Menu
Brasília

Food trucks viram alvo de criminosos

Arquivo Geral

08/04/2016 6h00

Eric Zambon

eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

O furto do food truck de Rafael Bessa Vieira, de 27 anos, na QE 42 do Guará II, foi o quarto crime do tipo em menos de um ano, conforme a Associação Brasiliense de Food Trucks (ABFT). Ele investiu aproximadamente R$ 25 mil no negócio – vendeu o carro e deixou o antigo emprego para levantar a quantia – e agora não sabe o que fazer. 

O reboque foi levado na madrugada da última quarta-feira, dois dias depois de Marcus Wilson Faria Marques, 32 anos, também ter sido vítima desse tipo de furto no Lago Norte. Assim como Vieira, o dono do food truck gastou todo o dinheiro que tinha e que não tinha – fez empréstimos junto ao banco e   à família para conseguir R$ 50 mil –  e viu sua ansiedade ser convertida em desespero da noite para o dia.

Ambos os casos envolveram reboques ainda não caracterizados. Segundo o presidente da ABFT, Ronaldo Vieira, a falta de adesivos ou pinturas que personalizem o  empreendimento é um fator de risco. “Dos quatro food trucks levados, três não tinham identidade visual ainda. Quando tem, todo mundo   conhece  e são mais difíceis de serem furtados”, acredita.

Sem plano B

Largar sua vida antiga não foi um grande obstáculo para Rafael Vieira. Ele   tinha o sonho de empreender   e, ao adquirir o reboque para vender sanduíches, em outubro de 2015, tudo pareceu tangível. “Era o meu sonho e estava começando a colocar as coisas no lugar. Agora, nem sei o que fazer”, desespera-se.

Sua namorada, Sabrina Guedes,   25, com quem  divide as obrigações do negócio, conta que o empreendimento   foi arrombado no Carnaval, mas o prejuízo foi pequeno. “Levaram refrigerante, troco, mas só coisa pequena. A gente reforçou as correntes. Não dava para simplesmente sair arrastando, porque a gente tira o engate à noite”, inconforma-se.

No ponto onde estava estacionado o empreendimento, há quiosques que também  já foram vítimas de crimes. Dono de uma lanchonete, o microempresário Oscar Gomes,  60, revela já ter tido o estabelecimento furtado duas vezes em seis anos. “Acho que, no caso do trailer, não foi alguém daqui. Se tivesse alguém com um reboque daquele tamanho  nas redondezas, alguém já teria achado”, especula.

Versão oficial

Até o fechamento desta edição, a Divisão de Comunicação da Polícia Civil informou que os casos sobre os furtos a Rafael Vieira e Marcus Wilson Marques “estão sendo apurados”. A Secretaria de Segurança Pública e Paz Social declarou que os crimes contra os food trucks são classificados como furto de veículos. Entre janeiro e fevereiro deste ano, pouco menos de 1,2 mil ocorrências dessa natureza foram registradas no DF, 11,7% a mais em relação ao mesmo período do ano passado, conforme a pasta.

Recomeço após demissão

O reboque de Marcos Wilson, o “Kito”, estava em frente ao prédio da mãe, no CA 5 do Lago Norte. Ele diz que personalizou toda a estrutura e, portanto, seu trailer deveria ser mais fácil de identificar. “Fiquei desempregado em maio passado e comecei a trabalhar nisso. Em dezembro, tive problemas para emplacar, então, ainda não tinha começado a funcionar”, revela.

Ele pretendia abrir um negócio de kebab e açaí aplicando os conceitos que absorveu nas três graduações cursadas: Administração, Publicidade e Jornalismo. “Peguei  empréstimo com banco e com meu pai e iria começar semana que vem. Estava tudo dentro do carrinho e eu só iria colocar o adesivo com a marca. Agora, mesmo que  encontre, não sei se vou dar continuidade”.

Personalizado e itinerante: mais segurança

Presidente da Associação Brasiliense de Food Trucks (ABFT), Ronaldo Vieira  reforça recomendação aos empresários para que personalizem os empreendimentos o quanto antes, por segurança, e alerta para a necessidade de profissionalismo. “Não há local adequado para guardar os trailers e, quanto menos caracterizado, mais fácil de alguém querer levar”, reitera.

Vieira afirma existirem cerca de 200 food trucks no DF e lembra que há requisitos para enquadrar o negócio na categoria, como sistema independente de refrigeração, energia, água, entre outros. A característica fundamental, porém, é ser itinerante: “Não pode ficar mais do que dois ou três dias no mesmo ponto”. Do contrário, segundo ele, aumenta a exposição do veículo e facilita a ação dos ladrões.

Aprendizado após furto

O dono do Corina, food truck de cerveja artesanal, Eduardo Ribeiro Golim, 28 anos, teve o segundo carro de sua marca furtado de um estacionamento no Setor de Oficinas Norte em maio do ano passado. O veículo foi encontrado dias depois no Lixão da Estrutural. A única coisa que os ladrões deixaram foi o chassi. 

“Tínhamos comprado a Kombi por quase R$ 35 mil, foi um prejuízo enorme”, relembra-se. Eduardo afirma que o baque só não foi maior porque os sócios do negócio têm outras fontes de renda. 

“Depois de ter sido roubado, eu não deixo mais meu carro exposto. É um aprendizado que a gente não deveria ter porque, se tivéssemos uma sociedade mais justa, não precisaríamos falar sobre isso”, indigna-se Eduardo. 

Segundo o empresário, foram oito meses para se recuperar do choque e voltar ao patamar em que estava na época do crime. Ele reclama da morosidade da polícia, pois acredita ter faltado vontade para encontrar os autores do furto e recomenda aos outros donos de food trucks que instalem rastreadores nos veículos ou reboques. “De seguro eu nunca fui atrás porque sai uma nota”, aconselha.

Saiba mais

A atividade foi regulamentada no DF.  Donos  precisam preencher um formulário e fornecer informações referentes ao negócio — lista de alimentos e bebidas, matérias-primas, local de armazenamento, endereço da cozinha de apoio e número de funcionários e refeições servidas. O cadastro deve ser feito na  Vigilância Sanitária.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado