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Brasília

GDF acena pagamento do retroativo salarial aos servidores em 2017

Arquivo Geral

06/11/2015 6h00

Carla Rodrigues e Jurana Lopes

redacao@jornaldebrasilia.com.br

Em uma mudança brusca de postura e ainda sem previsão orçamentária, o Governo do Distrito Federal (GDF) acenou o pagamento do retroativo salarial aos servidores em 2017. Antes, a promessa era quitar, em outubro do ano que vem, apenas os reajustes previstos desde 2013 a 32 categorias. Mas sem possibilidade de saldar o retroativo. Agora, segundo a assessoria de imprensa da Casa Civil, caso haja arrecadação compatível, a intenção   é quitar os aumentos não repassados. Para isso, adiantou o órgão, um grupo de trabalho será criado junto aos sindicatos. A ideia é somar esforços para aumentar receitas. 

Com o aceno, que é tido pelos sindicatos como um compromisso, fato é que muitas categorias devem  voltar ao trabalho já na próxima semana. É o caso dos profissionais do Sindicato dos Servidores e Empregados da Administração Direta, Fundacional, das Autarquias, Empresas Públicas e Sociedades de Economia Mista  (Sindser-DF). 

Segundo o presidente da entidade, André da Conceição, a promessa do governo é um avanço. Por isso, a tendência é retomar os serviços. A decisão depende da assembleia da próxima segunda, da qual participam profissionais como os  do   SLU e do DER.

“É um avanço, porque antes diziam que não iam pagar de jeito nenhum”, adiantou. Ainda ontem, informou, os servidores da Secretaria de Agricultura voltaram ao trabalho.  

Essa é a mesma tendência do   Sindicato dos Trabalhadores em Escolas Públicas (SAE-DF). O presidente da entidade, Denivaldo Alves, afirmou, após reunião com o governador, que a categoria recebeu boas notícias, principalmente “a promessa de pagamento do retroativo”. “Os demais itens, como plano de saúde, carreiras, também foram debatidos”, afirmou. A decisão sobre o rumo  da greve será tomada hoje, em assembleia, às 10h.

Para Sinpro, 2017 está muito longe

O grupo de trabalho deve ser composto por representantes dos sindicatos, da governança do Buriti e da Câmara Legislativa. A ideia é somar esforços para aumentar a arrecadação e quitar os retroativos em 2017. O que ainda deixa   categorias inseguras. É o caso do Sindicato dos Professores (Sinpro). Segundo a  diretora   Rosilene  Corrêa, apesar de a decisão ser positiva, 2017   está distante. 

“A nossa leitura é de que esse momento pode ser dividido em dois. O primeiro  é que o governador, de fato, recuou da decisão de permanecer na ilegalidade. Não pagar o retroativo é dar o calote. Desse ponto, é positivo. O outro é que, de qualquer maneira, 2017 é muito tempo. Continua sendo um prejuízo grande”, disse.

O Sindicato dos Médicos (Sindmédico) não quis se posicionar quanto ao futuro da paralisação. De acordo com a assessoria de imprensa, não houve convite do GDF para conversar.  Além disso,  avaliam que “há perda salarial de 15%”. Professores e médicos farão assembleia  na segunda-feira. 

Cidadãos sofrem sem os serviços

Enquanto sindicatos e governo disputam uma ferrenha queda de braço, a população do Distrito Federal sofre com a falta dos serviços públicos. O governo alega falta de dinheiro, e a novela das greves se estende desde o último dia 8, quando parte das categorias iniciou o movimento. No dia 15, foi a vez de os professores cruzarem os braços, e os metroviários, cuja crise vem sendo intermediada pela Justiça do Trabalho,  também aderiram à greve geral   no início da semana.

Por causa da paralisação dos médicos, somente atendimentos de urgência e emergência são realizados. Procedimentos como cirurgias eletivas, consultas nos ambulatórios e atendimentos na maioria dos centros de saúde estão suspensos. 

Além disso, casos considerados menos graves estão sem atendimento. Ontem, no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), muitas pessoas voltavam para casa sem conseguir   consulta.

