receberam a homenagem durante a solenidade. Para ela, o gesto teve uma importância muito grande, já que nunca imaginou que os pais iriam receber algo do tipo. “Eu agradeço ao Mário, porque essa é a forma que a gente vai saber que os nomes da minha mãe e do meu pai — Lucivane e Valdenir — sempre serão lembrados. Não só por nós na família, mas por todos que vão ter acesso a esse livro”, ressaltou. Lorena espera que as pessoas tenham mais consciência no trânsito, principalmente em relação à velocidade e ao respeito aos sinais. “Não só no trânsito, mas respeitar o próximo, porque a vida do outro importa. Hoje em dia é tão complicado, não sabemos se vamos chegar. O exemplo da minha mãe: eu liguei para ela às 10h15 da manhã. Ela e meu pai vieram a óbito às 10h30 da manhã. Então, 15 minutos depois, os dois morreram salvando meus filhos.”
Patrícia Martins Toledo de Oliveira, 40 anos, empresária, perdeu a filha Maria Flor Martins Toledo, de 6 anos e dois meses. Maria foi vítima do engavetamento em Anápolis, o mesmo acidente que vitimou os pais de Lorena. Patrícia conta que, chegando em Anápolis, se deparou com a fila de carros e, no momento, a pequena ainda brincou com a mãe, dizendo que elas não iam conseguir buscar o primo na escola, pois não daria tempo. “No que eu estacionei, eu já deparei com o carro capotado. Perdi rapidamente a consciência, mas voltei e chamei por ela, não obtive resposta, tentei virar para trás e vi que ela não estava”, descreveu o momento do acidente. Depois disso, ela quebrou o vidro desesperada atrás da filha, sem perceber que se machucou no processo.
Ela acredita que o luto não vai ter fim e costuma dizer que fez amizade com a dor para não ser tomada por ela. “A perda do filho não é para qualquer um. Mas Deus capacita a gente a sobreviver e continuar”, desabafou. Para Patrícia, essa homenagem foi uma resposta às orações dela para que a filha não seja esquecida e não se torne só mais um número.
O empresário Michel Keysler de Oliveira, 42 anos, pai de Maria Flor, descobriu através de um grupo de WhatsApp que a filha e a esposa estavam entre os carros do engavetamento. Ele estava longe, a 450 km de onde aconteceu a tragédia, e acredita que a força veio de Deus para dirigir até lá em um curto período de tempo. “Nós não tivemos ajuda de ninguém na época. Ninguém foi prestativo. Ali não foi só a vida da minha filha. Foi um conjunto. Quatro óbitos e 30 e tantas pessoas envolvidas, e ninguém deu suporte.” Ele procurou todos os hospitais da região para tentar encontrar a filha e só conseguiu saber de seu paradeiro no IML às 18h do dia do acidente. “Então, quando eu vejo um evento como esse do Detran, voltado para as famílias, com guia e tudo para ajudar as pessoas, eu sei que é uma coisa boa e que vemos que vai melhorar pela frente”, comentou.
A irmã mais velha de Flor, Pâmela Ester, 17 anos, tinha uma relação muito próxima com a criança. “A gente só dormia junto, agarradinhas, e quando eu não queria dormir com ela, ela sempre corria para minha mãe e falava: ‘Mamãe, a minha ‘rimã’ não quer dormir comigo’”, lembrou com carinho. Ela recebeu a ligação do pai com a notícia de que a mãe estava em um acidente e, ao chegar no local, viu a cadeirinha de Maria Flor fora do carro e teve certeza de que ela havia partido. “Eu lembro que olhei para uma montanha e vi dois anjinhos, e um deles me deu um tchau. Hoje em dia eu sofro muito ao chegar em casa e não ter um abraço dela, de escutar que ela levou um telefone escondido para a escola ou que brigou na escola. Ela era custosa, mas todo mundo gostava dela.”




