Jéssica Antunes
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Nem a morte evita que brasilienses sejam vítimas de estelionatários. A Polícia Civil desarticulou uma organização criminosa que, desde 2015, lucrou mais de R$ 1 milhão com um esquema de fraudes bancárias realizadas com CPF de pessoas falecidas ou documentos roubados. Empréstimos, saques, emissão de cartões, compras. Tudo era permitido por funcionários das instituições financeiras. Servidores da Receita Federal e da Previdência Social podem estar envolvidos, além de um ex-agente da corporação.
De acordo com as investigações da Polícia Civil, havia dois modelos do golpe. Um era falsificando documentos reais que tivessem sido roubados, furtados ou extraviados. Outro começava quando um funcionário da Receita Federal passava ao grupo nomes e CPF de pessoas que haviam falecido, mas que o cadastro no órgão ainda não havia sido atualizado. Com essa informação, os criminosos falsificavam toda a documentação.
Das duas formas, um gerente bancário viabilizava empréstimos que chegam a R$ 290 mil, emitia cartões e sacava valores. Tudo era dividido entre a organização.
O Jornal de Brasília teve acesso a um áudio encaminhado pelas redes sociais que faz parte do inquérito policial. O material teria sido encontrado no celular de um dos líderes. “Esse povo aqui trabalha dentro do banco, moço. Deixa eu te explicar, aqui não é nada hackeado, não. A situação daqui é feita com o gerente, com o pessoal do banco. Arrancamos dinheiro das contas inativas. Entendeu? Aqui dá para tirar o dinheiro de boa. São contas que estão paradas há mais de dois, três, quatro anos”, explica um dos homens.
Sérgio Gonçalves Rodrigues, 43, e Wendel de Oliveira Rocha, 36, foram presos e são apontados como líderes do esquema. Juntos, planejavam ações e falsificavam dos documentos. Segundo a polícia, eles acessavam contatos na Receita Federal e na Previdência Social para obter informações privilegiadas.
Os dois foragidos assumiam a função de buscar documentos roubados e dados de pessoas mortas. Eles também se passavam por clientes das agências com as falsificações. Um gerente envolvido colaborou com as investigações e deve ser indiciado, mas em liberdade.
Magnitude impressiona
A polícia chegou ao grupo após um roubo a um estabelecimento comercial em maio deste ano. Na ocasião, foram apreendidos cheques que haviam sido roubados e, a partir do rastreamento, os agentes prenderam um dos suspeitos em junho.
De acordo com o delegado Vítor Falcão, da 24ª Delegacia de Polícia (Setor O), o grupo atuava há pelo menos dois anos, período comprovado com dados obtidos por mandados judiciais. Não se sabe quantas vítimas foram feitas. “Em poder deles havia mais de 50 documentos. A única ocupação dos envolvidos era aplicar golpes. O estilo de vida é incompatível com quem está desempregado”, afirma.
“Casos de estelionato são comuns, mas não com essa magnitude. A organização se diferencia demais pela reiteração: aplicavam golpes o tempo todo”, ressaltou o delegado. O inquérito já foi concluído e os suspeitos responderão por furto mediante fraude, estelionato, falsificação de documentos públicos e particulares e formação de organização criminosa. Isso não finaliza as investigações, já que há suspeita da participação de outros bancários.
Papel de cada
Sérgio Gonçalves Rodrigues e Wendel de Oliveira Rocha – Moram em Águas Claras e Arniqueiras, respectivamente. Falsificavam documentos, idealizavam e gerenciavam as operações. Líderes do esquema criminoso. Ambos estão presos.
Ednardo Barbosa – Mora em Ceilândia. Ele se passava por outra pessoa nas agências bancárias e captava documentos roubados para servirem de matéria prima. Está foragido.
Moacyr de Abreu Filho – Ex-agente da PCDF, foi expulso há 15 anos da corporação. Responsável por se apresentar nas agências bancárias, se passando por outra pessoa, para solicitar empréstimos e cartões, financiamentos, alterar dados cadastrais. Está foragido.
Michael de Jesus Castro – Gerente de banco responsável por passar dados de clientes e contas que poderiam ser usadas. Encobria rastros no sistema do banco. Colaborou com a polícia e responderá em liberdade.