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Brasília

Falta de policiais deixa escolas do DF desprotegidas

Arquivo Geral

04/02/2016 6h30

Eric Zambon

eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

Existe um policial do Batalhão Escolar para cada três instituições de ensino no DF. Conforme informações da Polícia Militar, o contingente de 439 homens e mulheres designados para atender aos ambientes estudantis é responsável por mais de 1,2 mil unidades escolares. À época da criação do batalhão, em 1989, a proporção era quase inversa. Havia 1,2 mil militares para cerca de 500 escolas, entre públicas e privadas e instituições de ensino superior.

Como há escalas de plantão, licenças e férias, a estimativa não oficial é de que o contingente real à disposição diariamente seja de 360 policiais. Esses números corroboram a sensação de insegurança que moradores do Guará compartilham, entre si e nas redes sociais, após o assassinato do servidor Eli Roberto Chagas, de 51 anos, em frente ao Colégio Rogacionista, próximo à QE 38. 

Na última terça-feira, o homem esperava em seu Toyotta Corolla prateado pela saída dos dois filhos, de 12 e 15 anos, quando foi abordado por um suspeito armado, de uniforme escolar. Ao tentar fugir, o pai foi alvo de quatro disparos e morreu no local. O carro, comprado no mesmo dia, foi encontrado horas depois,     no Setor de Oficinas Sul (SOF).

Leia mais: Moradores do Guará fazem passeata por mais segurança

Piora a cada dia

Ontem, a reportagem do JBr. percorreu outras escolas do Guará  e viu policiamento em algumas. Em uma das instituições patrulhadas, o Colégio Maxwell, na QE 11, o aposentado Alfredo Oliveira,  56 anos, afirmou não ver militares frequentemente. “Faço questão de buscar meu filho todos os dias. Por essa entrada eu até vejo policiais de vez em quando. Mas, pela outra, eu nunca vi”, relatou o pai de Fernando Oliveira, de cinco anos. A escola  ocupa o quarteirão e pode ser acessada pelos dois lados da rua.

O aposentado, morador antigo do Guará,   tomou conhecimento de um roubo em frente ao antigo colégio de seu menino, do outro lado da avenida. “A gente sabe que esse tipo de coisa acontece, mas morte assim,   em frente à escola, é a primeira vez por aqui, eu acho”, diz.  

“Falta planejamento”

O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa), Luis Carlos Megiorin, acredita que o governo tenta minimizar a questão ao não enfrentar a realidade das estatísticas de criminalidade. Para ele, há também desencontro na atuação das diferentes esferas do poder, pois a legislação não tem favorecido o cidadão. 

“O nosso governo está quebrado, eu entendo. Entretanto, é preciso jogar luz sobre o problema”, critica Megiorin. “Não é só colocar mais policiais nas ruas, tem que ter um planejamento e saber onde colocá- los, tem que se aplicar as leis”, emendou o presidente da Aspa, também integrante do Conselho de Educação do DF. Segundo ele, o baixo efetivo do Batalhão Escolar em relação ao número de escolas é  uma “realidade alarmante”.

A aposentada Sebastiana Miúra, 64 anos, buscou, no fim da manhã de ontem, as netas no colégio Pedacinho do Céu, na QI 23, e reclamou da presença insuficiente do Batalhão Escolar nas instituições públicas e privadas. Servidora da Secretaria de Educação por 31 anos, ela disse já ter presenciado violência até mesmo dentro de sala de aula e cobra reação das autoridades.

“Todo mundo ficou chocado com o caso em frente ao Rogacionista, mas a verdade é que as escolas nunca foram verdadeiramente seguras”, desabafou. Para ela, a ação da polícia deveria ir além dos arredores de instituições e se fazer presente, inclusive, em ambiente escolar. Sua preocupação, como avó e moradora da cidade, é a segurança pública. “Tem havido muita violência no Guará. A sociedade está indignada”, completou.

Polícia patrulha região

Depois do latrocínio no Guará, a polícia reforçou o patrulhamento na via de acesso ao Guará II (foto). Ontem, em cerimônia de transmissão de cargos na Polícia Militar, o governador Rodrigo  Rollemberg destacou que o número de homicídios registrado no DF em 2015 foi o menor dos últimos 22 anos: “Isso demonstra que estamos no caminho certo, mas, como eu  tenho repetido reiteradas vezes, enquanto houver homicídio no Distrito Federal, enquanto houver crimes contra o patrimônio, não vamos sossegar”.

Enterro

O corpo de Eli Roberto Chagas foi velado das 9h às 16h no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Depois, o cortejo fúnebre seguiu com amigos, parentes e funcionários do Rogacionista ao local do enterro, onde outras duas famílias se despediam de seus entes queridos. Uma delas era a de Edevaldo da Silva, 20 anos, encontrado às margens do lago Paranoá, próximo à Concha Acústica.

O irmão de Eli, José Fernando Chagas, 57 anos, também servidor público, descreveu o falecido como um “crianção”, dono de uma personalidade brincalhona e muito atencioso com os filhos e a esposa. “Era uma família unida. No dia em que isso tudo aconteceu, a gente tinha brincado sobre o fato de ele nunca ter conseguido tirar uma carteira para pilotar moto”, contou.

José Fernando lamentou que a morte de seu irmão faça parte de um contexto maior de violência e falou sobre o momento enfrentado pela cidade: “A gente está perdendo para tudo: para zika vírus, para bandido”.

Filhos escrevem carta para o pai

Os filhos do servidor assassinado acompanharam o cortejo ao lado da esposa de Eli e colocaram, junto ao caixão, uma carta de agradecimento escrita ao pai. Antes de os funcionários do cemitério começarem a cobrir o caixão com terra, o menino ainda disse palavras finais para expressar seu sentimento em relação ao homem.

O colégio onde ele e sua irmã estudam amanheceu com uma faixa avisando sobre o luto. Sobre as marcas de sangue do pai das crianças, benfeitores anônimos depositaram flores e velas como forma de homenagem. As aulas da instituição foram suspensas, e houve pouca movimentação no local ao longo do dia. Curiosamente, uma equipe da PM visitou o local fechado no início da tarde.

Além do latrocínio em frente à escola, moradores do Guará relataram outros crimes contra estabelecimentos comerciais ao longo da última terça-feira. Uma caminhada pela paz foi agendada para hoje, a partir das 8h, e a família de Eli prometeu outro ato no próximo sábado, início de Carnaval.

Até o fechamento desta edição, o responsável pelos disparos contra Eli ainda não havia sido encontrado, mas a polícia não confirmou se já sabia a identidade do autor. Ainda ontem, após o carro roubado ter sido localizado no Setor de Oficinas (SOF) Sul, o delegado Rodrigo Larizatti, da 4ª DP (Guará) informou que há imagens de uma câmera de segurança mais bem posicionada, em relação à da escola, mas não autorizou a divulgação sob a justificativa de não afugentar o suspeito.

O Centro de Comunicação Social da Polícia Militar afirmou que o comando da corporação “tem reforçado o patrulhamento em todas as escolas”. Conforme nota, “o comando da PM determinou aos batalhões de todas as cidades que apoiem o policiamento escolar com rondas, principalmente nos horários de entrada e saída dos alunos.”

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