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Brasília

Fogo destrói carros e provas de outros crimes

Arquivo Geral

15/12/2013 9h06

O índice de furtos de veículos segue alto no Distrito Federal. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, de janeiro a outubro de 2013, houve aumento de 15% em comparação com o mesmo período do ano passado. Especialistas afirmam que após o delito, muitos criminosos retiram as peças que interessam e depois colocam fogo no automóvel para destruir qualquer tipo de prova. 

Recentemente foi encontrado, em Samambaia Norte, um cemitério de carros, numa área deserta próxima ao parque Três Meninas. Quem mora por ali precisa conviver com a sensação de insegurança. Segundo um agricultor morador da área, ali é perigoso. “Quando vejo um carro passando por aqui, já imagino que seja algum criminoso”, conta.

Ele mora no local há três anos com a família e conta que no ano passado a situação era ainda mais delicada. “Moro com minha esposa e  cinco filhos. Eu temia muito pela vida deles. No começo do ano passado, decidi que eles iam dormir na casa da minha cunhada, já que aqui a situação era crítica”, relata.

Vida por um fio

O agricultor conta que por ter presenciado a ação de criminosos, viu sua vida por um fio. “Eu os vi descendo e vim ver o que estava acontecendo. Eles estavam colocando fogo no carro e quando me viram, começaram a atirar em minha direção. Graças a Deus consegui escapar”, assegura.

Um dos moradores mais antigos da região que também não quis se identificar diz acreditar que, por ser deserto, o local  é ideal para as práticas criminosas. “Como a gente trabalha muito e não tem luz, dormimos muito cedo. Quando acordamos, já nos deparamos com o veículo queimado”, conta. Ele destaca que falta segurança para os moradores da região. “Deveria ter um policiamento. Além disso, teriam que retirar essas carcaças, elas acabam chamando outros bandidos”, diz.

O mecânico R.S, 32 anos, observa que apesar dos constantes problemas, os riscos não são tão expressivos. “Me mudei há apenas dois meses. Morava em Sobradinho II, que também é um lugar perigoso, mas para quem é do bem, os riscos não são tão grandes”, enaltece.

 Denúncia é ideal

Controlar a situação é um desafio para a polícia. Segundo o delegado-chefe da 26° DP de Samambaia Norte, Plácido Rocha Sobrinho, nos casos de desmanche, a principal dificuldade é  localizar o proprietário do veículo. “Procuramos fazer incursões no local  para ver a situação na qual o veículo se encontra. Porém, quando ele é totalmente queimado, fica impossível fazer a perícia e identificá-lo. Quando só resta a sucata, não fazemos a apreensão”, explica. Ele observa que roubos e furtos geralmente têm motivações específicas. “Uma delas é usar o carro para praticar outros crimes. A outra é o interesse no carro inteiro. E a terceira é a retirada de todas as peças possíveis do veículo”, explana.

O delegado ressalta que a população tem papel importante no combate a essa prática. “Quando observar algo suspeito, anote a placa. A denúncia é anônima”, estimula.

Quem deve retirar o carro do local?

O delegado-chefe da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos José Eduardo Galvão de C. Menezes explica que provavelmente o cemitério em Samambaia não é destinado ao desmanche, mas sim usado por criminosos que roubam o carro para utilizá-lo em outros crimes. “Existe uma grande dificuldade para se ter um desmanche naquele lugar. Tem que levar o carro para lá, ir com alguém em outro carro para transportar as peças. Com certeza, os autores não são especializados no roubo de veículo”, explica. Ele completa que 90% dos carros queimados são utilizados em outro crime. 

Segundo o delegado, quando a identificação é possível, a retirada do veículo é de responsabilidade do proprietário. “A polícia só trabalha em situações criminais. Se a identificação for feita, vamos ligar para o proprietário e é obrigação dele retirá-lo do local.  Eventualmente, o Estado faz isso. Mas o bem é do dono. Nos casos em que o seguro é acionado, ele faz a remoção do automóvel”, esclarece.

