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Brasília

Estabelecimentos 24h: em vez de lucro, medo e risco de prejuízo

Arquivo Geral

09/09/2014 7h20

A vida não para durante a madrugada. Assim,  farmácias, restaurantes, supermercados, lojas de conveniência  e até bancas de revista  e academias investem no público que pernoita na cidade. Os estabelecimentos 24 horas tomaram as ruas, mas  nem todos conseguiram manter a proposta.  O medo da violência fez com que 225 lojas reduzissem seus horários de funcionamento somente neste ano, em razão da insegurança. Agora, o número de espaços que ainda mantêm as portas abertas no pernoite não passa de 260, de acordo com o Sindicato do Comércio Varejista (Sindivarejista). “Enjaulados” para evitar assaltos, prestam   atendimento   de longe. 

É o caso de uma farmácia da Asa Norte, que  há 20 anos funciona 24h por dia. Depois das 21h, porém, a entrada na loja não é permitida. A negociação entre plantonistas e clientes é feita a distância e entre grades, para não correr riscos. “A grade inibe porque o pessoal fica de fora, mas não existe segurança”, pondera Moacir Caixeta, o proprietário.  

A última ação de bandidos na farmácia ocorreu há pouco mais de um ano. Por volta das 18h, um grupo levou o dinheiro do caixa, mas logo foi recuperado pela polícia. 

“não dou mais conta”

A rotina deve mudar no próximo ano. Cansado da impunidade, dos riscos e do dia a dia de incertezas, Moacir antecipa que a farmácia deve fechar as portas   durante as madrugadas. 

“Nós somos reféns da violência”, lamenta. “Há cada vez menos farmácias 24h abertas. Não temos segurança. Eu não dou mais conta”, completa, acreditando que as duas décadas que passou a serviço da população sejam suficientes. 

Fechamento para proteger os clientes

Muitos locais já fecharam as portas na madrugada, assim como o dono de uma farmácia na Asa Norte pretende fazer. Um hipermercado em Taguatinga adaptou o horário “para a segurança dos clientes”, segundo uma funcionária que preferiu não se identificar. De acordo com ela, a medida foi tomada há cerca de quatro meses. 

“Havia muita incidência de pessoas rondando, assaltando e furtando  a loja”, lembra. Assim, para evitar que os clientes fossem abordados, preferiram reduzir o horário de funcionamento. 

Outro supermercado, dessa vez no Guará I, optou por fechar as portas à noite há mais de dois anos. A professora Galvina Alencar, 42 anos, já frequentou o local de madrugada e acredita que, embora essa opção faça falta, trata-se de uma medida de segurança. “É uma área movimentada à noite, mas há também gente suspeita, moradores de rua. Ao mesmo tempo em que abrir 24h é cômodo, é perigoso”, avalia.

“Fechar cedo é diminuir as ameaças”
 
Dono da loja de conveniência de um posto de gasolina na 406 Norte, Renê Naves, 77 anos, não deixa mais as portas abertas após as 23h. “Depois disso não tem movimento e as vendas não compensam o risco de assaltos. Fechar mais cedo é diminuir as ameaças. Uma vida  não tem preço”, justifica o comerciante. 
 
Naquele mesmo lugar, no ano passado, um funcionário foi morto por assaltantes. Uma frentista, que preferiu não se identificar, conta que chegou cedo para trabalhar quando se deparou com a cena do crime. O atendente da conveniência, que na época funcionava por 24 horas, teria reagido, levou um tiro e morreu no local. 
 Renê ainda não tinha assumido a gestão na época. “O caixa eletrônico funciona como chamariz tanto para clientes quanto para bandidos. Mas eu não tiraria. Os assaltantes sempre sabem onde estão os focos dos crimes”, acredita.
 
Movimento
 
No posto, não há como reduzir a carga horária. Mas a frentista explica que durante a madrugada o movimento é menor. “As pessoas ficam com medo de assaltos, não costumam abastecer os carros. O movimento é bastante fraco”, diz.
Isso ocorre com a advogada Viviane Benon, 38. Ela   não costuma ir a nenhum tipo de comércio de rua após as 20h. “Antigamente, íamos lanchar depois de festas. Agora está impossível. Nem a posto de gasolina vou mais depois de certo horário. Vou arriscar morrer, ser sequestrada, prejudicar minhas filhas?”, questiona. 
 
Pioneirismo
 
Lorival Soares Marques, 76 anos, é o dono da primeira banca de jornais e revistas da capital, na 108 Sul. Até meados da década de 1990, seu empreendimento funcionava 24h por dia. “Fiz a tentativa para ver se a oportunidade era viável”, conta. Além dos produtos tradicionais de uma banca, o estabelecimento  oferece alimentos, livros e aluguéis de filmes.
 
O pioneiro comemora o fato de a violência não ter sido responsável pela mudança de rotina. “Aqui sempre foi  seguro e eu conheço a comunidade. Na madrugada, quando aparecia alguém suspeito, eu chamava a polícia”, lembra.
Depois da tentativa de Lorival, outros estabelecimentos semelhantes seguiram a ideia. “O movimento não era recompensador, então, resolvi parar. Hoje estamos abertos até as 21h”, conta.  
 
A reportagem não obteve resposta da Polícia Militar, para comentar a respeito do patrulhamento do DF, até o fechamento desta edição.
 
Aposta na vigilância particular
 
Muitos dos estabelecimentos que optam por funcionar 24 horas por dia enxergam na vigilância privada uma forma de proteção. Ontem, o Jornal de Brasília mostrou que, no Distrito Federal, já são 62 empresas de vigilância regulares, sete academias de formação e   23 mil pessoas que exercem a profissão. A quantidade de profissionais de vigilância privada é 52%  maior do que o efetivo da Polícia Militar brasiliense, que conta com 15,1 mil  profissionais. 
 
Em nove anos houve um crescimento de 68% no número de empresas deste segmento. Só na região Centro-Oeste são 239, representando 10,5% de todas as companhias brasileiras.  
 
O número de vigilantes, consequentemente, aumentou. O crescimento  é de 38,3% com relação a 2012. De acordo com o Sindicato dos Vigilantes  (Sindesv-DF), há 105 mil profissionais regularizados, embora apenas 21,9% estejam empregados. Em 2010, o número não passava dos 14 mil.
 
Memória
 
Episódios recentes mostram que alguns criminosos aproveitam o funcionamento dos estabelecimentos de madrugada para fazer novas vítimas. Em junho deste ano,  clientes de restaurantes da Quadra 100 do Sudoeste foram vítimas de um arrastão. Os ladrões levaram dinheiro e objetos pessoais. Eles fugiram do local, mas foram encontrados pela polícia, com a ajuda do GPS de um dos celulares roubados.
 
 Em fevereiro deste ano, homens explodiram o caixa eletrônico de um posto de combustível da 409 Norte. Com medo, o frentista teria se trancado no banheiro.
 
Em janeiro último, de madrugada, um casal invadiu uma lanchonete na Asa Sul e rendeu os clientes.
 
Saiba mais
 
Além de restaurantes e postos de combustíveis, outros segmentos aderiram ao funcionamento 24 horas.   Uma    academia localizada  próximo ao Eixo Monumental chegou a funcionar dessa forma. O objetivo era atrair a clientela que alega não ter tempo de se exercitar durante os horários convencionais. Mas o local passou a fechar à 0h.
 
Já em relação às farmácias, existe uma norma do Governo do Distrito Federal que estabelece o funcionamento de madrugada, por meio de escala entre os estabelecimentos. O objetivo é fazer com que os estabelecimentos atendam de forma ininterrupta.

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