Eric Zambon
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Foi na rua que o Carnaval do DF encontrou sua verdadeira identidade e com muita tranquilidade. Com o dobro de blocos em relação ao ano passado e pelo menos 100 mil participantes a mais, totalizando 1,1 milhão, o festejo recebeu investimento dez vezes maior em comparação a 2015 (R$ 710 mil cedidos dos cofres públicos, segundo a secretaria-adjunta de Turismo). Além disso, o número de ocorrências registradas foi bem abaixo das ocorridas no ano passado. Desta vez, sem mortes e poucos casos de furtos e roubos.
O público, que em boa parte não é mais composto por quem ficou sem opções para viajar, aprovou esta edição. O típico folião brasiliense, agora, faz questão de aproveitar as atrações da cidade.
O crescimento de blocos como o Babydoll de Nylon que, de pouco mais de 15 mil participantes em 2014, pulou para cerca de 70 mil este ano, obrigou, inclusive, governo e organizadores a repensarem a logística da festa. Nascido no Cruzeiro e realizado por lá há nove anos consecutivos, o Suvaco da Asa, por exemplo, mudou seu local de concentração para a Funarte, próximo à Torre de TV, devido a reclamações de moradores quanto ao barulho. Outros eventos tiveram de acabar às 22h para cumprir a Lei do Silêncio e não provocar embate entre os habitantes das asas Sul e Norte.
Para o professor Frederico Flósculo de Arquitetura e Urbanismo da UnB , a “invasão das ruas” é um fenômeno nacional que ganhou força há cinco anos. “Brasília só reflete isso. Um elemento novo é a presença dos idosos se misturando à juventude. Não é aquele Carnaval movido a testosterona’. É um mix de públicos e um evento de paz”.
Criança, jovens e “cabecinhas brancas”
O DJ Rafael Oops, idealizador do Aparelhinho, bloco inventado em 2012 com a proposta de agregar sons e cultura de diferentes festas do País, especula que o carnaval do DF vive um momento de quebra de paradigmas. Durante o evento, na última segunda-feira, ele afirmou que “a nova geração não se identifica mais com o formato tradicional” e, por isso, prefere festejar de um novo jeito.
O músico Frederico, no entanto, acredita que o movimento na rua foi turbinado pela presença de participantes mais velhos. Em Natal (RN) para as comemorações, após visitar Fortaleza (CE) e Salvador (BA), ele garante “nunca ter visto tanta cabecinha branca celebrando por aí”. “Os jovens não se importam de estar e compartilhar do mesmo ambiente que os mais velhos, como em outros eventos. É um Carnaval de comunidade, com clima de ‘faça-você-mesmo’, que está atraindo os públicos”, complementa.
Sobre a discussão a respeito da ocupação dos espaços públicos, o especialista acredita que a cidade comporta a expansão cultural que vem sofrendo nos últimos anos. Evitar os conflitos, na opinião dele, seria uma questão de os artistas agirem com mais inteligência. “Os músicos de bar estão tentando peitar a comunidade, aí não tem como vencer. Eles têm de seduzir as pessoas com serenatas, homenagens, escolas de arte etc”, acredita.
“Fenômeno já estava para estourar”
O subsecretário de marketing da pasta de Turismo, Sandro Cunha, acredita que o crescimento do Carnaval de rua do Distrito Federal não é uma resposta à ausência, pelo segundo ano consecutivo, do desfile das escolas de samba locais. Para ele, esse fenômeno já estava para estourar e deve ganhar força ano a ano, com a intensificação da atuação da iniciativa privada na folia.
“O evento se tornou um produto extremamente vendável e qualquer empresa que tenha a ver com o segmento quer expor sua marca a mais de 1 milhão de pessoas”, explica Cunha. O subsecretário afirma que esse movimento vai ajudar a consolidar a festa e continuar a atrair turistas de estados vizinhos para o DF. “O próprio brasiliense se deu conta de que não há necessidade de sair durante o Carnaval. Isso mantém a economia aquecida e movimenta bares, restaurantes, hotéis, enfim”, exalta o subsecretário.
Segundo ele, o investimento governamental maior em comparação a 2015 representa um avanço, especialmente quando se leva em conta o último festejo da gestão Agnelo Queiroz, que teria custado R$ 12 milhões. “A ideia que já é desenhada para 2017 é a Secretaria de Cultura fazer uma oferta para as empresas participarem do Carnaval”, revela.
Em 2016, a Ambev patrocinou 47 blocos de rua e foi a principal investidora. As negociações, no entanto, se deram diretamente entre empresários e organizadores, sem intermediação do Governo de Brasília. “Não tivemos autonomia para guiar a destinação dessa verba. O projeto é fazer uma licitação, mas não necessariamente para se ter apoio de uma única cervejaria. Queremos mais empresas somando à festa”, ventilou.
Pós-Carnaval
A folia continua mesmo após o fim do feriado. O Carnaval de Rua da Praça dos Prazeres está programado para acontecer de sexta-feira a domingo na comercial da 201/202 Norte. O Carnaval Popular da Vila Planalto deve promover mais uma festa no sábado, na praça Nelson Corso. Por fim, o bloco Eixão 44 pretende encerrar as celebrações em 21 de fevereiro, com concentração no Eixão Norte, na altura da quadra 107.