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Expresso 111: no trajeto de ônibus para a Papuda, familiares de presos dividem expectativas e memórias

Da Rodoviária do Plano Piloto, o ponto de partida para mulheres que buscam manter vivos os vínculos com familiares presos na Papuda

Redação Jornal de Brasília

30/07/2026 14h41

familiares de presos

Mulheres vestidas de branco prontas para entrar na penitenciária. Foto: Sofia Martinello

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Ana Tominaga, Maria Eduarda Lima e Sofia Martinello  

São 5h30 da manhã na Rodoviária do Plano Piloto. Na plataforma A, onde deve estacionar o ônibus 0.111, forma-se uma fila silenciosa de mulheres vestidas de branco com sacolas cheias nas mãos.

Mães, esposas, filhas e irmãs, uma reunião de substantivos femininos movida pela coragem e pela esperança de um recomeço. Enquanto a cidade desperta, elas já enfrentam o deslocamento de suas casas até a rodoviária. Depois, seguem em direção a uma realidade que, para muitos, ainda permanece invisível: o sistema penitenciário.

A vestimenta branca é obrigatória para entrar nas unidades prisionais, uma exigência que nem todas as visitantes conhecem ao chegar pela primeira vez. Por isso, muitas optam por levar a roupa na sacola e se trocar apenas ao chegar ao destino, uma tentativa de preservar, até o último instante, o cotidiano que deixaram para trás. Embora não estejam atrás das grades nem figurem nas estatísticas criminais, o olhar social que recai sobre elas as sentencia diariamente.

“É muito constrangedor sair da minha casa toda de branco, é desagradável. Eu prefiro ir com uma roupa normal, porque me sinto julgada por estar indo visitar meu filho preso. Pra voltar, a gente já troca de roupa também, porque se não todo mundo fica olhando pra gente. É um olhar que critica”, diz a mãe de um dos detentos. 

O ônibus percorre o mesmo trajeto todos os dias, de domingo a domingo, mas às quartas e quintas os turnos são ampliados, pois são dias de visita. Nesses dois dias da semana, o primeiro horário do coletivo parte às 6h rumo ao Complexo Penitenciário da Papuda. Este trajeto mais cedo, quando ainda não há trânsito, dura 40 minutos. Em horários de maior movimento, pode levar até uma hora e meia. 

Cada visitante tem o direito de entrar no presídio a cada duas semanas, onde pais, filhos, companheiros e irmãos cumprem pena. 

Às 5h30 da manhã, quando as repórteres da Agência Ceub chegaram à rodoviária, uma fila já se formava, mesmo sem sinal do ônibus. Era fácil reconhecê-la: composta majoritariamente por mulheres carregando sacolas volumosas. Enquanto aguardavam, ambulantes circulavam, oferecendo mercadorias dentro dos padrões permitidos nos presídios. Um dos vendedores da fila, egresso do sistema penitenciário, vendia guloseimas. Ele sabe melhor do que ninguém o que pode e o que não pode lá dentro. 

O ônibus enfim estaciona. Em silêncio, todas sobem. Não há conversas, apenas a bênção do ex-detento: “Que Deus abençoe essa viagem.” Ele desce, o ônibus parte, o silêncio se instala novamente, e assim segue até o destino.

Dignidade dentro dos muros

São visitas breves, reduzidas a duas horas de duração, mas carregadas de saudade. Nas bolsas, levam aquilo que é permitido, como biscoitos, castanhas, pé de moleque ou doce de leite, algumas roupas brancas, sabonete, pasta de dente e repelente, além da esperança de alguma dignidade possível dentro dos muros.

A estrutura do complexo é composta por quatro unidades: o Centro de Detenção Provisória (CDP), destinado a presos em regime provisório; o Centro de Internamento e Reeducação (CIR), voltado ao regime semiaberto; e as Penitenciárias I e II do Distrito Federal (PDF I e II), que recebem detentos em regime fechado. Segundo dados da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do DF (Seape), a Papuda abriga uma população carcerária de aproximadamente 13,7 mil detentos, valor que ultrapassa a sua capacidade de lotação de 5,8 mil presos. 

