Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com
Para elas, uma festa de debutante significa muito mais que a passagem simbólica da condição de menina a mulher. Completar 15 anos com uma festa imponente, com toda pompa e circunstância, é também representação de superação, força e luta. Ontem, 11 meninas com câncer, anemia falciforme, linfoma e outras doenças viraram princesas na sétima edição do projeto Um Sonho de 15 Anos, celebrado pela Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace).
Os preparativos para o grande dia duraram mais de dois meses. De prova de doces à escolha do vestido perfeito, as meninas pouco dormiram na véspera da noite da realização do que dizem ser um sonho. As maquiagens trabalhadas destacavam-se ainda mais com o sorriso aberto, mas era a ansiedade que dava o tom das conversas no salão de beleza. Nenhuma delas teria condições de fazer a festa.
Para Thais Alves, tudo aquilo representava, também, vida. Diagnosticada com um tumor cerebral, ela lutou por nove meses até fazer uma cirurgia que removesse a massa do crânio. “Festa de debutante sempre foi um sonho. Agora também é modo de agradecer a Deus pela cura, por cuidar da minha vida”, diz. A menina foi diagnosticada em maio de 2017, conta a mãe, Kelly Alves, auxiliar de serviços gerais de 32 anos. A cirurgia foi feita no Hospital de Base e motiva a jovem a se tornar neurocirurgiã.
- Myke Sena
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Tempos difíceis
A festa é também realização de mãe e filha, garante Auricélia de Oliveira, dona de casa de 44 anos. Rita de Cássia fez 15 anos em setembro e os últimos seis foram de muita luta. As dores no joelho que a impediam de brincar não eram pelo crescimento, como acreditou um médico, e um tumor ósseo foi diagnosticado no meio de 2012. Ela fez quimioterapia e transplante de medula, passou meses em tratamento em Campinas (SP) e quase teve de amputar a perna direita.
“A Abrace pagou exames, ajudou com medicação, arcou com passagens e até comprou a prótese para inserir no fêmur. Se não fosse por isso, teriam de amputar”, conta a mãe. Hoje, a marca da cirurgia simboliza superação. “Vivemos um momento de cada vez”, emenda. “Debutar é um marco de vitória”, diz a menina, que não disfarça a ansiedade. “Foram cinco anos esperando por esse momento. É só felicidade”, afirma Rita de Cássia, que dançou valsa com o irmão.
Julye Costa ensaiou a dança com o pai para evitar pisões no pé. Uma festa sempre esteve nos sonhos da garota, que convive com anemia falciforme, uma doença crônica e hereditária. O irmão mais velho tinha o mesmo conjunto de distúrbios e faleceu há dois anos, aos 22 de idade. “O médico disse que não deveria engravidar mais, mas a Julye veio. Fiquei preocupada por todo o sofrimento”, desabafa a mãe, Esmeralda Costa, depiladora de 42 anos. As duas, devidamente montadas com cabelo, maquiagem e vestido, celebraram a vida.
Saiba mais
Toda a festa é feita por meio de parcerias. O projeto é iniciativa do estilista Fernando Peixoto, da doceira Maria Amélia e do cerimonialista Cristian de Britto.
A celebração dos 15 anos é uma tradição comum na América Latina, mas o rito foi iniciado no México. A chamada quinceañera tem origem na tradição asteca que marca a transição da menina para a vida adulta, quando ela era apresentada como virgem para a comunidade.






