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Brasília

Expedição 4 Cantos do DF

Em homenagem ao aniversário de Brasília, Afonso Ventania revisita, de bicicleta, os vértices do quadrado demarcado pela Missão Cruls

Afonso Ventania

21/04/2023 5h00

Afonso Ventania – Bikerrepórter
redacao@grupojbr.com

Para comemorar os 63 anos da capital de todos os brasileiros, o bikerrepórter Afonso Ventania pedalou, ao longo de cinco dias, cerca de 500 quilômetros do caminho percorrido pelos 22 integrantes da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, em 1892. A Missão Cruls, como ficou conhecida, por ter sido liderada pelo astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls, teve o objetivo de estudar e demarcar a área destinada ao Distrito Federal.

A meta era levar a capital para o centro do país e, assim, promover a integração do território, ocupar e desenvolver o interior e proteger a sede do poder de possíveis ataques no litoral, conforme determinava a Constituição de 1891. A pedra fundamental da nova capital é assentada próximo a Planaltina no dia 7 de setembro de 1922 e se torna o marco para a interiorização da sede do governo brasileiro.

O objetivo do bikerrepórter foi reviver um pouco do espírito aventureiro dos 22 cientistas e militares da Missão Cruls que percorreram milhares de quilômetros a cavalo e ver de perto o que existe atualmente nos vértices do Distrito Federal que o brasiliense chama carinhosamente de “nosso quadradinho”.

Ele optou pela bicicleta por ser um veículo de propulsão humana, sustentável e para perceber de maneira mais realista o que aqueles homens viveram no século XIX. Abaixo, em seu relato sobre a cicloviagem, Afonso explica que queria sentir um pouco da dificuldade em explorar o Cerrado, sob as intempéries, com o seu próprio esforço e força de vontade. E isso, segundo ele, só seria possível a bordo de sua bike.

Claro que a distância, o peso da bagagem e as condições foram bem diferentes. A Missão Cruls partiu do Rio de Janeiro e percorreu milhares de quilômetros de trem e, principalmente a cavalo, durante 8 meses, até o coração do Brasil. Médicos, cientistas, botânicos, geólogos e militares carregaram toneladas de equipamentos em lombos de mulas, além de pertences pessoais e alimentos em baús de madeira.

EQUIPE DA MISSÃO CRULS, QUE NO FINAL DO SÉCULO XIX DEMARCOU A ÁREA DA FUTURA CAPITAL

Em sua cicloviagem solo, Afonso Ventania levou apenas 10kg de bagagem, incluindo algumas roupas, rede e lona para dormir, ferramentas, peças de reposição, alimentos, muita coragem e disposição. Encarou chuva, sol quente na maioria dos dias e poeira enquanto pedalava pelos limites do DF.

Vila de pescadores na tríplice fronteira (Canto Sudeste)

De acordo com o Atlas do Distrito Federal, publicado pela Companhia de Planejamento (Codeplan), em 2020, o DF está localizado entre os paralelos 15°30’ e 16°03’ de latitude Sul e os meridianos 47°18’ e 48°17’ de longitude Oeste, na Região Centro-Oeste. Como divisas naturais, o DF tem o Rio Preto, a Leste, e o Rio Descoberto, a Oeste.

No vértice Nordeste do quadrado, está a divisa com Formosa (GO), no Sudoeste fica Engenho das Lages (DF), no Noroeste, está o Núcleo Rural Curralinho, a 22 quilômetros de Brazlândia.

Já no canto Sudeste, fica a tríplice fronteira onde o DF faz divisa com o estado de Goiás e com o município de Cabeceira Grande, em Minas Gerais. Foi o primeiro vértice do quadrado que visitei. Decidi percorrer o território do DF no sentido anti-horário. Ao chegar ao local, procurei logo a ponte onde fica a única divisa entre o Distrito Federal e o estado de Minas Gerais. Ela mede algo em torno de 100 metros e liga uma pequena vila de pescadores a Palmital, bairro do município de Cabeceira Grande (MG). Trata-se do Núcleo Rural Jardim II.

Já era perto do meio-dia e fazia muito calor. Logo procurei me abrigar em um dos dois barzinhos que existem no local. Perguntei se havia almoço e o dono, o Sr. João, avisou que só vendia refeições sob encomenda. O que, no meu caso, não aconteceu. No boteco, havia uma grande mesa de sinuca em uma espaçosa varanda onde a esposa dele alimentava o neto do casal. Faminto, quase não conseguir tirar os olhos daquele prato cheio de arroz, feijão, macarrão e carne cozida oferecido à criança.