Apenas na PDF I, o Relatório de Inspeção Penitenciária, de novembro de 2024, indicou que a superlotação é uma realidade alarmante: com capacidade para 1.584 pessoas, a unidade abriga 3.748, número 136,7% superior ao porte adequado. 

Neste cenário, a alimentação também expressa uma forma silenciosa de violência: conforme relatos da direção da unidade, da equipe de saúde e das próprias pessoas privadas de liberdade entrevistadas no Relatório, algumas semanas antes da inspeção houve um surto de diarreia aguda que afetou toda a população presa na unidade, a causa foi infecção intestinal por alimentação estragada.

A negligência alimentar soma-se ao quadro de desumanização já instaurado no sistema, e ajuda a compor o retrato de violência cotidiana relatada por visitantes. De acordo com a Seape, há 18.830 pessoas aptas a ingressar nas unidades do sistema prisional para visitar familiares. 

“Entraram com arma na nossa cara”

Maria Lúcia*, 42 anos, trabalha como faxineira e mora em São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal. Casada e mãe de seis filhos, ela divide com o marido a rotina intensa da família, as tarefas da casa e os cuidados com as crianças. O filho mais velho, de 21 anos, está preso por tráfico de drogas e aguarda julgamento. Desde então, Maria Lúcia* passou a incluir, nas manhãs de folga, as visitas ao filho na prisão. “A gente vai porque é mãe porque tem alguém que a gente ama lá dentro”, diz.

Quando o filho foi preso, minutos depois, a polícia invadiu a casa de Maria Lúcia*. As lembranças ainda ecoam entre os familiares. A mulher lavava roupas no quintal, o marido tomava banho e as crianças brincavam no quarto. Ainda à luz do dia, mais de dez policiais armados invadiram a residência sem apresentar qualquer mandado judicial. “Entraram com arma na nossa cara, gritando ‘perdeu’, apontando para as crianças também. Aí botaram todo mundo pra fora, os vizinhos vendo tudo. Eu fiquei apavorada, do jeito que eles fizeram eu só vi em filme”.

Ela se pergunta o que poderia ter motivado uma abordagem tão violenta, na presença dos filhos. “Eu acho que eles bem pensaram que a gente estava fabricando droga, só pode”, especula. Maria Lúcia* optou por não levar o caso à Justiça, temendo represálias contra o filho. “Tenho medo de processar e ele sofrer lá dentro”.

A mulher conta que só soube do envolvimento do filho com o tráfico de drogas depois que ele foi preso. “É como levar várias pancadas ao mesmo tempo. Essa é a sensação que a gente sente”, resume. Agora, como visitante do sistema prisional, Maria Lúcia* descreve com desconforto a nova rotina que passou a fazer parte de sua vida. Desde o momento em que entra na fila do ônibus 111 na Rodoviária do Plano Piloto, vestida de branco (como exige o regulamento), sente os olhares atravessados de quem passa por ela.

Em uma das visitas, estava menstruada e foi obrigada a trocar o absorvente que usava pelo que é fornecido na unidade prisional. Além da roupa branca, que já causa desconforto nas mulheres em dias assim, ela não teve o mínimo de privacidade: foi acompanhada pelas agentes até o banheiro e precisou trocar o absorvente na frente delas. “Eu falei: ‘Olha, meu fluxo é grande, esse aqui não vai aguentar’, porque era um absorvente fininho. Aí ela falou: ‘Coloca quatro’. Eu coloquei os quatro, não adiantou nada. Saí de lá toda suja. Foi muito constrangedor”, relembra.

Maria Lúcia* aprendeu a decifrar sinais nas entrelinhas. Percebe quando o filho está mais calado, mais magro, mais distante. Não precisa que ele diga. Mãe sente. Ela ouve outras mulheres que também visitam e vai montando um retrato silencioso do que se passa lá dentro. Vê marcas nos corpos de outros jovens, escuta histórias sobre agressões e entende que quem tenta falar sofre consequências. Ela não ignora o erro do filho. Sabe que ele precisa responder pelo o que fez, mas discorda da forma como isso vem sendo feito. “Aquilo ali não é reeducação. Eu não falo só pelo meu. Falo pelos outros também”.

