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Brasília

Falta de banheiros em estações do metrô gera transtornos a passageiros no DF

Usuários relatam desconforto, gasto extra e dificuldade de acesso. Metrô-DF diz que não há previsão de mudanças

Redação Jornal de Brasília

11/02/2026 5h34

metro

Foto: Matheus H. Souza/Agência Brasília

Carliane Gomes
carliane.gomes@grupojbr.com

A falta de banheiros públicos nas estações do Metrô do Distrito Federal tem transformado uma necessidade fisiológica básica em um transtorno cotidiano para milhares de passageiros. O problema afeta principalmente trabalhadores das regiões periféricas, que passam horas em deslocamento até o centro de Brasília. Atualmente, a maioria das estações oferece sanitários apenas para uso exclusivo de funcionários, deixando os usuários sem acesso a um serviço essencial de higiene durante longos trajetos pela capital.

O Jornal de Brasília percorreu o sistema metroviário e ouviu passageiros que relataram a inexistência de sanitários funcionais em grande parte das paradas. Na Estação Central, localizada na Rodoviária do Plano Piloto, funcionários informaram que não há banheiros disponíveis para o público dentro da área do metrô. Os passageiros que necessitam utilizar sanitários no local são orientados a recorrer aos banheiros da rodoviária. No entanto, caso o espaço esteja em manutenção, como alternativa, os usuários precisam se deslocar até a plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto ou até o Shopping Conjunto Nacional. Ambos os locais ficam fora do sistema metroviário e pertencem a instituições privadas, o que dificulta o acesso, especialmente em situações de urgência.

Além do desconforto físico, a ausência de banheiros também gera impacto financeiro. Para retornar ao metrô após utilizar um sanitário externo, o passageiro precisa pagar uma nova passagem. Funcionários do Metrô-DF ouvidos pelo jornal informaram que, das 27 estações do sistema, apenas 3 contam com banheiros públicos em funcionamento regular, 102 Sul, 112 Sul e 114 Sul, todas localizadas na Asa Sul. Nas demais paradas, há apenas sanitários de uso exclusivo para servidores.

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Em Samambaia, no outro extremo da linha, passageiras relatam que a falta de banheiros é constante. Entre elas está a assistente administrativa Elen Santos, de 34 anos, moradora da região e usuária frequente do metrô. Grávida de 5 meses, ela afirma que já precisou recorrer diversas vezes aos banheiros da rodoviária por não encontrar sanitários disponíveis nas estações. “A necessidade aumenta bastante na gravidez. Eu sempre tento sair de casa já tendo usado o banheiro, mas quando estou muito apertada preciso apressar o passo para conseguir usar um banheiro fora do metrô”, relata. Segundo Elen, a gestação impõe ainda limitações físicas. “Os passos ficam mais pesados, é mais complicado”, ressalta. Ela ainda destaca o impacto financeiro da falta de estrutura, especialmente para quem utiliza o transporte com crianças. “Se a criança precisar ser trocada depois que você já passou a catraca, é preciso sair do sistema, usar um banheiro externo e pagar outra passagem para entrar de novo. Isso já é um gasto a mais, dinheiro que poderia ser, por exemplo, o da fralda”, afirma. Para ela, a principal melhoria necessária no sistema é a oferta de sanitários. “Não é só para mim, que estou grávida. Muitas pessoas têm essa necessidade. É uma questão de acessibilidade”, conclui.

Procurada, a Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF) informou que, por questões de segurança, as estações não contam com banheiros públicos, modelo que, segundo a empresa, é adotado na maioria dos sistemas de metrô no Brasil e no mundo. A companhia explicou que as estações funcionam como terminais de embarque e desembarque, onde os usuários permanecem por curto período. De acordo com o Metrô-DF, em situações específicas, funcionários podem acompanhar passageiros até áreas internas da estação para fazer uso do banheiro dos funcionários. Questionada sobre possíveis mudanças na estrutura, a empresa afirmou que não há previsão de intervenções. “Não há previsão de construção de banheiros nas estações”, informou.

A diretora de comunicação do Sindicato dos Metroviários do Distrito Federal (Sindmetro-DF), Neiva Lopes, contesta as justificativas apresentadas pela companhia. Segundo ela, não procede a afirmação de que a ausência de banheiros seja um padrão adotado no Brasil e no exterior. “O metrô de São Paulo e o metrô do Rio de Janeiro têm banheiros nas estações, e alguns deles foram construídos posteriormente, justamente por causa das necessidades fisiológicas das pessoas”, afirma. Neiva ainda rebate o argumento de que os usuários permanecem pouco tempo nas estações. De acordo com ela, no Distrito Federal, os intervalos entre os trens podem chegar a 15 ou 20 minutos fora do horário de pico e nos fins de semana. “As pessoas ficam, sim, muito tempo nas estações”, diz.

Ela atribui a situação à redução da frota em operação. Segundo a diretora, o Metrô-DF possui atualmente 32 trens, dos quais 7 estão fora de funcionamento e outros passam por manutenção, o que limita a circulação diária. “Hoje rodam cerca de 18 a 19 trens. Não há trens suficientes para garantir um intervalo pequeno”, explica. A diretora de comunicação do Sindmetro-DF destaca que a ausência de sanitários impacta principalmente pessoas idosas, gestantes, usuários com problemas de saúde e passageiros que enfrentam viagens longas entre as extremidades da linha. “Quem sai do terminal de Ceilândia até a Estação Central ainda tem cerca de uma hora de viagem. É natural que essa pessoa precise usar o banheiro durante o trajeto”, afirma.

Outro ponto questionado é a orientação do Metrô-DF para que funcionários acompanhem passageiros até os banheiros internos. Segundo Neiva, a falta de servidores inviabiliza esse procedimento e representa riscos à segurança. “Estamos há 14 anos sem concurso público. Em muitas estações há apenas um funcionário, que não pode abandonar o posto para levar um passageiro até um banheiro interno”, afirma. De acordo com ela, essas áreas não possuem monitoramento por câmeras, o que pode colocar em risco trabalhadores, usuários e as próprias instalações. Neiva ressalta ainda que os poucos banheiros públicos existentes na Asa Sul não são mantidos diretamente pelo Metrô-DF. Segundo ela, os sanitários das estações 102, 112 e 114 Sul funcionam porque há outros órgãos do Governo do Distrito Federal (GDF) instalados nas passarelas dessas áreas. “Esses banheiros existem porque há vigilância e gestão de outros órgãos. Não é uma estrutura mantida pelo metrô”, explica. Para a diretora, a solução passa por investimento em infraestrutura e planejamento. “Se há novas estações sendo construídas em Samambaia e Ceilândia, o projeto já deveria prever banheiros públicos”, defende. “As necessidades fisiológicas são básicas e precisam ser atendidas”.

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