Sem esperança de conseguir almoçar, pedalei pela pequena vila na esperança de encontrar um lugar para almoçar. Avistei outro bar e estacionei a bicicleta em uma confortável varanda. A dona do estabelecimento, Aparecida de Fátima Ribeira, disse que também não servia refeições. Restava-me garantir meu sustento com as provisões que eu havia levado. Bolachas, salame, balas de carboidrato e barras de cereais. Pedi um refrigerante e começamos a conversar. O marido dela, o Sr. José, pescador e ex-bóia-fria, sempre distante e calado, me observava atentamente.

Logo conquistei a confiança da dona Aparecida e me explicou que ela e os nove irmãos herdaram o terreno dos pais que foram pioneiros na região e conseguiram o usucapião da terra. Após a morte dos pais, os filhos dividiram o espaço em 10 lotes. Lamentou, no entanto, que alguns deles haviam vendido seus lotes para pessoas “de fora” e que já não se sente tão segura quanto antes. Nesse momento, revelou que o Sr. João, dono do outro bar da vila e também pescador, é um dos seus irmãos.

Segundo ela, que vive no local há 18 anos, os novos proprietários compraram os lotes e construíram casas de veraneio para passear aos fins de semana. Ainda de acordo com ela, apenas 5 pessoas residem efetivamente naquela península que divide as três unidades da Federação (DF, GO, MG). E a maioria vive basicamente da pesca. “Eu mesma vivo da minha aposentadoria e a do meu marido, das vendas do meu bar e da venda dos peixes que o José pesca”, diz.

Ela acrescenta que só faz questão de sair da sua casa para fazer compras e para visitar o filho que cumpre pena em Unaí-MG. “Gosto do sossego daqui e evito a cidade. Só saio para resolver alguma coisa, visitar o meu filho ou comprar algo que preciso”. Muito comunicativa, e cada vez mais à vontade, ela ainda brinca com o fato de ter o privilégio de viver em lugar pitoresco. “Eu atravesso os três estados num dia só”, conta, sorrindo.

Depois de quase uma hora de conversa, inquieta por eu ainda não ter almoçado, me ofereceu um pouco da feijoada que sobrou do almoço que havia cozinhado para ela e para o marido. Já era quase 15h e devorei a feijoada em poucos minutos. O Seu José, já mais próximo e falante, havia participado da conversa e insistiu para eu pernoitar em um dos quartos de sua humilde, mas confortável residência. Agradeci, aliviado por não ter de dormir no meio do mato, e avisei que só teria de gravar algumas cenas aéreas com o drone da tríplice fronteira.

Depois de registrar algumas imagens para a reportagem, tive o privilégio de tomar banho nas águas do Rio Preto, ao pôr-do-sol, imaginando que, há pouco mais de um século, os 22 integrantes da Missão Cruls também podem ter se refrescado naquelas águas depois de mais um dia cansativo de expedição. Que experiência inesquecível!

Água e impostos que nascem na mesma fonte: a água mineral que nasce no DF e é envasada no mesmo terreno, em Goiás (canto Nordeste)

No dia seguinte, ciente de que seria um dos dias mais desafiadores, acordei às 5h da manhã. Foi o tempo de tomar um café preto oferecido pelos meus simpáticos anfitriões, me despedir, e começar a pedalar rumo à divisa com Formosa, extremo Nordeste. Sabia que dos 60 quilômetros previstos para aquele dia, 40k seriam em estrada de terra e com bastante subidas. Não deu outra. Sol quente mais uma vez, consegui cumprir o trajeto na parte da manhã e cheguei ao meu objetivo na hora do almoço. Depois de me alimentar, bastante cansado, ainda fui em busca de um lugar para me hospedar na cidade goiana. A estrada de terra cobrou o seu preço. Encontrei um hotel confortável e adormeci.

Acordei apenas no meio da tarde e descobri conversando com um dos funcionários do hotel que, próximo ao meu destino, o canto Nordeste do quadrado, a 10 quilômetros de Formosa, há uma fábrica de água mineral que é cortada ao meio pela linha que divide o DF e o estado de Goiás. Pelo adiantado da hora, deixei a gravação para o dia seguinte.

