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Brasília

Festa das Águas celebra Rainha do Mar

Evento busca valorizar o espaço e ampliar sua ocupação com terreiros, grupos culturais, praça de artesanato e de gastronomia, advindos das religiões de matriz africana

Redação Jornal de Brasília

02/02/2022 20h10

Atualizada 03/02/2022 13h58

Crédito: Myke Sena/Miracena

Por Amanda Karolyne
redacao@grupojbr.com

Anualmente, o Instituto Rosa dos Ventos homenageia Iemanjá na Praça dos Orixás, onde fiéis das religiões de matrizes africanas se reúnem para celebrar a entidade Iemanjá. Na terça-feira, 2 de fevereiro de 2022, aconteceu a Festa das Águas, com uma iniciativa do Instituto Rosa dos Ventos. Um evento que busca valorizar o espaço e ampliar sua ocupação com terreiros, grupos culturais, praça de artesanato e de gastronomia, reafirmando, desse modo, a força e a beleza das culturas de matriz africana. Ambos, espaço e festejo, foram homologados como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal desde 2018.

Com uma programação diversificada, o encontro destaca o simbolismo cultural das ações. Entre as principais atrações, estiveram Samba para Iemanjá com Breno Alves e Batucada para as Águas, cujas apresentações foram pensadas especialmente para a ocasião. A Roda, Encantaria das Mata, Roda de Percussão, Batucada para as Águas, Cortejo para Iemanjá, Bando Matilha Capoeira e Nãnan Matos também marcaram presença como atrativos artísticos. Com o propósito de reforçar os símbolos representantes dessa vertente, a Feira de Artesanato e a Praça de Alimentação contaram com pratos e artesanais típicos.

Crédito: Myke Sena/Miracena

O coordenador geral do evento, Everton Oliveira, explica que por um lado, um evento dessa magnitude nos tempos de hoje no DF tem efeitos a curto prazo. “Pela capacidade de reunir representantes e público com algum tipo de vínculo ou interesse pelas culturas de matriz africana, para celebrar seus ritos, crenças e práticas”, conta. Por outro lado, ele acredita que os logros alcançados a longo prazo são incomensuráveis. “Uma vez que repercutem diretamente na manutenção, na preservação e na difusão de tradições ancestrais, cuja existência, como sabemos, sofre riscos significativos diante da discriminação religiosa e do racismo estrutural. Desse modo, realizar a Festas das Águas é um feito que ultrapassa as dimensões artístico-culturais”, destaca. Para ele, o evento atinge o campo sócio-político com um poder de transformação maior do que o que se pode calcular no presente. “Deixa legados importantes e cumpre um papel ativo na sociedade, principalmente, no Distrito Federal e arredores”, explica o coordenador geral, Éverton Oliveira.

Stéffanie Oliveira, presidente da Rosa dos Ventos, relata sua visão sobre a iniciativa e por que na Praça dos Orixás, que segundo ela, para as tradições culturais das matrizes africanas, é fundamental poder celebrar amplamente uma data como o 2 de fevereiro em um local tão valioso como a praça. “Trazer nossos símbolos, rituais, festejos, músicas, comidas, vestimentas, palavras e presenças para esse espaço público, cujo reconhecimento é irrefutável, representa manter caminhos abertos para o povo de terreiro, do axé, enfim, da ancestralidade afro”, ressalta.

Crédito: Myke Sena/Miracena

Stéffanie relata que com isso, são mantidas abertas as possibilidades de diálogo com as diferenças, para evitar que estas impeçam que as pessoas convivam com a representatividade, sem medo da opressão e com voz entre nossos pares. Ela explica, que a Festa das Águas acontece na Praça dos Orixás, porque ela é mais um dos ícones da cultura, que os reverbera para o mundo, mas que também precisa de atenção e cuidado. “O evento a protege, a exalta e a faz cumprir a função de agregar pessoas, como um espaço desses deve fazer. Somos abraçadas pela prainha e a abraçamos de volta”, comenta.

Além disso, a presidente da Rosa dos Ventos aponta que, como o apelido confirma, acontece às margens preciosas do Lago Paranoá. “Para as tradições de matriz africana, o elemento água é essencial, significa vida, limpeza, renovação, nascimento, entre outros importantes conceitos. É também uma possibilidade de conexão com entidades simbólicas das culturas de matriz africana, como Iemanjá”. Então, segundo Stéffanie, não haveria lugar mais propício e potente para um feito desses. “A Festa das Águas é tão importante para Praça dos Orixás como o contrário”, frisa.

A Festa das Águas também traz a preocupação com o meio ambiente e com a manutenção do patrimônio público. O uso de materiais biodegradáveis para quem prestou homenagens às entidades, foi incentivado, tais como flores, frutas, comidas, fibras vegetais e similares. Outro ponto importante para o projeto é a preservação da Praça dos Orixás, como território cultural e como ponto simbólico, no Distrito Federal, para culturas afro. A Praça já foi depredada, somente ano passado ela foi alvo de 2 ataques de intolerância religiosa.

Yalorixá Mãe Vilcilene de Jagun, é membro do Coletivo das Yás, para ela, o dia 2 de fevereiro é um dia importante por marcar a data da nossa senhora dos navegantes, a Iemanjá. “A mãe de todos, a palavra Iemanjá significa mãe cujos filhos são peixes, nos mostrando que nós somos um grande cardume em cima da terra, e temos que nos unir e manter o caminho fraternal. Considerar uns aos outros como irmãos”, relata. Para ela, é um momento de união para pedir saúde, paz e proteção. “Todas as águas se encontram no mar, todos os caminhos que nós formos nós vamos terminar no mar, ele abraça tudo, nos protege e nos alimenta, nos mantém forte. E essa força é para nós das religiões de matrizes africanas, a Iemanjá”.

A mãe Vilcilene explica que Iemanjá é a mãe das cabeças, que dá aos fiéis a permissão para que cada um com o próprio discernimento, a capacidade de julgar o que é certo e errado. “E Iemanjá nos dá essa condição de amor materno, que é o que mais precisamos hoje. Nós no Brasil estamos precisando de amor, de respeitar os outros, de trazermos a paz que as águas nos dão e de limparmos quando a gente se sente sujo”, reflete. Ela afirma que mesmo sem o mar, a ocupação da Prainha é importante para a luta pelo que Iemanjá os ensina. “União e amor, que é o que estamos precisando. Nós vimos uma violência terrível no Rio de Janeiro, e se as pessoas tivessem união, amor e respeito, não haveria uma coisa tão feia como foi com Moïse. Falta esse sentido de que todos estamos no mesmo barco”, finaliza.

A Praça estava recheada de pessoas celebrando o dia e fazendo oferendas às entidades. Ingrid Prateado, 28, psicóloga, acredita que o evento é uma forma de fortalecer a fé e a espiritualidade. “De fortalecer a conexão com as águas e os orixás, e com a natureza”. Ela não foi criada na religião, mas considera simbólico estar presente.

Mateus Lôbo, 26 anos, publicitário, é adepto a ideia de que tem de conhecer todas as culturas e religiões. Para ele, é importante ter esse evento, sobretudo para que as pessoas possam exercer a fé publicamente e para ocupar os espaços. “Mesmo tendo vandalismo, a galera está resistindo”, afirma.

O cortejo estava previsto para começar no final da tarde, seguindo da Praça dos Orixás até o Lago, onde são feitas as oferendas. A entrada gratuita ao evento, seguiu os protocolos de saúde, com todos utilizando máscaras e álcool.

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