Sem ortopedista

A técnica em segurança no trabalho Doralice Barros, de 41 anos, levou o filho Adrian, de quatro anos, para ser avaliado por um ortopedista no HRT, mas foi em vão. “Meu filho caiu, está com o pé inchado e se queixando de dor, mas me disseram que o único ortopedista que tem está atendendo somente casos de lesões expostas”, relatou.

 Antes de ir à unidade, Doralice buscou atendimento no Hospital Regional de Ceilândia (HRC), onde também foi informada de que não havia médicos para atender a criança.

“Eu acho uma falta de responsabilidade deixar a população sem receber um atendimento médico na hora em que precisa. O governo e os servidores dão desculpas, mas acho que falta comprometimento de ambas as partes para resolver essa situação, que já está no limite”, desabafou. 

Para tentar solucionar o problema do filho, a mãe, Doralice, informou que iria chamar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou o Corpo de Bombeiros para atender em casa.

População paga o preço das greves

Grávida de oito meses, a dona de casa Letícia Querino, de 18 anos, está conseguindo fazer o pré-natal no centro de saúde próximo de sua casa, pois parte dos servidores não aderiu à greve. Entretanto, ela se aflige com a hora do parto, que se aproxima. “Meu medo é não ter médicos no dia que eu for ter o meu bebê. Isso me preocupa bastante. Espero que os servidores voltem logo ao trabalho”, afirmou.

Com dor de cabeça e pressão arterial elevada, a doméstica Francisca Sampaio, de 32 anos, tentava consulta no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) após ter ido ao centro de saúde próximo de sua casa e encontrá-lo fechado. Sem ter com quem deixar os dois filhos, uma menina de sete anos e um bebê de  um ano, ela os levou junto. Por causa da greve, ela não consegue vacinar o filho e mata no serviço porque a filha está sem aulas.

“As vacinas do meu filho estão atrasadas porque as salas não funcionam desde o início da greve. Esses dias ele passou mal e eu tive que dar remédio por conta própria. Para piorar, minha filha está sem professor e sou obrigada a levá-la para o meu trabalho. Mas não dá fazer isso todos os dias, porque se não os patrões acham ruim. Por isso, acabo faltando serviço”, contou. 

Francisca diz se sentir mal com tanto descaso.  “A gente trabalha, paga impostos e o governo faz isso, ignora a população. Acho justa a luta dos servidores, pois eles trabalham de forma precária. Mas os cidadãos não podem pagar o preço dessa briga entre governo e servidores”, opinou.

Educação

Os funcionários da Escola Classe 16 de Taguatinga informaram que somente 30% dos alunos estão tendo aula, pois a maioria dos professores aderiu à greve. Nilzete dos Santos, 40 anos, diarista, é mãe de Davi, de sete anos, que estuda no local. Por causa da greve, ela paga a van que busca o filho na escola sem utilizar o serviço. Nilzete não tem com quem deixar a criança e, como há dias em que tem aulas e outros em que não tem, é obrigada a levá-la todos os dias. Caso não haja professor,  ela segue com o menino para o trabalho.

“Pago a van só para segurar a vaga. Mas não posso deixá-lo ir no transporte escolar porque, se não tiver aula, o pessoal o deixa em casa e não tem ninguém para ficar com ele lá. Com isso, além do transporte escolar, ainda gasto com passagem”, explicou. 

A diarista ressalta que se sente totalmente prejudicada com a paralisação.

Surpresa desagradável

Quem tentou usar o Metrô-DF fora do horário de pico encontrou as estações fechadas devido à greve dos metroviários. Os trens circulam parcialmente, das 6h às 9h e das 17h30 às 20h30. A vendedora Beatriz Martins, 20 anos, pensou que só haveria diminuição no número de trens, foi à estação Praça do Relógio e encontrou tudo fechado. “Não pensei que eles radicalizariam tanto. Achei que haveria redução de trens, mas sem parar totalmente”, disse. 

Júlio César Silva, 28 anos, gesseiro, também esperava encontrar a estação funcionando. “Essas greves estão dificultando a vida da população, principalmente de quem precisa chegar cedo ao trabalho”, concluiu.

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