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Brasília

Família marcada pela perda, um ano após atropelamento na EPTG

Um ano após o atropelamento, a família de Amanda visita a bicicleta que mantém viva a memória da nutricionista.

Amanda Karolyne

24/11/2025 19h00

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Fotos de Regina Célia Martins Machado, as irmãs e uma amiga, homenageando Amanda Martins Machado, atropelada em novembro di ano passado na EPTG

O Dia em Memória das Vítimas de Trânsito, celebrado mundialmente no terceiro domingo de novembro, marca um momento de reflexão sobre vidas interrompidas e histórias que ficaram inacabadas. Mas essa consciência precisa se estender ao cotidiano, já que para quem perdeu um ente querido, essa lembrança é diária. No dia 24 deste mês, completou um ano que a família de Amanda Martins Machado, 26 anos,  a perdeu em um atropelamento na marginal da EPTG. A equipe de reportagem acompanhou seus familiares em uma visita à ghost bike que mantém viva sua lembrança no local onde ela foi atropelada há um ano.

Para Regina Célia Martins Machado, 61 anos, aposentada, é muito doloroso perder uma filha. Ela teve dois filhos, Fernando e Amanda, que era a caçula. Regina contou, com orgulho e saudade, que a filha era nutricionista do Hospital Santa Lúcia Norte. “Eu não estou vivendo, eu estou flutuando. Viver, na verdade, a gente vive porque tem que viver, mas é muito grande a dor de perder uma filha doce, tranquila e amorosa, igual a Amanda era”, disse.

Regina lembra que, um ano atrás, antes do acidente acontecer, Amanda e um colega foram ao Pontão do Lago a passeio de bicicleta. Passaram o dia todo por lá, mas, na hora de voltar de metrô com as bicicletas, a estação já estava fechada. “Eles decidiram voltar pedalando e eu ligava para ela a todo momento. Eu estava muito preocupada.” Ela descreve que, às 22h20, fez a última ligação para a filha: “Eu consegui falar com ela, que falou: ‘Já estou chegando, estou perto do Taguatinga Parque e vou para casa’.” Depois disso, um carro passou pela marginal da EPTG a 130 km/h em uma via cujo limite é 60 km/h. “Isso esteve na perícia. Ele veio a 130 km e pegou ela de costas, matando na hora.”

A mãe de Amanda está encontrando forças junto com a família, mas contou ao *JBr* que esse primeiro ano foi difícil. “Eu tenho um netinho pequenininho de 2 anos. Inclusive, ele faz aniversário no dia 23 de novembro e o acidente foi dia 24. Nem se comemora. Ficou marcado o aniversário dele”, relatou. Para Regina e toda a família, a falta dela tem sido muito triste. “Ela sempre esteve presente. Minha única filha mulher, muito minha amiga.” Uma morte tão repentina e trágica, para Regina, foi sem recado nenhum, abrupta. “Ela foi embora sem eu ter dado o último abraço nela.”

A organização Rodas da Paz restaurou a bicicleta de Amanda e a pintou de branco, a transformando em uma Ghost Bike — símbolo que representa um ciclista que morreu atropelado. E o local virou um ponto para que a família a homenageie todos os anos. Neste 24 de novembro de 2025, Regina veio com as irmãs, algumas amigas e sobrinhas para honrar a vida de Amanda com flores na bicicleta e balões brancos. “Eu não abandono esse ponto. Estou sempre visitando, tanto a bicicleta quanto o cemitério, porque não dá para descrever, mas é uma dor muito forte perder uma filha na flor da idade.” Regina ressaltou o quanto Amanda amava a vida: “Ela estava aproveitando as viagens que fazia, andava de bike, se dedicava ao trabalho.”

Expectativa por justiça

Uma audiência pública foi marcada para o dia 26 de janeiro, no processo contra o motorista do Hyundai HB20 prata que atropelou Amanda. Regina espera que ele responda pelo que fez. “Ele matou uma pessoa.” Regina destacou que espera que os motoristas possam respeitar mais os ciclistas e as pessoas que andam na faixa de pedestre. “Ali atrás desse ser humano tem um sonho, tem uma família, tem um pai, uma mãe que estão sofrendo”, completou. Além disso, ela acredita que quem atropela alguém merece pagar pelo crime. “Não pode ficar por isso mesmo, não pode.”

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Amanda Karolyne Bicicleta em memória de Amanda. 

Fátima Jandira Martins Alves do Nascimento, 65 anos, lactarista, não só era tia de Amanda, como também trabalhava com ela no hospital. “Era uma pessoa que amava a vida, amava viver”, comentou. Para ela, acompanhar de perto a sobrinha nos últimos dois anos de vida foi um presente. “A gente viveu intensamente, tanto na profissão quanto em brincadeiras, e eu conheci um novo lado dela.” Fátima se emociona ao lembrar que, antes de partir de forma tão brutal e rápida, Amanda estava vivendo a melhor fase da vida. “Ela estava no ciclismo, estava viajando e muito feliz. Vai ficar para sempre na nossa memória essa pessoa jovem, que tinha tanta coisa para viver. Uma menina batalhadora ter ido embora dessa forma tão trágica”, refletiu.

Segundo Fátima, a família tem tentado se fortalecer buscando o apoio uns dos outros, principalmente nos momentos em que não é fácil. “Mas a gente também pede por justiça. Porque o rapaz que a atropelou estava acima da velocidade permitida”, frisou. Ela deixou uma mensagem para que os motoristas possam ter mais empatia com as pessoas na rua, os outros carros, motoqueiros, ciclistas e pedestres. ” Que tenham amor a eles e mais cuidado com as outras pessoas”, finalizou.

A importância de um sistema de acolhimento pós-acidente

O agente de trânsito e autor do livro Vidas Interrompidas, Mário Fernando de Freitas, acredita que é preciso ir além da prevenção de acidentes de trânsito. Depois de conversar com famílias que perderam parentes em acidentes e dele mesmo ter passado por essa perda, ele concluiu o quanto é difícil o primeiro ano após a tragédia. “É uma experiência dolorosa e desafiadora para cada um e é um momento único de cada família para sair dessa situação”, afirma. Segundo ele, é fundamental pensar em um sistema de acolhimento às famílias em três frentes: material, psicológica e espiritual.

Mário defende a criação de um sistema de atendimento pós-acidente que vá além do socorro imediato, oferecendo protocolos de comunicação sensível e suporte completo às vítimas e suas famílias. A iniciativa inclui um guia de orientação para profissionais e familiares, com informações práticas sobre como lidar com o impacto emocional e social de acidentes de trânsito. Ele também ressalta a importância da prevenção contínua: “Não quero dizer que não tem que investir em prevenção. Muito pelo contrário, tem que ser mais investido”, afirma. O sistema poderia começar pelo Distrito Federal, com possibilidade de expansão para todo o país.

Ele destacou que o Brasil é o terceiro país do mundo com mais de 30 mil mortos por ano em acidentes de trânsito. No Distrito Federal, mais de 200 vidas são perdidas por ano nas vias. Em 2025, segundo o Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), os sinistros fatais registrados entre janeiro e setembro somam 174. Para além desses números, apenas no último domingo, 23 de novembro, e na madrugada desta segunda-feira, 24, dois atropelamentos ocorreram no DF: um no Eixão, na altura da 104 Sul, com a vítima encontrada já sem sinais vitais pelo Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF); e outro, envolvendo um ciclista na subida do Lago Sul, sentido Paranoá.

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