Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br
A empregada doméstica José Messias teve de fazer uma peregrinação pelas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do Distrito Federal. Mas, mesmo com um quadro que incluiu pressão alta, coração acelerado, sangue na urina e falta de ar, ela não conseguiu atendimento. “Nunca vi uma condição dessas. Nunca me senti tanto um lixo”, definiu. Essa e outras situações semelhantes foram flagradas pelo JBr. em visita às seis UPAs.
Somente a ala de pacientes graves tem assistência completa. Aos demais, que buscam soluções para enfermidades, resta a sensação de decepção e a espera sem fim. O governo culpa déficit de profissionais.
Jogo de empurra
“Ficam me mandando de uma unidade a outra há quatro dias. Em Samambaia, não tinha médico, nem em São Sebastião, Ceilândia e Sobradinho. Aqui, no Núcleo Bandeirante, disseram que não tem previsão de atendimento”, reclamou José Messias, amazonense de 39 anos que está na cidade com um circo.
Ela sequer passou pela triagem após mais de sete horas de espera: “Não como há três dias. Ando e parece que vou cair. Não sei o que fazer”.
No meio da procura por atendimento, buscou ajuda na rede particular: R$ 450 pela consulta e R$ 1 mil pela medicação intravenosa. “A trabalho, já rodei o Brasil inteiro e algumas cidades do exterior. Só em Brasília vi isso. Todo mundo fala mal do Nordeste. Lá demora, mas tem médico. Não é como aqui, que bateu o recorde de mau atendimento”, avaliou.
A reportagem do Jornal de Brasília identificou uma situação padrão nas seis UPAs. Apenas duas mantinham acolhimento ao público fora de risco de morte com mais de um médico à disposição. Todas as outras tinham apenas um profissional na escala, e a população, sem alternativa, se dividia entre aguardar por um atendimento sem previsão ou ir para casa com dores.
Versão oficial
Diretora de Urgências e Emergências da Secretaria de Saúde, Julister Morais admite que a necessidade de profissionais é muito além do disponível na área. “Tem um mês que 181 médicos foram chamados. Cem entregaram a documentação, e muitos já pediram demissão. Esses deveriam cobrir somente a lacuna de contratos temporários. A necessidade é de 250, sem contar nas demais áreas. Faltam também farmacêuticos, enfermeiros, técnicos de enfermagem”, afirma.
Ela diz que muitos não querem trabalhar pela equipe fragmentada, fragilizada e incompleta. O corte das horas extras e os recorrentes atrasos de salário também interferem nisso. Os mais jovens, diz, temem trabalhar sem proteção. Ela defende que a unidade de pronto atendimento, como conceito, funciona, mas somente com equipes e condições de trabalho adequadas.
Ouvidoria pede 20 dias para uma solução
Em Sobradinho, a sala de espera vazia não representa excelência de atendimento. Pelo contrário, os pacientes logo precisam dar meia volta. Gemendo de dores nos rins, a cabeleireira Antônia Lacerda, 51 anos, implorou atendimento à ouvidoria da Secretaria de Saúde.
“Disseram que vão tomar providências em 20 dias. Para quem está passando mal, é quase sentença de morte”, contou. Ela faz tratamento no Hospital Universitário de Brasília, e a recomendação é ir à UPA em caso de inchaço. Ao chegar, recebeu o aviso da falta de médico.
Já são 15 dias de dor. “Não queria vir porque toda vez não sou atendida e me medico em casa. Na hora, passa, mas sei que pode prejudicar os rins. De ontem à noite a hoje de manhã, já foram oito comprimidos. É muito descaso”, lamentou.
Em Samambaia, mais de 20 pessoas chegaram à UPA pela manhã para tentar consulta com um dos quatro médicos que atenderiam à tarde, já que, por enquanto, a escala deixava claro que havia apenas um naquele horário – recebendo pacientes com risco de morte.
“Minha filha, com suspeita de dengue, foi para a triagem depois de horas esperando. Por que fazer triagem se não tem médico?”, questionou a aposentada Maria de Lourdes, 60 anos.
Confusão após longa espera em Ceilândia
“É um desperdício de dinheiro público!”, bradou o vigilante Antônio Machado, 60 anos, após quase dez horas de espera com uma pulseira verde, que indica a falta de gravidade do caso. Com gripe, tosse e dificuldade para respirar, ele diz que vai se automedicar. E levantou a voz quando, no fim da tarde, um atendente informou que ninguém seria atendido.
Depois de três dias tentando ser recebida por um médico, a vendedora Leurecy Lopes, 40 anos, fez uma promessa: “Só saio daqui quando minha filha for atendida”. Com pulseira da mesma cor, a jovem de 16 anos tinha febre, calafrios e dor no corpo e na cabeça. “Cheguei tem mais de seis horas e não vi ninguém ser chamado para atendimento, só triagem. Eu achei que a construção da UPA fosse melhorar o atendimento, desafogar o hospital, mas estamos aqui jogados às cobras. É terrível”, disse.
Ao menos chamam
Com um médico restrito à sala de internados e um no atendimento ao público conforme classificação de risco, a UPA do Recanto das Emas recebia pacientes sem gravidade. A fila de espera não era longa como as demais: menos de 20 pessoas com pulseira verde aguardavam.
Franciane Silva, 33 anos, ficou menos de 30 minutos à espera de triagem. Mal conseguindo falar, com a garganta inflamada, ela decidiu esperar pela consulta e medicação já que esporadicamente alguém era chamado. “Pelo menos estão chamando”, disse.
Mais médicos e pacientes
O quadro de escalas da Unidade de Pronto Atendimento de São Sebastião indicava a presença de três clínicos gerais: a maior quantidade entre todas as unidades do DF. Também era a que mantinha maior fila de espera. Cerca de 40 pessoas aguardavam atendimento há horas, como o ambulante Edvaldo Ramos, 25 anos. “Desde sábado, meu corpo inteiro coça, sequer consigo dormir. Estou aqui para descobrir o que tenho, não estou passeando. É uma falta de respeito e cada dia fica pior”, reclamou, depois de mais de três horas de espera.
“A saúde não pode esperar”
Para Marli Rodrigues, presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde, o maior problema das UPAs é a falta de recursos humanos e de materiais. “A intenção é boa, mas a aplicação é ruim. É para ser atendimento de urgência, mas os pacientes ficam à mercê das faltas. A saúde não pode esperar”, reforça. Para ela, trata-se de “uma estratégia do governo para terceirizar: deixam ruim para justificar isso”.
Presidente do Sindicato dos Médicos, Gutemberg Fialho lembra que o déficit em toda a rede de saúde pública ultrapassa as três mil cadeiras. Ele elenca as crises de abastecimento de recursos humanos e de insumos como principais entraves para o bom funcionamento das Upas.
“Precisamos de uma política efetiva e urgente. Enquanto isso não acontecer, a população continuará desassistida”, prevê.
Saiba mais
De acordo com o protocolo de classificação de risco adotado pelas unidades de saúde, a pulseira verde representa casos pouco urgentes, com baixo risco de agravo à saúde e com atendimento podendo ser feito em até duas horas.
Segundo orientação da Secretaria de Saúde, o paciente deve procurar a UPA em casos como parada cardiorrespiratória, dor no peito, dificuldade para respirar, convulsão, vômitos ou diarreias que não param ou com sangue, dor abdominal moderada a grave, dor de cabeça intensa, rigidez na nuca, queda súbita de pressão e alergia severa.