O motorista do 0.111 

Quem conduz o ônibus que transporta Maria Lúcia* e outras “Marias” é Alan Rodrigues, 34 anos. Vestido com uniforme azul, óculos escuros e um sorriso largo, ele segue firme no volante. À primeira vista, parece nem se dar conta de quem entra ou quem sai, mas bastou um “bom dia” e uma apresentação rápida para o motorista se abrir em simpatia. 

Na mesma linha, trabalha a cobradora Aparecida Santos, 47 anos, que observa todos que entram e se prepara para mais um dia no trajeto entre a rodoviária e o presídio. Já são dois anos nessa rotina, e ela sabe bem o que a espera.

alan rodrigues, motorista do 0.111 e aparecida santos, cobradora
Alan Rodrigues, motorista do 0.111 e Aparecida Santos, cobradora. Foto: Ana Tominaga

Juntos, a dupla já testemunhou inúmeras histórias a bordo do 111. Aparecida relembra uma, em especial, que ainda mexe com ela. “Eu já vi filha chorando com bebezinho. Ela queria mostrar o filho novo para o pai que estava preso. Ela se confundiu, chegou às 9h e a visita era às 8h. Nossa, ela chorou demais”. Perder uma visita pode ser devastador. O reencontro com um parente preso, muitas vezes, é o único momento de afeto do mês, tanto para quem está fora quanto para quem está dentro.

Como o Complexo Penitenciário da Papuda abriga diversas unidades, o tamanho do lugar costuma confundir quem vai pela primeira vez. “Tem visitante que desce no lugar errado”, conta Aparecida. Nessas situações, a dupla não pensa duas vezes: manda o passageiro subir novamente e garante que ele chegue ao destino certo. “A gente entende a dificuldade. Não dá pra deixar a pessoa pra trás”. 

Quando a cobradora e o motorista descobriram que trabalhariam na linha que transporta para o  presídio, não houve hesitação, não houve medo, tampouco resistência. “Tem gente que não gosta, mas pra mim não tem problema não. É uma linha normal, como qualquer outra”, resume Alan. Com o tempo, até aprenderam a chamar a rota de “tranquila”, mesmo quando há detentos no coletivo.

Em determinados períodos do ano, o ônibus também transporta presos com direito ao chamado “saidão”. O benefício é concedido a apenados do regime semiaberto, permitindo que eles passem alguns dias fora do presídio, geralmente em datas comemorativas. “Eles respeitam mais a gente do que outros passageiros (não detentos)”, afirma a cobradora. Contudo, a tranquilidade também tem limites. Antes de embarcar, todos os presos passam por um rigoroso sistema de revista, o que não evita que a tensão possa se instalar a qualquer momento. 

Em uma dessas viagens, surgiram suspeitas de que três detentos estivessem com drogas. Dez viaturas da polícia foram acionadas e o ônibus foi parado. Os policiais mandaram todos descer, menos os três suspeitos. Ali mesmo, na estrada, o coletivo virou uma sala de revista: os homens foram intimados a tirar a roupa, enquanto os demais passageiros aguardavam do lado de fora. No final, os suspeitos foram recolhidos, e o transporte, que antes seria o ônibus para ver além dos muros, foi trocado pelo camburão dos policiais de volta ao presídio. Dentre os recolhidos, havia um cadeirante.

No trajeto, Aparecida segue contando histórias. “Tem uma senhorinha que foi visitar o filho dela. No caminho ela estava com dinheiro e colocou o dinheiro no sutiã. Quando ela foi passar pela revista, uma moeda ficou esquecida na peça de roupa e foi acusada no detector. Não deixaram a senhorinha entrar, tiraram ela de lá.” O episódio, que poderia soar como um mal-entendido burocrático, revela como o sistema penitenciário impõe vigilância constante, sem remissão. 

Para além das histórias, ficou a percepção de que, no expresso 111, o julgamento também viaja em alta velocidade. “Eles acham que a família é igual a quem está lá dentro, mas eu acho que não é bem assim”, diz Aparecida. 

