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Brasília

Falta de uso pode tirar orelhões das ruas

Arquivo Geral

26/10/2014 8h20

Se antes existiam filas para o uso de telefones públicos, hoje eles estão abandonados. Levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) revela que 60% dos 11.524 aparelhos instalados no DF recebem no máximo duas chamadas por dia. Nos últimos dez anos, houve uma redução de 48% no número de telefones públicos no DF.  A operadora Oi, responsável pelos aparelhos, aponta que cerca de 35% dos orelhões da capital falam menos de um minuto. Isso afeta a quantidade de aparelhos disponíveis na região.

Uma das explicações para a queda, que é a maior da média nacional, está nas mudanças no Plano Geral de Metas de Universalização da telefonia (PGMU). O plano tem o objetivo de se adequar periodicamente às necessidades da população. Os interessados em apresentar sugestões podem acessar o site www.anatel.gov.br, onde está disponível uma consulta pública até o dia 26 de dezembro. Em 2011, quando ocorreram as últimas mudanças, houve  redução de seis para quatro na quantidade mínima de  aparelhos que devem estar disponíveis para cada mil habitantes.

Segundo a Anatel, “a queda da demanda reflete a preferência por outros serviços, como mobilidade e acesso à internet. Com os orelhões, observa-se baixa utilização em quantidade de chamadas e no tempo de uso”.

A proposta é reduzir o número de equipamentos nos locais em que é identificada a falta de uso, mas mantê-los naqueles em que se torne indispensável. Em cidades com menos de 300 habitantes, por exemplo, todos os aparelhos devem permanecer. Nas sedes municipais e locais com menos necessidade, a distância mínima pode ser alterada de 300 para 600 metros entre os equipamentos. No entanto, 50% dos instalados em locais públicos seriam mantidos. 

Números

Entre 2008 e 2013, a operadora teve queda de 44% ao ano no consumo de créditos – o que representa uma redução de 96% nos últimos seis anos. Com a redução, 4% dos telefones públicos rendem receita suficiente para o pagamento do próprio custo de manutenção.

A Oi ressaltou que investe em estudos de sua planta telefônica e, se for verificada ociosidade de alguns aparelhos, eles podem ser transferidos para áreas de maior demanda, respeitando a regulamentação da Anatel.

Novas tecnologias tomaram o lugar

A facilidade das novas tecnologias deixam cada vez mais distantes as rotinas enfrentadas  para conversar com alguém distante. Atualmente, está no bolso uma série de comodidades telefônicas. De qualquer lugar que tenha rede é possível conversar com pessoas que estejam até do outro lado do mundo. 

Mas nem sempre foi assim. Era preciso comprar fichas – e depois cartões, enfrentar filas e desfrutar da falta de privacidade nos orelhões públicos. Hoje, esses equipamentos passam despercebidos pela maioria da população, enquanto outros os enxergam apenas para cometer atos de vandalismo. 

Atualmente, 223 dos 11.524 equipamentos do Distrito Federal estão em manutenção, revela a Anatel. De acordo com a Oi, 91% do total de equipamentos que apresentam defeitos são em virtude de atos de vandalismo, principalmente em leitora de cartões, monofones e teclado, além das pichações e colagem indevida de propagandas nos aparelhos e nas folhas de instrução de uso. No ano passado, em média 7% dos cerca de 12 mil orelhões instalados nas cidades do DF foram danificados por atos do tipo.

Usuários

O militar da reserva Ernesto Castro, 71 anos, revela que dependeu dos orelhões  durante muitos anos. “Era funcional, mas não era prático. Era preciso enfrentar fila, dividir a conversa com outras pessoas. Hoje, só uso se meus quatro celulares descarregarem”, assume. Ainda assim, ele acredita que os aparelhos não devam ser removidos. ““Às vezes é necessário, pode ter emergências”, afirma.

Encontrado utilizando o telefone público em Taguatinga, o colorista automotivo Adriano Gomes, de 39 anos, confessa que ainda tem o costume de fazer ligações para fixo apenas do equipamento, mesmo tendo no bolso a facilidade do celular. 

“Eu gosto e tenho o costume de usar. Já enfrentei muitas filas, comprei muitas fichas. Acho mais cômodo, não dá interferência e a ligação é mais nítida. Mas sempre perco tempo procurando por aparelhos que funcionem”, reclama. Em uma área de aproximadamente 200 metros, em Taguatinga, seis orelhões estavam quebrados.  

O vendedor Manoel Antônio, 40 anos, teve experiência semelhante quando precisou utilizar um telefone público. “Semana passada precisei de um orelhão no Setor Comercial Sul. Passei por cinco até encontrar um que funcionasse. É muito comum encontrar os aparelhos quebrados e, mesmo quando tem a necessidade, não é fácil de conseguir usar”, reclama. 

A Oi esclarece que mantém um programa permanente de manutenção de seus telefones públicos. A empresa também conta com um canal de atendimento para atender consumidores e entidades públicas. As solicitações de reparo podem enviadas pelo telefone 10314.

Procura está cada vez menor

Há quatro anos, quando Crisóstomo Pimentel comunicou a empresa responsável, o interesse em ter alguns orelhões perto de sua lanchonete, no Setor Hospitalar Norte, os aparelhos eram até concorridos. Hoje, quase servem de enfeite. “Passam meses sem ninguém usar. Depois que surgiu o celular acabou a procura. Nem tenho mais cartões para vender porque não vale a pena”, conta. 

O vendedor Manoel Antônio, 40, também acusa falta de procura: “Agora o pessoal só vem atrás de recarga para celular. Vendíamos muitos cartões telefônicos, mas agora desistimos. Não sai. Raramente alguém vem procurar e quando acontece é porque a bateria do celular acabou”. 

Essa é a situação na maior parte dos telefones públicos do DF. O uso é em último caso. Um ambulante, que preferiu não se identificar, revela que quando a venda de cartões telefônicos é boa, saem quatro. “Ainda tem quem compre, mas normalmente são em casos de emergência”. Nas mãos dele, um cartão com 20 unidades custa R$ 7 – mais que o dobro indicado pela operadora, que é de R$ 2,50. 

Ainda é possível encontrar o cartão que dá acesso às ligações em lanchonetes, bancas de jornais, mercados, lojas de conveniência e farmácias,  mas em menor quantidade do que há alguns anos. 

No Parque da Cidade, os aparelhos que também ficam em segundo plano. “É raro utilizarem o orelhão por aqui. Acho que o pessoal nem sabe mais como faz. Eu mesma não sei se ainda consigo”, brinca a vendedora Cleide Souza, 45, que tem um quiosque ao lado de um telefone.

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