Familiares e amigos de Thalita Berquó, de 36 anos, estão em um luto sem fim desde que Thalita Berquó foi tragicamente assassinada, há um ano atrás. Para manter a memória dela viva, foi realizada uma cerimônia no Parque de Águas Claras nesta terça-feira. Com o apoio do Instituto Viva Mulher, a família de Thalita foi até o Bosque da Vida, onde foi plantada uma árvore em sua homenagem. A ocasião foi marcada pela emoção e pela luta em prol da celeridade nas políticas de proteção à mulher. O ato simboliza a resistência de famílias que buscam manter viva a história de suas entes queridas diante da violência de gênero.
A tia de Thalita, Glaucia Berquó, representa a família nesse momento delicado que estão vivendo. Ela conversou com a equipe de reportagem do JBr, ressaltando que o último ano foi muito difícil para todos. “A perda da Thalita de forma tão violenta deixou marcas profundas. É um luto que ainda está sendo elaborado dia após dia. Temos buscado nos apoiar como família, respeitando o tempo e a dor de cada um”, desabafou. Ao vivenciar o luto, ela concluiu que ele não é um processo linear, mas a família segue tentando transformar essa dor em memória, em respeito e busca pela justiça.

Sobre a homenagem no Bosque da Vida, a tia destacou que foi um momento de profunda emoção e simbolismo. “Representar a Thalita ali é uma forma de manter viva a memória de quem ela foi. Não pelo fim trágico, mas pela vida, pela história e pelo amor que ela deixou”, frisou. Thalita, que era mãe, deixou um filho de 15 anos que hoje guarda o legado de afeto da mãe.
A família faz questão de agradecer à Doutora Lúcia Bessa, idealizadora do projeto: “É um gesto simbólico de permanência e respeito, e devemos muito à Dra. Lúcia por abrir esse espaço para a Thalita também”. Glaucia também estendeu a gratidão à equipe de investigadores e ao delegado da 1ª Delegacia de Polícia (DP). Ela definiu a atuação dos policiais como um trabalho de muita humanidade e acolhimento. “Eles foram maravilhosos conosco, profissionais extremamente humanos que nos deram total assistência. Teria sido muito mais difícil sem esse apoio”, destacou.
O Andamento do Processo Judicial
O caso envolve três réus. Destes, um já é maior de idade e aguarda o Júri Popular, previsto para ocorrer em março deste ano. Ele permanece detido, tendo sido identificado após a investigação de outro crime. Os outros dois envolvidos eram menores de idade quando o crime foi cometido.
Um deles foi sentenciado ao regime semiaberto, decisão que gerou grande indignação na família por não condizer com a gravidade do ato. No entanto, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) já recorreu da decisão e uma nova audiência está prevista para este mês de janeiro, visando o retorno ao regime fechado. “Confiamos que o processo seguirá os trâmites legais e que a responsabilização ocorrerá conforme a lei”, pontuou Glaucia. O maior desejo de Glaucia e dos demais familiares é que a memória de Thalita seja preservada com dignidade. “E que casos como esse reforcem a necessidade das autoridades olharem com seriedade para a violência que tantas mulheres ainda estão sofrendo”, finalizou.
Semeando a memória das vítimas para germinar um futuro melhor
A criação do Bosque da Vida foi uma iniciativa do Instituto Viva Mulher, por meio do projeto chamado “Relembre Nossos Nomes”, no Parque Ecológico de Águas Claras. O objetivo é transcender a simples homenagem às vítimas e se transformar em uma plataforma educativa multifacetada. Segundo a presidente do Instituto, Lúcia Bessa, a iniciativa entrelaça a memória das vítimas com a conscientização ambiental e a preservação do bioma Cerrado, criando um ecossistema de aprendizado e reflexão. “Este espaço não só reverencia a memória das vítimas, mas também atua como um catalisador para o desenvolvimento de políticas públicas mais robustas e eficazes no combate à violência de gênero.”
O plantio da árvore em memória de Thalita foi realizado no dia 29 de novembro de 2025, como parte das ações que integraram os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher. A ação está em sintonia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) previstos na Agenda 2030, elaborados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Como destacou a doutora Lúcia, a iniciativa foca, em especial, no ODS 5, que visa estimular ações para o alcance da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas. O evento contou com a presença de mais de 700 pessoas. “A iniciativa emerge como uma resposta crucial à problemática do feminicídio, uma realidade alarmante que afeta profundamente nossa sociedade”, pontuou.
O projeto conta com duas unidades do Bosque da Vida: uma no Parque de Águas Claras e a outra no Taguaparque, em Taguatinga.
Para Lúcia, esse projeto se propõe a ser um farol de esperança e resistência, incentivando uma tomada de consciência coletiva e a construção de uma sociedade mais empática, segura e respeitosa. “O Bosque hoje está servindo como referência, legado, farol, momento de encontro e reflexão.” O ato do dia 13 de janeiro, segundo ela, foi um momento emocionante. A doutora destacou que esse bosque dá a devida importância à memória das vítimas de feminicídio. “É preciso que a sociedade valorize ações de organizações como o nosso Instituto Viva Mulher perante a esses ataques violentos contra nós, mulheres.”
Relembre o caso
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), em março de 2025, identificou um adulto e dois adolescentes como suspeitos de matar Thalita Marques Berquó Ramos. A vítima havia sido encontrada esquartejada em uma estação de tratamento de esgoto da Companhia Ambiental de Saneamento do Distrito Federal (Caesb), em janeiro do ano passado.
Na época, o crime chocou a capital, pelas partes do corpo da vítima terem sido encontradas em pontos diferentes da região. A cabeça e as duas pernas da vítima foram localizadas na Estação de Tratamento de Esgoto da Companhia Ambiental de Saneamento do DF (Caesb), no Setor de Clubes Esportivos Sul (SCES), próximo à Vila Telebrasília.
Após intensas investigações, policiais da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) conseguiram identificar os suspeitos e localizaram o tronco da vítima, que estava enterrado em uma área de mata na região do Guará. Um homem de 36 anos, identificado como João Paulo, foi preso, apontado como autor do crime e um adolescente foi apreendido.