Logo ao amanhecer, o sol já ardia o suficiente para eu caprichar no protetor solar. Ao chegar na fábrica, fui super bem recebido pelo gerente, Wesley Almeida, que administra o empreendimento com fôlego de ultramaratonista. Ao ver que eu estava pedalando, fez questão de revelar que também é atleta e participa de maratonas e ultramaratonas (55km) por todo o Brasil. “Corro sempre que posso e adoro a natureza. Dou preferência para corridas em trilhas e em montanhas”.

E a linha imaginária que divide o DF e o Goiás passa mesmo no meio da fábrica? “Sim”, respondeu Wesley. “A divisa passa bem no meio da fábrica. Nossas fontes de água mineral e a área de produção estão no DF e, a poucos metros, está o galpão de embalagens. Transitamos entre os dois estados a todo momento”, diverte-se. Perguntado a qual estado o empreendimento paga impostos, ele adiantou, bem humorado, que a fábrica atende seis estados e que o imposto, não só a água, já sai na fonte.

Ao encerrar a entrevista voltei à rodovia GO-430 e pedalei cerca de 100 metros até a entrada da Fazenda Asa Branca. É lá dentro, em uma gigantesca plantação de milho, segundo o GPS, onde fica o extremo Nordeste do nosso quadrado. Ao ver a porteira aberta, entrei em uma estrada de terra e pedalei por quase dois quilômetros até o exato ponto. Nada além de muito milho por todos os lados. E nem sinal da sede da fazenda para eu conversar com o proprietário ou o administrador. Fiz algumas imagens e parti para a próxima etapa da Expedição 4 Cantos do DF.

Sinuca, cachaça e poucas palavras (canto Noroeste)

Após dois dias de pedal, cheguei no Núcleo Rural Curralinho, a 22 quilômetros de Brazlândia, o vértice no extremo Noroeste do mapa do Distrito Federal. No primeiro dia, pedalei de Formosa até a região do Grande Colorado. Encarei uma forte chuva nos últimos quilômetros, entre Planaltina e Sobradinho. Resolvi parar para não pegar a estrada à noite e garantir a minha segurança.

No dia seguinte, parti em direção ao terceiro canto do nosso mapa decidido a chegar ainda na parte da manhã. Não deu. O cansaço acumulado e a bagagem de 10kg pesaram e só cheguei na “civilização” no início da tarde. Era um sábado e havia muitas pessoas bebendo, conversando e jogando sinuca. Antes mesmo de procurar algum lugar para pousar, preocupado em registrar as imagens ainda com a luz do dia, pedalei o mais rápido que consegui direto ao extremo Noroeste. De acordo com o mapa registrado no GPS, ele ficava a pouco menos de 1km do vilarejo, logo após a placa da divida entre o DF e o Goiás, no fim de uma subida.

Ao alcançar o local, ainda no asfalto, percebi que o vértice do mapa do DF ficava a uns dois quilômetros da rodovia onde eu estava. Fica especificamente próximo à uma colina em uma propriedade particular. Tudo cercado. Procurei algum acesso para a sede da fazenda e não consegui encontrar o proprietário. Sem desistir da minha missão, levantei vôo com o meu drone e registrei imagens aéreas da região onde está o extremo Noroeste. Uma região muito bonita com colinas e bem arborizada.

Já no fim da tarde, voltei ao Núcleo Rural Curralinho, situado no cinturão verde do DF, na região conhecida por ter um dos solos mais férteis do DF, e tentei contato com alguns moradores do local. Percebi logo que muitos estavam ali apenas por diversão e não eram residentes. Constatei também que havia dois bares, bem próximos, e com muitos clientes. Até tentei uma aproximação, mas não fui bem acolhido e preferi me afastar da aglomeração. Encontrei um lugar ermo e armei minha rede embaixo da lona que levei. Fiquei sem banho esse dia. Coisas de viagem. O jantar foi sanduíche de salame, doce de banana e barras de cereal.

Vale encantado (canto Sudoeste)

A combinação gastronômica da noite anterior não caiu bem e amanheci com uma indisposição intestinal intensa. Desidratei muito e, sem forças, pensei até em abortar a última perna da expedição até Engenho das Lages.

Voltei até Curralinho e comprei um refrigerante e duas garrafas de água mineral para tentar me rehidratar. Senti-me um pouco melhor e decidi seguir viagem. Sem uma boa alimentação, no entanto, e ainda desidratado, não tinha energia suficiente para aplicar nos pedais. A estratégia foi segurar um ritmo mais lento e constante. Demorei muito tempo até chegar ao meu destino: no vértice Sudoeste.

