Comerciantes do centro de Ceilândia têm a sensação de que já viram uma cena antes, como um déjà vu. Pela manhã, o proprietário chega à loja, cujo portão foi arrebentado pela traseira de um carro, e nota que parte de sua mercadoria foi roubada. A vítima da vez foi o dono de uma loja de telefonia, que funciona na QNM 1 há apenas um mês. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do DF, de janeiro a setembro deste ano foram registradas 335 ocorrências de roubo a comércio em Ceilândia.
“A grade já era reforçada, mas o impacto foi muito forte. Deram ré com uma Fiorino duas vezes e um cara entrou na loja”, relatou o proprietário. A ação dos criminosos, que remete à chamada gangue da marcha à ré, começou às 4h55, segundo o registro das câmeras de segurança, mas durou pouco. Uma moradora vizinha ao estabelecimento estourou bombinhas após escutar o estrondo e afugentou os bandidos.
“Acho que ela foi parar no hospital com problema de pressão. Mas foi ela soltar as bombinhas que assustou eles, eu acho. Acabaram não levando muita mercadoria, ficou pior pela bagunça”, disse o dono da loja, que calculou prejuízo na ordem de R$ 10 mil entre reposição de produtos e reparo na estrutura física. Ele alegou ter seguro e se mostrou tranquilo enquanto aguardava a perícia da Polícia Civil.
Não é isolado
De acordo com os comerciantes da região, ações como a de ontem e outros tipos de roubo, além de assalto, não são difíceis de acontecer. Uma funcionária de outra loja de telefonia, que preferiu não se identificar, relatou já ter contabilizado quatro roubos ao seu local de trabalho desde 2012, quando foi contratada.
“O primeiro foi de madrugada. Alguém arrombou a porta e levou algumas coisas. Depois disso colocaram mais uma grade e um alarme”, conta a mulher. “Os últimos crimes, porém, foram em pleno horário de almoço. Mais recente ocorreu em um sábado, pouco antes das 13h. Um casal se fingiu de cliente e na hora de pagar sacou uma arma e anunciou o assalto”, recorda-se a funcionária.
Na porta da loja em que ela trabalha foram colocadas barras de ferro – uma tentativa de evitar a atuação da gangue da marcha à ré. Várias lojas adotaram a estratégia.
Não há sistema de segurança que intimide
E quando os equipamentos de proteção não são o suficiente, os comerciantes fazem igual a Antônio Ramos, 46 anos, dono de uma loja de autopeças: rezam. “Durante o dia fico preocupado. Não sabemos se estamos atendendo um bandido ou um cliente”, desabafa.
“Não têm dois meses que houve uma reunião com a Polícia Militar e eles sugeriram a colocação de iluminação e que registrássemos ocorrências. Não tem jeito, a gente coloca grade, alarme, mas não adianta”, diz. Ele está prestes a investir R$ 2,3 mil para instalar um novo sistema de segurança. Até o fechamento desta edição, a PM não se manifestou sobre o assunto.
Ação parecida
De acordo com o delegado-adjunto da 15ª DP (Ceilândia Centro), Davi Vilas Verdes Guedes Neto, não se trata de uma associação criminosa, mas de vários ladrões se valendo do mesmo modo operacional. “Analisei as imagens de hoje (ontem) e foram duas pessoas, apenas. Não são as mesmas detidas em uma loja do primeiro caso que registramos, no início do ano”, diz.
Segundo ele, há seis meses, três roubos com métodos similares aconteceram no centro de Ceilândia. “Em setembro, fizemos duas grandes prisões. Na primeira, mais de dez pessoas foram detidas e, na segunda, nove. Só que são crimes em que não há grave ameaça, então a Justiça concede liberdade provisória”, conta o delegado.
Memória
Em fevereiro, 13 pessoas foram presas acusadas de participar da chamada gangue da marcha à ré. Elas seriam responsáveis por 19 operações criminosas em três regiões administrativas do DF, inclusive Ceilândia. No dia seguinte, porém, uma ação com mesmo modus operandi foi deflagrada na cidade e, desde então, diversos grupos estariam se valendo do mesmo método para roubar o comércio.