Do lado de fora 

Quando as mulheres chegam à penitenciária, deparam-se com  a autônoma Zilda Severo da Silva, 59 anos, que criou um serviço de guarda-volumes, para quem precisar deixar algo (como celular, bolsa e tudo o que não é permitido para as visitantes da  Penitenciária do Distrito Federal I (PDF-I). Ela trabalha por volta das 6h30, sempre às quartas e quintas-feiras. 

Vinda da Cidade Ocidental, em Goiás, ela deixa sua casa ainda no escuro, às quatro e meia da madrugada. A viagem de ônibus, que leva cerca de uma hora e meia, já se tornou parte da sua rotina. Há 18 anos, ela estende seu tapete ao lado de fora do presídio para guardar bolsas e pertences das visitantes, objetos que não podem cruzar os portões do Complexo Prisional da Papuda.

Por R$ 5, ela acolhe bolsas, chaves, pequenas sacolas – o que quer que as “meninas” (como chama as visitantes) precisem deixar antes de adentrar os muros do sistema penitenciário. Não é só o que está proibido que se deposita ali, mas também os seus próprios pertences, que não podem entrar. A PDF-I não disponibiliza armário ou guarda-volume para visitantes. 

zilda severo da silva que trabalha como guarda volumes na papuda
Zilda Severo da Silva que trabalha como guarda-volumes na Papuda. Foto: Ana Tominaga

“Do jeito que eu preciso delas aqui, elas precisam da gente. Às vezes, elas vêm de longe e elas têm que trazer bolsa para guardar as coisas. É por isso que nós estamos sempre aqui pra ajudar. É uma ajudando a outra, né?”, diz com a simplicidade de quem construiu um trabalho com as mãos e o tempo.

“Foi uma vizinha que me trouxe. Ela vinha visitar o filho, e eu precisava de ajuda, estava desempregada.” A vizinha já morreu, o filho saiu, e Zilda ficou. “Caí de paraquedas aqui”, sorri. Com o trabalho, ela conseguiu sustentar  três filhas – todas formadas, todas trabalhando fora. “Aqui é pra quem não tem estudo”, ela afirma, sem amargura, apenas com a convicção de quem fez o que pôde com o que teve.

Zilda nunca teve problemas com a polícia, nunca foi retirada dali. Trabalha direito, diz. Mas teme pelo futuro. Se o Estado construir um guarda-volumes oficial, o que será de seu pequeno sustento? “A gente se preocupa, né? Mas quem manda aqui são eles”. 

Guerreiras de Fé 

O caminho entre a rodoviária e os presídios é de 18 km, o que dá quase 1h de transporte público. Um percurso longo, em quilômetros e em sentimentos. O ônibus parte, mas sempre volta. A fila na plataforma A se forma de novo na semana seguinte, porque enquanto houver alguém lá dentro, haverá alguém aqui fora resistindo.

Nem tudo, porém, se resume ao trajeto de ida e volta. Para além das filas de entrada nos presídios, existe também uma rede de apoio construída no virtual. “Guerreiras de Fé” é o grupo de mensagens formado por 437 participantes que compartilham não só experiências, mas também conselhos, palavras de força e escuta acolhedora. 

Criado com o propósito de ser um espaço seguro, o grupo funciona sob regras claras: é proibido ofender, julgar ou desrespeitar qualquer integrante. A confiança é a base de tudo. O que é dito ali, permanece ali. Quando alguém quebra esse pacto, a permanência no grupo é revista pelas administradoras.

Mesmo sem se conhecerem pessoalmente, muitas se reconhecem nas histórias umas das outras. Entre relatos sobre triagens, revistas íntimas e o pouco tempo de visita, surgem também orientações práticas, apoio emocional e um senso coletivo de pertencimento. É nesse ponto de encontros que a cidade revela sua face mais real: a da resistência feminina que se reinventa, mesmo quando tudo parece desabar. Daqui a 15 dias, elas se encontram novamente na rodoviária para refazer o percurso.

* O nome das famílias dos detentos foi alterado para preservar as entrevistadas. 
* Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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