Entretanto, a afirmação do delegado é contestada de forma incisiva pelo membro da Comissão de Ciências Criminais e Segurança Pública da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF), Gerson Gonçalves. “Certamente a responsabilidade é do Estado. Quanto a isso não existe a menor dúvida. Cabe ao governo do DF, por meio de seus órgãos, como Secretaria de Segurança, Detran ou outros órgãos, se responsabilizar por isso”, assegura.

Perícia

Gerson destaca, ainda, o descaso dos órgãos governamentais com as vítimas. “A partir do momento em que o furto ocorre, já é clara a ineficiência do Estado. Então, a partir desse momento, cabe a ele devolver esse bem. Se houve essa falha, não é aceitável impor uma penalidade ao administrado”, criticou. Para o especialista, ainda que o veículo tenha sido queimado cabe uma perícia. 

Especializado x amador

O delegado-chefe da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos, José Eduardo Galvão de C. Menezes observa que os carros encontrados queimados no cemitério de Samambaia dificilmente são fruto de roubo ou furto de quadrilhas especializadas. “Quando a gente fala em especialização é em referência a uma pessoa inserida numa cadeia. Ele furta o veículo, vai clonar e revender”, exemplifica. Em contrapartida, o amador, segundo Galvão, não conta com mecanismos previamente planejados. “Ele só roubou o carro porque viu ali uma oportunidade”, salienta.

Triângulo das bermudas

A assessoria de imprensa da Polícia Civil confirma que a responsabilidade de retirar o veículo do local é da vítima. Contudo, segundo o órgão, caso a vítima não seja localizada, a PCDF recolhe o veículo e o encaminha ao pátio da delegacia que fez a solicitação, que irá tentar localizá-la e entregar o bem. 

Segundo a corporação, a PCDF somente recolhe ou informa vítimas proprietários de veículos roubados/furtados. No caso de veículos abandonados, mesmo que queimados, são de responsabilidade da administração da região.

Problemas

Apesar do número de furtos ter aumentado neste ano, o número de roubo a veículos teve queda de 5,6%, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (veja infografia). “Era para ser o inverso, ou seja, o número de roubos maior do que o de furtos, em decorrência da dificuldade encontrada pelos criminosos com a quantidade de dispositivos de segurança. No roubo, no momento em ele aborda a vítima, a situação está sob controle”, garante o membro da Comissão de Ciências Criminais e Segurança Pública da OAB-DF, Gerson Gonçalves.

Segundo o especialista, o DF conta com três cidades recordistas no número de carros furtados ou roubados. “Temos uma região que é conhecida como triângulo das bermudas, que compreende as cidades de Taguatinga, Ceilândia e Samambaia”, diz. Ele ainda explica que isso influencia no valor do seguro dos veículos. “Nesses locais, o preço do seguro é mais caro”, ressalta. De acordo com Gerson, a vítima que tem o carro levado é duplamente penalizada. “A partir do momento que isso acontece, vai constar no sistema que o carro foi roubado ou furtado. Então, mesmo que ela venda o veículo para terceiros, não é mais possível fazer o seguro”, frisa. Outro agravante é o aumento do preço cobrado pelas seguradoras. “Por exemplo, se as seguradoras registram que acontecem muitos roubos em determinada região, o preço cobrado naquele local será maior do que a média”, relata.

Pense nisso

A polícia diz que a responsabilidade de retirar o veículo queimado do local, quando identificado, é do proprietário do carro.  Não deveria ser. Assim sendo, o dono do automóvel é penalizado duas vezes: a primeira por ter perdido o veículo para um criminoso, fato que, pelo menos na teoria, deveria ter sido evitado pelo Estado por meio das forças de segurança; e a segunda, por ter de arcar com os custos de retirar de determinado local um bem que não lhe servirá mais para nada. Diante disso, é preciso rever a ação policial, aumentando a segurança para evitar delitos como esse.

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