Pedro Marra
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Doença, solidão e abandono são algumas das palavras que vêm à mente quando se fala em envelhecimento, entre os entrevistados por uma pesquisa sobre longevidade. Mas essa transição não precisa ter uma conotação negativa quando há preparação para a terceira idade. Prova disso é que, na mesma enquete, mais da metade dos idosos afirmou não se sentir velho.
A pesquisa foi feita pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), junto à empresa farmacêutica Bayer, sobre o significado de envelhecer para o brasileiro. O trabalho envolveu 2 mil homens e mulheres acima dos 55 anos de dez capitais: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Salvador, Recife e Salvador.
Para explorar o assunto, na semana passada as instituições reuniram, em São Paulo, especialistas, pesquisadores, depoimentos de idosos e uma mesa redonda com os palestrantes.
Ponto de vista
- Médico especialista em envelhecimento, Alexandre Kalache também desenvolveu a pesquisa. Ele, que é presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil, no Rio de Janeiro (RJ), cita que a vida se tornou cada vez mais uma maratona. “É necessário ter propósito de vida. O processo é otimizar oportunidades e ter capacidade de discernimento”, diz. O pesquisador salienta sobre os cuidados com a saúde, conhecimento, socialização e parte financeira. “É essencial que a gente tenha a cultura do cuidado, porque envelhecer é uma coisa nova”, completa.
Entre os especialistas está a médica Maisa Kairalla, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) seccional São Paulo. “Não tem outra maneira de envelhecer bem se você não se prevenir e se programar. Mas a gente está numa transição difícil. O idoso de hoje vive o sonho dourado de o que foi o envelhecimento há pouco tempo, quando ele, ainda jovem, morava com os avós. Não existe mais aquela configuração. O que eles mais esperariam é o respeito”, comenta a pesquisadora, que também coordena o Ambulatório de Transição de Cuidados da Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp).
Sem rótulos
A jornalista Márcia Neder, autora do livro A Revolução das 7 mulheres – um perfil da geração 50+ que está reivindicando e reinventado a maturidade, critica o rótulo dado aos idosos no Brasil. “Parece que quando fazemos 60 anos estamos no começo do fim. A gente quer criar uma nova visão”, defende.
De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a população acima dos 65 anos no Brasil representa 8% do total de 206 milhões de brasileiros atualmente. Entre 2015 e 2020, essa idade deve subir para 72, no caso dos homens, e 79, no caso das mulheres.
Com mais de 40 anos de carreira como atriz e jornalista, Marília Gabriela, 69 anos, também deixou a sua opinião sobre o assunto. Ela acredita que a estruturação física e mental são a base para um envelhecimento de qualidade.
“Gosto de ter projetos e me dei a liberdade de parar e pensar nas responsabilidades. Você precisa se desapegar e deixar de ficar sempre se entregando. Acho um processo traiçoeiro”, analisa.

Maria José / Foto: John Stan
Muito além dos 77
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente a expectativa média de vida do brasileiro é de 77 anos. Os 93 anos de Maria José dos Santos superam as projeções nacionais, tanto que ela não adquiriu doença na velhice. Sentada com a filha no banco de um shopping do centro de Brasília, ela reconhece que a velhice é uma dádiva.
“O que eu mais gosto de fazer hoje é costurar. Eu sou feliz assim, tenho casa própria, meus cinco filhos que me deram netos, acho que não me falta nada. Eu não sou revoltada com o que sou”, afirma, tranquila, a servidora pública aposentada.
Corpo e mente saudáveis
A poucos anos da terceira idade, o taxista Abisair Martins, 58 anos, se enquadra entre os 64% dos entrevistados que frequentam eventos sociais semanalmente. “Eu jogo futsal com os meus colegas duas vezes por semana, leio um livro por semana e de vez em quando tomo cerveja porque eu mereço”, conta, aos risos. Na mesma pesquisa, 76% disseram ler ou praticar alguma atividade que desafie o cérebro e 17% praticam exercícios regularmente.
Dona de casa, Gerônima de Paulo, 71 anos, brinca que “só tem diabetes” e analisa a velhice de modo diferente . “Luto para ter uma vida melhor, tanto que trato a minha doença, mas não dou um peso tão grande. A gente tem de ver que a vida é boa e lutar. Não é só o jovem que tem esse direito”, argumenta.
O casal Germano Augusto, 75 anos e Leonilda Augusto, 73, fundou um jornal no bairro da Mooca, em São Paulo, há 20 anos, e se sente bem ao produzi-lo. “Gostamos de servir à sociedade, corremos praticamente todo dia e pretendemos não parar com essa rotina. Eu mesmo trabalhei como jornalista em mais de seis veículos por quase 40 anos. A vida é feita de desafios, e estamos vivos”, analisa Germano. (O repórter viajou a convite da Bayer)