Eles estão por todos os cantos. Vendem roupas, sapatos, acessórios, eletrônicos, CDs, utilidades para o lar e até comida. Os produtos ficam expostos no chão, em pequenas mesas ou em grandes estruturas, mas nem sempre os preços são abaixo de mercado. Agora eles têm até máquina para compras com cartões de crédito e débito. Mesmo com locais construídos especificamente para eles, os ambulantes permanecem nas ruas construindo verdadeiros camelódromos. A alegação é de falta de estrutura e de fluxo de pessoas nos shoppings e feiras populares. Nas ruas, a renda seria maior.
Enquanto isso, a Secretaria de Estado da Ordem Pública e Social (Seops) apreendeu cerca de 650 mil produtos apenas no primeiro semestre deste ano em ruas e feiras do DF. Desses, 87 mil são itens como chaveiros, panos de chão, roupas e acessórios para celular. O restante, 562 mil, são mercadorias falsificadas. No ano passado, 1,4 milhão de produtos foram recolhidos.
“A fiscalização é constante e ocorre diariamente em várias regiões”, garante o subsecretário de Operações da pasta, Luciano Teixeira. Mas os ambulantes sempre voltam.
Donos de banca
Rodrigo Araújo, 37 anos, é ambulante há 15 anos. Mesmo com um box no Shopping Popular de Brasília, próximo à Rodoferroviária, às margens da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), diz preferir vender seus produtos no Setor Comercial Sul. No local, dezenas de pessoas passam o dia oferecendo mercadorias variadas.
“Não vale a pena ficar lá. Tenho quatro filhos para criar e preciso de dinheiro. Lá, a gente passa fome”, justifica Rodrigo, que vende roupas que garante ser de boa qualidade: “São as mesmas do shopping, mas mais baratas. Pode conferir!”. No Setor Comercial Sul, o vendedor tem clientes fiéis.
Sem retorno
A banca de Rodrigo está aberta. Ele diz pagar todas as contas necessárias para a manutenção de seu espaço, mas afirma que só sai das ruas quando o shopping tiver maior apelo popular. “Não tem retorno, é só gasto. As pessoas não vão para lá e a gente não pode vender para mosquitos. Vou ficar por aqui até quando eu puder”, admite.
Mas, se uma operação da Seops aparece, tem de recolher tudo e correr para não perder os produtos. “O risco vale a pena pelo lucro”, diz.
Nas ruas, não são legalizados, não pagam impostos e, muitas vezes, são nômades – estão cada dia em um ponto. Nos shoppings regularizados, os feirantes pagam taxa de manutenção de R$ 40.
Prejuízo certo no Shopping Popular
“Não houve suporte. Eles nos jogaram na feira e abandonaram. Não tem passarela, as pessoas não vão. Só dá prejuízo”. A reclamação é de José Wilson, 43 anos, ambulante há 27 anos. Para ele, o espaço do Shopping Popular, onde mantém uma banca fechada, é maravilhoso, mas ainda não vale a pena. O prejuízo é certo. Tem de tirar dinheiro do bolso para manter o local, mas as vendas são mínimas.
A opinião é compartilhada por vários vendedores. No Setor Comercial Sul há pelo menos cinco anos, um vendedor de bolsas de 30 anos, que preferiu não se identificar, conta que a esposa administra a banca que possui no Shopping Popular. Assim, eles podem comparar os lucros de vendas. “Lá não tem fluxo de pessoas nem propaganda. Aqui rende mais”, constata.
No entanto, o comerciante não dispensa se dedicar exclusivamente ao local, caso compense. A estrutura das bancas é considerada boa e o sossego também é uma vantagem. “Ali, não temos que nos preocupar com o ‘rapa’. O lugar é nosso e podemos vender nossos produtos. Mas ainda não dá para ficar lá, é só prejuízo”, argumenta. A desativação da Rodoferroviária é apontada como um dos problemas, pela diminuição do movimento.
Rodoviária
O governo, por sua vez, sustenta que os fiscais estão nas ruas para coibir o comércio ilegal. Há menos de uma semana, uma forte fiscalização passou pelo centro de Taguatinga, mas já é possível se deparar com dezenas nos mesmos lugares. Na Rodoviária do Plano Piloto há ações durante todo o dia.
“Nosso objetivo é organizar o espaço público. Na rodoviária, os agentes chegam cedo e evitam a montagem das estruturas que atrapalha a mobilidade”, explica o subsecretário de Operações da Seops, Luciano Teixeira.
Uma família de deficientes visuais concorda. Ontem, para o alívio deles, apenas dois ambulantes estavam presentes na plataforma superior. A aposentada Maristela Batista, 46 anos, seu marido Ronaldo Carvalho, 46, e a filha Márcia Batista puderam andar com mais segurança. “A gente tropeça, eles derrubam nossa bengala e muitos não nos respeitam”, diz Maristela.