Lá chegando, descansei em uma padaria por algum tempo e peguei informações de como chegar o mais perto possível daquele cantinho que também se mostrava inacessível. Fui informado de que a melhor maneira seria entrar pela chácara Monstesinhos. Ao checar no GPS, confirmei a veracidade da informação e segui por uma estrada de terra até fora dos limites de Engenho das Lages. O acesso fica por trás da cidade. No caminho, tentei entrevistar alguns moradores, mas ninguém topou conversar com um cara vestido com lycras coloridas, capacete e óculos chamativos e uma bicicleta cheia de bolsas penduradas.

Ao chegar lá, abri a porteira e continuei descendo até o que me pareceu ser a sede da chácara. Havia duas carcaças de carros. Chamei várias vezes e ninguém apareceu. Uma pena. Por que eu estava a cerca de um quilômetro do extremo Sudoeste. Resolvi sair da propriedade e, da estrada de terra, subi o drone e registrei imagens da região. Um vale imenso que divide o DF do estado de Goiás. Uma belíssima e memorável vista da última fronteira do nosso quadrado. Valeu cada gota de suor na bicicleta para honrar o esforço e competência de Louis Cruls e de sua equipe de corajosos profissionais que desbravaram o Cerrado com a missão de estabelecer a capital do nosso país.

Agradecimentos:

  • Orientação e mapeamento: Sílvio Gomes e ao grupo Calangos do Pedal, que idealizou o percurso DF ao Quadrado e faz a rota todos os anos no aniversário de Brasília
  • Pela bicicleta Gravel: Renner Braga
  • Pelo apoio logístico: Ana Beatriz Marques
Mapeamento criado por Silvio Gomes. Foto: Reprodução

Um pouco de contexto histórico nas palavras de Guilhermo Silveira Braga Vilas Boas, doutorando em História pela Universidade de Brasília (UnB)

A transferência da capital do Brasil para o interior do território já era cogitada desde muito antes do surgimento de Brasília, no final da década de 1950. Na época do Império, José Bonifácio e outras lideranças da corte defendiam a idéia da mudança do Rio de Janeiro, instalando-se a sede do governo em outro ponto que não o litoral.

Com o advento do período republicano, em 1889, foi registrado na Constituição de 1891 o dispositivo que oficializava a intenção em se transferir a capital do País para o interior, em área ainda a ser escolhida e demarcada. Tendo como base tal premissa constitucional, organizou-se uma missão exploratória com os objetivos de levantar dados de relevo, clima, hidrografia, botânica e demografia, no interior do estado do Goiás, área do Planalto Central do Brasil. A expedição (ou missão) Cruls, nome do líder, Luís Cruls, foi realizada em duas etapas, ambas financiadas pelos primeiros governos federais republicanos.

Arquivo cedido ao JBr

Com a decisão de JK de se iniciar os trabalhos da construção da Nova Capital, a cidade deveria se situar em um dos cinco sítios prováveis para sua instalação; escolhido o sítio Castanho (1), consolidou-se o quadrilátero cuja área havia sido delimitada em 1954, após conclusão dos estudos de outra comissão chefiada pelo general José Pessoa, que corresponde à área atual, tendo o governo do estado do Goiás também atuado de forma proativa no sentido de desapropriar áreas em favor da União para a transferência da capital e, assim, o surgimento de Brasília.

Enfim, Brasília, ou seja, o Distrito Federal, possui uma infinidade de informações e curiosidades que perpassam os seus 63 anos de inauguração oficial. Por exemplo, poucos sabem da existência e funcionamento de um trem de passageiros na capital.

O Trem Bandeirante, que ligava Brasília a Campinas, no interior do estado de São Paulo, oferecia o serviço de transporte de passageiros, que acabaria por durar pouco mais de vinte anos. Entretanto, pouco se sabe sobre este personagem da história de Brasília e das ferrovias do país. Por meio de consulta a bases de arquivos do Distrito Federal e, principalmente, através das experiências e memórias de passageiros, trabalhadores e moradores da capital, está sendo desenvolvida uma pesquisa que objetiva compreender o que ensejara os eventuais esquecimentos em relação a este trem de passageiros no contexto da história brasiliense e nacional.

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