Por Amanda Karolyne
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Anualmente, o Instituto Rosa dos Ventos homenageia Iemanjá na Praça dos Orixás, onde fiéis das religiões de matrizes africanas se reúnem para celebrar a entidade Iemanjá. Na terça-feira, 2 de fevereiro de 2022, aconteceu a Festa das Águas, com uma iniciativa do Instituto Rosa dos Ventos. Um evento que busca valorizar o espaço e ampliar sua ocupação com terreiros, grupos culturais, praça de artesanato e de gastronomia, reafirmando, desse modo, a força e a beleza das culturas de matriz africana. Ambos, espaço e festejo, foram homologados como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal desde 2018.
Com uma programação diversificada, o encontro destaca o simbolismo cultural das ações. Entre as principais atrações, estiveram Samba para Iemanjá com Breno Alves e Batucada para as Águas, cujas apresentações foram pensadas especialmente para a ocasião. A Roda, Encantaria das Mata, Roda de Percussão, Batucada para as Águas, Cortejo para Iemanjá, Bando Matilha Capoeira e Nãnan Matos também marcaram presença como atrativos artísticos. Com o propósito de reforçar os símbolos representantes dessa vertente, a Feira de Artesanato e a Praça de Alimentação contaram com pratos e artesanais típicos.

O coordenador geral do evento, Everton Oliveira, explica que por um lado, um evento dessa magnitude nos tempos de hoje no DF tem efeitos a curto prazo. “Pela capacidade de reunir representantes e público com algum tipo de vínculo ou interesse pelas culturas de matriz africana, para celebrar seus ritos, crenças e práticas”, conta. Por outro lado, ele acredita que os logros alcançados a longo prazo são incomensuráveis. “Uma vez que repercutem diretamente na manutenção, na preservação e na difusão de tradições ancestrais, cuja existência, como sabemos, sofre riscos significativos diante da discriminação religiosa e do racismo estrutural. Desse modo, realizar a Festas das Águas é um feito que ultrapassa as dimensões artístico-culturais”, destaca. Para ele, o evento atinge o campo sócio-político com um poder de transformação maior do que o que se pode calcular no presente. “Deixa legados importantes e cumpre um papel ativo na sociedade, principalmente, no Distrito Federal e arredores”, explica o coordenador geral, Éverton Oliveira.
Stéffanie Oliveira, presidente da Rosa dos Ventos, relata sua visão sobre a iniciativa e por que na Praça dos Orixás, que segundo ela, para as tradições culturais das matrizes africanas, é fundamental poder celebrar amplamente uma data como o 2 de fevereiro em um local tão valioso como a praça. “Trazer nossos símbolos, rituais, festejos, músicas, comidas, vestimentas, palavras e presenças para esse espaço público, cujo reconhecimento é irrefutável, representa manter caminhos abertos para o povo de terreiro, do axé, enfim, da ancestralidade afro”, ressalta.

Stéffanie relata que com isso, são mantidas abertas as possibilidades de diálogo com as diferenças, para evitar que estas impeçam que as pessoas convivam com a representatividade, sem medo da opressão e com voz entre nossos pares. Ela explica, que a Festa das Águas acontece na Praça dos Orixás, porque ela é mais um dos ícones da cultura, que os reverbera para o mundo, mas que também precisa de atenção e cuidado. “O evento a protege, a exalta e a faz cumprir a função de agregar pessoas, como um espaço desses deve fazer. Somos abraçadas pela prainha e a abraçamos de volta”, comenta.
Além disso, a presidente da Rosa dos Ventos aponta que, como o apelido confirma, acontece às margens preciosas do Lago Paranoá. “Para as tradições de matriz africana, o elemento água é essencial, significa vida, limpeza, renovação, nascimento, entre outros importantes conceitos. É também uma possibilidade de conexão com entidades simbólicas das culturas de matriz africana, como Iemanjá”. Então, segundo Stéffanie, não haveria lugar mais propício e potente para um feito desses. “A Festa das Águas é tão importante para Praça dos Orixás como o contrário”, frisa.
A Festa das Águas também traz a preocupação com o meio ambiente e com a manutenção do patrimônio público. O uso de materiais biodegradáveis para quem prestou homenagens às entidades, foi incentivado, tais como flores, frutas, comidas, fibras vegetais e similares. Outro ponto importante para o projeto é a preservação da Praça dos Orixás, como território cultural e como ponto simbólico, no Distrito Federal, para culturas afro. A Praça já foi depredada, somente ano passado ela foi alvo de 2 ataques de intolerância religiosa.
Yalorixá Mãe Vilcilene de Jagun, é membro do Coletivo das Yás, para ela, o dia 2 de fevereiro é um dia importante por marcar a data da nossa senhora dos navegantes, a Iemanjá. “A mãe de todos, a palavra Iemanjá significa mãe cujos filhos são peixes, nos mostrando que nós somos um grande cardume em cima da terra, e temos que nos unir e manter o caminho fraternal. Considerar uns aos outros como irmãos”, relata. Para ela, é um momento de união para pedir saúde, paz e proteção. “Todas as águas se encontram no mar, todos os caminhos que nós formos nós vamos terminar no mar, ele abraça tudo, nos protege e nos alimenta, nos mantém forte. E essa força é para nós das religiões de matrizes africanas, a Iemanjá”.
A mãe Vilcilene explica que Iemanjá é a mãe das cabeças, que dá aos fiéis a permissão para que cada um com o próprio discernimento, a capacidade de julgar o que é certo e errado. “E Iemanjá nos dá essa condição de amor materno, que é o que mais precisamos hoje. Nós no Brasil estamos precisando de amor, de respeitar os outros, de trazermos a paz que as águas nos dão e de limparmos quando a gente se sente sujo”, reflete. Ela afirma que mesmo sem o mar, a ocupação da Prainha é importante para a luta pelo que Iemanjá os ensina. “União e amor, que é o que estamos precisando. Nós vimos uma violência terrível no Rio de Janeiro, e se as pessoas tivessem união, amor e respeito, não haveria uma coisa tão feia como foi com Moïse. Falta esse sentido de que todos estamos no mesmo barco”, finaliza.
A Praça estava recheada de pessoas celebrando o dia e fazendo oferendas às entidades. Ingrid Prateado, 28, psicóloga, acredita que o evento é uma forma de fortalecer a fé e a espiritualidade. “De fortalecer a conexão com as águas e os orixás, e com a natureza”. Ela não foi criada na religião, mas considera simbólico estar presente.
Mateus Lôbo, 26 anos, publicitário, é adepto a ideia de que tem de conhecer todas as culturas e religiões. Para ele, é importante ter esse evento, sobretudo para que as pessoas possam exercer a fé publicamente e para ocupar os espaços. “Mesmo tendo vandalismo, a galera está resistindo”, afirma.
O cortejo estava previsto para começar no final da tarde, seguindo da Praça dos Orixás até o Lago, onde são feitas as oferendas. A entrada gratuita ao evento, seguiu os protocolos de saúde, com todos utilizando máscaras e álcool.