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Brasília

Falk Soares é o primeiro mestre em Educação no DF que é surdo e sonha com o doutorado

Arquivo Geral

24/08/2014 8h40

Para  Falk Soares, 39 anos, não há limites em sua busca para a qualificação. Determinado, ele deve se tornar, em breve, o primeiro mestre em Educação no Distrito Federal que é surdo – há outros mestres, mas todos na área de linguística – e carrega consigo uma característica marcante, a simpatia.

Com a dissertação “História de vida e concepção de docentes surdos acerca das políticas de inclusão na educação superior”, ele espera concluir o mestrado e, ano que vem, iniciar o doutorado. “Tive que passar por um referencial teórico e notei a inexistência de surdos como narradores dos fatos”, explica Falk, professor de Língua Brasileira de Sinais (Libras) na Estácio Facitec e na Universidade Católica de Brasília (UCB), sobre parte da motivação para escrever.

Pesquisa

“Achei necessário pesquisar a história de vida dos surdos e as influências que eles tiveram. Percebi que os docentes surdos adquiriram uma carapaça. Existem instituições que pensam que um instrutor surdo não consegue ensinar”, discorre Falk, professor desde os 17 anos, quando, a convite de uma mestra, passou a lecionar para alunos de uma igreja.

Antes de completar dois anos, Falk foi acometido de meningite, razão pela qual ele teve surdez bilateral. Isso não o impediu de estudar (é graduado em contabilidade), se casar e ter um filho, hoje com 11 anos e fluente em Libras. Sua mulher teve muitas dificuldades para  se comunicar com o marido no começo, mas, após 13 anos de convivência, é uma de suas mais confiáveis intérpretes.

“Quando ele me pediu para namorarmos eu não entendi e acabei aceitando. Depois eu compreendi o que havia acontecido e fiquei roxa de vergonha”, relata Luciana Marques, advogada de 34 anos. Eles se conheceram quando trabalhavam no Hospital Brasília. Ela admite que, no início, até brigar era complicado, pois, enquanto ela ainda não dominava Libras, eles se comunicavam mais por oralização e leitura labial.  “Meu pai dizia que era o homem ideal para me aguentar”, brinca.

Instituições sem preparo

O trabalho de Falk levanta a questão da cidadania e tratamento que docentes deficientes auditivos recebem no Ensino Superior. Para ele, boa parte das instituições não está preparada nem para ter um surdo entre os professores nem para atender a esse tipo de aluno. “Nos locais públicos também existe essa falta de intérpretes. Deveria haver profissionais em qualquer lugar”, defende.

Dois casos chamaram atenção de maneiras opostas a Falk. O intérprete do enterro de Nelson Mandela, que traduziu de maneira incompreensível o discurso de quem homenageava o líder sul-africano, e a fonoaudióloga  que “roubou a cena” no debate entre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro na Rede Bandeirantes.

“Existem empresas que querem economizar e contratam qualquer um para interpretar, aí acontece esse tipo de coisa (como no enterro de Mandela). Já a moça da Band era muito boa”, diz. Para ele,  as expressões faciais consideradas exageradas da moça ajudaram a dar o verdadeiro tom do debate aos expectadores com deficiência auditiva.

Trabalho árduo para quebrar barreiras

Na infância e adolescência, Falk revela ter tido muitas dificuldades e, até por isso, se tornou professor para que as barreiras de comunicação se tornassem mais brandas. Mais jovem, ele tentava se comunicar por leitura labial, mas a maioria das pessoas falava muito rapidamente e era difícil para ele captar as mensagens. 

As barreiras começaram a ser derrubadas dentro do lar. Apesar de ele dizer que seu pai, até hoje, se comunica pouco em Libras, seu irmão caçula se tornou fluente, assim como sua cunhada. 

Sobre políticas públicas, Falk se mostra ligeiramente cético. Ele diz que as normas estão aí para serem cumpridas, mas a realidade não corresponde à teoria. Quanto aos políticos, sua reclamação é a mesma de vários outros cidadãos. “Eles prometem, mas passadas as eleições, a comunidade surda é esquecida de novo”, reclama.

Talvez na dissertação de Falk ou na inspiração que sua história de vida pode provocar esteja a chave para uma sociedade mais inclusiva. Quem sabe, daqui um tempo, haverá mais facilidade para conversas, inclusive em órgãos públicos e universidades? Se depender dele, esse sonho nem está tão distante assim.

 

 

 

 

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