A Câmara Legislativa viveu um dia de intensos embates nesta segunda-feira (2). A reunião entre os deputados distritais e o presidente do Banco de Brasília (BRB), Nelson Souza, terminou sem um consenso para a votação do Projeto de Lei nº 2.175/2026. O clima de incerteza prevaleceu após a apresentação de dados técnicos divergentes e a pressão dos parlamentares por mais transparência sobre o plano de capitalização de R$ 6,6 bilhões.
Embora o governo pressione pela aprovação célere, o Legislativo decidiu que o rito de votação só será definido no Colégio de Líderes desta terça-feira (3), porém com grandes chances de ir a plenário.
“Uma reunião extensa, mas proveitosa. As dúvidas foram tiradas, mesmo que não concordem com a posição do presidente. Há condições de votar amanhã. Para isso precisamos passar primeiro pelo Colégio de Líderes, respeitando o rito e, tendo a maioria, a gente coloca para votar”, definiu o presidente da Câmara Legislativa, Wellinton Luiz (MDB).
O líder do governo na CLDF, Hermeto (MDB), também defendeu que o projeto seja votado nesta terça-feira. “O presidente mostrou abertamente como está a situação do banco. O presidente marcou a reunião do Colégio de Líderes para as 14h30 e vamos analisar claramente tudo que foi falado hoje e, se Deus quiser, vamos tirar o banco dessa situação e salvar mais de 6 mil empregos”
Muito pressionado pelos distritais, o presidente do BRB, Nelson Souza, também falou sobre a possibilidade de votação. “Apresentamos um plano de capital pela primeira vez no dia 7 de janeiro de 2026 […] para que no dia 18 de março nós queremos fazer aí a solução definitiva para o Banco de Brasília”.
O deputado Joaquim Roriz Neto (PL) deu voz à gravidade da situação com declarações fortes sobre o estado da instituição. Para ele, o tempo é o maior inimigo do banco e do Distrito Federal.
“O BRB hoje é como se fosse um paciente com a perna necrosada. E a solução é cortar a perna. Não é a solução ideal, mas ou você faz isso ou você morre”, comparou o parlamentar. “Dia 31 de março é a data limite. Se não houver nenhum tipo de solução até esse prazo, a resposta é simples: o banco vai falhar.”
Sem clareza dos valores, segundo os parlamentares, coube ao presidente do BRB revelar de quanto é a dívida. “Nós fomos bastante conservadores na definição desse valor. […] Em todos eles a provisão de aproximadamente R$ 8 bilhões mais ou menos e o aporte de capital é na faixa máxima de 6.6 bilhões.”
“Não temos somente uma [opção] para aporte, nós temos um, dizemos assim, um menu de opções: nós temos o empréstimo junto ao FGC, nós temos um empréstimo junto ao sindicato de bancos, nós temos um fundo imobiliário com esses imóveis”, disse Nelson Souza. “Temos subsidiárias que nós podemos vender participação, nós temos uma carteira do Master que nós não vendemos nada ainda, lembrando que ela é de 21,8, 21,9 bilhões.”
Paralisação de serviços
Durante a reunião com os parlamentares, o presidente do BRB afirmou que os valores a serem alienados, além de servirem como caixa para o Fundo Garantidor, será utilizado em favor do banco será para manter os serviços.
A equipe do BRB disse que, em caso não ocorrer o socorro pedido, mais de 20 serviços, entre eles Cartão Material Escolar, Cartão Uniforme e Transporte podem ficar paralisados.
Requerimento
Um dos momentos cruciais da reunião foi a apresentação de um requerimento formal por parte do governista Joaquim Roriz Neto. O documento pede a reavaliação imediata dos terrenos oferecidos pelo GDF (via Terracap) para cobrir o rombo do banco. O parlamentar demonstrou ceticismo quanto aos valores atribuídos a lotes bilionários, suspeitando que o patrimônio público pode estar sendo subavaliado.
