Jéssica Antunes
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Embaixo do viaduto que separa os lados norte e sul da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), moradores de rua já enfeitaram as árvores com motivos natalinos. As bolas vermelhas e douradas à beira da pista lembram que as festas de fim de ano estão logo aí e, esperando a generosidade do brasiliense, o número de barracas de papelão ou lona pelo DF pode aumentar consideravelmente. Hoje, cerca de quatro mil pessoas estão em situação de rua.
A relação entre a chegada do fim do ano e o aumento de moradores de rua não é imaginária. Apesar de não ter dado preciso, a Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (Sedhs) informa que “há, historicamente, um aumento significativo” nesses períodos.
Uma das hipóteses, segundo relatos das pessoas atendidas pelas equipes de abordagem social de rua e do plantão social da Sedhs, seria justamente “o aumento das doações feitas pela população”. É nessa época que existe mobilização para ceia de Natal e Ano Novo para pessoas em situação vulnerável, além de doações de roupas, calçados e brinquedos. O Natal da Rodoviária, por exemplo, é feito por voluntários desde 2008 no terminal do Plano Piloto e oferece esses serviços.
Comparativo
Doutora em Política Social, Lúcia Lopes lembra que apenas duas pesquisas no DF determinam o número de pessoas em situação de rua no DF: de 2008, quando 1,7 mil faziam parte do quadro, e de 2011, quando passou para 2,5 mil. “O aumento em épocas festivas é real. Em períodos de Natal, férias e Carnaval, em alguns lugares, há uma elevação das pessoas nas ruas”, afirma.
Não significa, porém, que tenha ocorrido aumento de pessoas em situação de vulnerabilidade. A diferença é que grande parte dos que vêm para os centros urbanos nesses períodos tem lugar para dormir apesar de serem pobres.
Ponto de vista
Para o especialista em Segurança Pública Nelson Gonçalves, há várias perguntas a serem respondidas. Ele diz que, “se há recorrência de comportamento de doação no DF neste período, certamente se reproduzirá a migração” porque funciona como um chamariz. No entanto, o momento de crise enfrentado pelos brasileiros pode diminuir o volume de doações neste ano. “Mas isso só poderá ser percebido depois. Se há expectativa, a falta de atendimento será motivo de frustração e pode criar outros problemas. Será que essas pessoas voltarão à cidade de origem ou vão engrossar a massa de moradores de rua que já temos?”, questiona.
Saiba mais
Para as pessoas especificamente em situação de rua, há os centros Pop, que oferecem atendimento especializado e espaço de guarda de pertences, higiene pessoal, lavagem de roupas e lanche. Há uma unidade na 903 Sul e outra na QNF 24 de Taguatinga. Trata-se de uma iniciativa do Governo Federal.
Já os centros de Referência Especializados em Assistência Social (Creas) buscam garantir os direitos socioassistenciais dos indivíduos e suas famílias, potencializando vínculos familiares e comunitários.
Esses centros ficam localizados no Plano Piloto, Brazlândia, Ceilândia, Estrutural, Gama, Planaltina, Samambaia, Sobradinho e Taguatinga.
Família inteira ao relento
Maranhense de Codó, que fica a 300 quilômetros da capital do estado, Marineide Ribeiro da Silva mora, atualmente, em uma barraca de lona no fim do Eixão Norte. Aos 53 anos, ela é obesa, tem diabetes e carrega uma lista de medicamentos que precisa comprar. Tenta vender balinhas para juntar dinheiro e cumprir o objetivo, mas seus movimentos já são limitados.
Ela foi para as ruas na última semana. Antes, morava de favor em Águas Lindas (GO). “Até a minha cama quebrou com o peso. É tudo muito difícil, nem consigo andar. No Maranhão, eu trabalhava, mas vim em busca de melhores condições. Eu até trabalhei, mas não soube aproveitar”, conta a mulher, que vive com outras seis pessoas da família entre árvores, muitos mosquitos e mau cheiro.
Resistência a abrigos
A Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social tem equipes de educadores sociais que identificam pessoas nas ruas que representem algum risco social e pessoal. Não há internação compulsória, ou seja, o morador precisa querer sair dali. No primeiro semestre do ano, 23.464 pessoas foram atendidas pelo Serviço de Abordagem Social e 1.521 quiseram acolhimento.
“O serviço deve garantir atenção às necessidades imediatas das pessoas, incluindo-as na rede de serviços socioassistenciais e nas demais políticas públicas, na perspectiva da garantia dos direitos. A abordagem social é realizada de forma programada e continuada, de acordo com agendamento e mapeamento de área”, explicou a pasta.
GDF suspende passagem de volta para casa
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (Sedhs), está suspenso o serviço que oferecia passagens interestaduais a pessoas interessadas em voltar para a terra natal.
Uma alternativa oferecida pelo governo, que também observa esses moradores que deixam a cidade de origem em busca de oportunidades do fim do ano, é o Serviço de Acolhimento Institucional da Assistência Social. A ação atende, em caráter provisório, indivíduos em situações como as de migração e sem condições de se sustentar.
“Eu não quero abrigo não. O que queria era tratar a obesidade e voltar a ter vida”, disse Marineide Ribeiro, acampada no fim do Eixão. Ela conta receber R$ 209 do programa Bolsa Família, que “não dá para nada”, mas recebe ajuda em forma de cesta básica. Rosângela Santos, 37, também não quer. Ela é da segunda geração de moradores de rua da família e, com os filhos, espera por doações.