Francisco Dutra
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Amores de Carnaval são livres, se assim quiserem. As paixões da folia não bailam apenas com os passos rápidos de encontros no meio da multidão. Os romances carnavalescos dançam nos ritmos da diversidade, da superação, da irreverência e dos relacionamentos construídos com carinho no decorrer de décadas. Ao som de frevo, samba, reggae e funk dos blocos de rua brasilienses, amantes buscam o aconchego de um beijo quente.
A festa popular é marcante para longas histórias de amor. Há 40 anos, Luís Sérgio Teixeira, 62 anos e, Claudete Kunz Teixeira, 65, pulam Carnaval juntos. Virou tradição. Do ponto de vista do casal, a participação na folia faz parte do segredo da felicidade. “Carnaval é alegria! É energia!”, sorriu Luís Sérgio. Fantasiado de pirata, ele seguiu pulando o frevo de mãos dadas com a esposa.
A irreverência também marcou o tom da folia. Ampliando o alcance das cantadas com um megafone, um grupo de amigos brincou e conquistou olhares de belas moças no Galinho. O aparelho foi providenciado pelo universitário Leonardo Bento, 19 anos, mas serviu como instrumento para todo o grupo. “Eu estava em Florianópolis (SC) e decidi voltar para passar o Carnaval de Brasília com meus amigos”, revelou Leonardo Belisio, 21. Com descontração e o devido respeito, Breno Andrade, 20 anos, chamou a atenção de uma jovem que dançava pela rua. Ponto para os romances carnavalescos.
Na festa coletiva do Setor Bancário Sul, cujos ritmos juntaram os blocos Aparelhinho, Divinas Tetas e Urubloco/Acabou o Gás, a paixão foliã adotou a cadência da superação. A cadeirante Emilly Amorim, 30 anos, curtiu a festa com o noivo, Rubens Bijos, 30 anos. A falta de equipamentos públicos para proporcionar a devida acessibilidade às pessoas com deficiência foi um desafio, mas a falha do Estado não impediu que o jovem casal fosse para a rua celebrar a alegria da vida. Com amor de sobra, Emilly espera brincar e cantar com uma aliança no dedo no próximo Carnaval.
Bola fora
O respeito ao próximo é o principal limite dos amores, sejam aqueles do Carnaval ou os nascidos no cotidiano. Mas nem sempre é assim. O assédio e a ignorância emudecem a folia e podem acabar, justamente, na porta de uma delegacia. Sabendo disso, alguns blocos definiram regras claras contra a ação de assediadores. É o caso do Divinas Tetas, cuja filosofia é vaiar sem dó nem piedade quem abusa ou tenta abusar.
Formado por grupos universitários e LGBT, o bloco não tolera abusos. A palavra de ordem é respeito. Para os foliões do Divinas Tetas, todo mundo precisa saber aceitar um “não”. Segundo a professora universitária Ane Molina, infelizmente muitos blocos no DF não estão conseguindo enfrentar o problema.
“As pessoas deveriam pensar no que fazem na vida normal, cotidiana. Elas puxam o cabelo das outras? Pegam na cintura de quem não conhecem? Todo comportamento que não se usa no dia a dia não cabe no Carnaval. É questão de civilidade”, argumentou.
Segundo a jornalista Gabriela Miranda, assediadores pensam que máscaras e fantasias servem para escamotear suas atitudes, e depois das festas não precisam responder por seus atos.
O assunto tomou força no Carnaval deste ano e entre as iniciativas voltadas ao tema está a campanha da revista AzMina #Carnavalsemassédio. A ação traz sugestões para contornar o problema, como oferecer água caso veja uma mulher vomitando; fazer um escândalo se perceber que um homem está tentando forçar algo; e telefonar para os amigos ou chamar um táxi se encontrar uma mulher inconsciente.