“Alguns terrenos você bate o olho e pensa que podem valer muito mais do que está falando ali. Fizemos esse requerimento para garantir que os valores realmente atribuídos a cada terreno estão corretos e dar segurança para os deputados indecisos”, explicou.
Os dados apresentados na reunião revelam um pacote de alienação que soma quase R$ 6,5 bilhões, mas foi questionado pelos distritais e críticas da Consultoria Legislativa (Conlegis).
| Localização / Imóvel | Lote | Valor de Avaliação Apresentado |
| Setor Habitacional Taquari (Serrinha) | Único | R$ 2,2 bilhões |
| SIA (Sede da NOVACAP e adjacentes) | Lote B | R$ 1,02 bilhão |
| SIA | Lote F | R$ 632 milhões |
| SIA | Lote G | R$ 632 milhões |
| SIA | Lote C | R$ 547 milhões |
| SIA | Lote I | R$ 364 milhões |
| SIA | Lote H | R$ 361 milhões |
| Taguatinga (Área do Centrad) | Quadra 3 | R$ 491,4 milhões |
| Setor de Áreas Isoladas Norte | Único | R$ 239 milhões |
| VALOR TOTAL ESTIMADO | – | R$ 6,486 bilhões |
“O que eles reclamaram foi com relação ao ‘valuation’ dos imóveis e isso já foi remetido para que o projeto de lei que vai ser votado amanhã venha com esses terrenos com endereço, com ‘valuation’, com todos os anexos. O principal item hoje é pegar, fazer um fundo de investimento imobiliário e colocar esses imóveis dentro”, completou o presidente.
Privatização
Tanto deputados de oposição quanto da base defenderam que o BRB não seja privatizado ou federalizado. “Federalização e privatização estão totalmente fora do menu e esses dois temas não estão em pauta.”
“Qualquer banco fortalecido como é o BRB, eu diria que é a ‘joia da coroa’. Só sobraram cinco bancos estaduais no Brasil […] e entre eles o mais forte é o BRB. É um produto que todo mundo quer, mas isso com certeza não está nas opções.”
O líder do governo também falou sobre a possibilidade de privatização do BRB. “Há sim uma intenção de privatizar esse banco por parte de alguns, porque é uma banco lucrativo, que tem liquidez, que vai sair dessa situação e ficar mais forte ainda”, concluiu.
Decano da Câmara Legislativa, o deputado Chico Vigilante (PT) garantiu que não, por parte do governo federal, a intenção de federalizar o BRB. “A federalização está descartada. Não há essa possibilidade, nem a de privatizar. O que vamos fazer aqui é tentar salvar o banco.”
Judicialização
Antes de deixar a CLDF, Souza anunciou que a instituição entrou com pedido para que as carteiras do BRB sejam retomadas do Master. “Entramos com uma petição junto ao Supremo Tribunal Federal […] para que todo fluxo financeiro das carteiras que estão no BRB que foram adquiridas pelo Master […] venha para nós. Isso nos dá liquidez”, afirmou o presidente que completou: “Já foi deferido [o pedido] e tem 48 horas para que o liquidante possa nos dar esse retorno. Tudo que está podendo ser feito para que o banco de Brasília possa reaver seus recursos, nós não mediremos esforços.”
Vítima de quem?
Parlamentares questionaram o presidente sobre quem era a responsabilidade pelo prejuízo. “Todos estão de acordo que o banco foi vítima, mas a pergunta que não quer calar: foi vítima de quem? Precisamos responsabilizar as pessoas que colocaram a gente nessa situação”, afirmou.
Uma das garantias dadas pelo presidente Nelson Souza foi que não há planos para privatização e que o banco busca um valor “um pouco acima do necessário” para garantir a sobrevivência e manter ativos os pagamentos de 209 mil servidores e programas sociais. Contudo, o destino do BRB agora depende do Colégio de Líderes e da clareza dos laudos exigidos pelos parlamentares.