Eric Zambon
eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br
Vendedores ambulantes caminham animados entre dezenas de estandes montados sob uma grande tenda. A poucos metros, numa van da Agência de Fiscalização (Agefis), tanto motorista quanto fiscal apenas observam a movimentação. Fosse qualquer outro dia, os camelôs correriam de desespero, com medo de as mercadorias (a maioria sem nota fiscal) serem tomadas. Mas, como era sexta-feira, eles podiam estar ali, tranquilos e com autorização da Administração de Brasília.
Há cerca de três meses, o Setor Comercial Sul é palco de uma feira itinerante organizada pela recém- formada Associação Brasiliense dos Trabalhadores Autônomos e Ambulantes (ABTAA). Conforme o presidente da entidade, Márcio Afonso, a tenda, que ocupa quase 600 m² do estacionamento voltado para a via W3, é fruto de negociação com as autoridades. “Em novembro, eu já tinha conversado com o governo que não impedissem nossos trabalhadores de ir à rua”, diz.
A Associação Comercial do DF (ACDF), no entanto, classifica a iniciativa dos ambulantes como “aberração comercial”, conforme notícia no site oficial, e o presidente da entidade, Cleber Pires, sugere haver apadrinhamento político para eles estarem ali. “Existiam cerca de 500 ambulantes no Setor Comercial. Tiraram todos e só uns 50 estão por ali. Quais foram os critérios para escolher?”, argumenta.
Opiniões mistas
Em visita ao local no fim da tarde, as impressões de transeuntes e até de lojistas ao redor eram, em sua maioria, positivas. Vendedores de quiosques fixos próximos preferiram não aparecer na reportagem, mas disseram que, em dia de feira, a procura pelos alimentos cresce. Uma bancária, no entanto, reclamou da presença e criticou o fato de eles “não pagarem impostos”.
A auxiliar de dentista Débora Souza, 19 anos, passa pelo ponto diariamente e aprova a iniciativa. “Eu fiquei sabendo que só acontece alguns dias, então tento aproveitar. Minhas amigas costumam frequentar”, comenta.
A tenda só é montada, conforme a associação, às quartas, quintas e sextas-feiras e a localidade varia. A partir desta quarta, por exemplo, eles esperam se instalar próximo à estação de metrô. “A gente tem que sobreviver. Tenho seis filhos”, defende-se o ambulantes Johnny Alves, de 35 anos.
Ele alega ter um estande no Shopping Popular, mas critica a baixa procura. “Tudo lá deu errado. Ficamos largados e eu tive de voltar para a rua”, desabafa.
“Levam o bônus e nos deixam o ônus”
Apesar da autorização provisória, os próprios agentes do governo parecem ressabiados. Em conversa com o fiscal da Agefis que observava a movimentação, ele confirmou a existência do aval, mas fez uma observação: “Ainda assim, são camelôs”.
O presidente da ACDF, Cleber Pires, lembrou que 82 lojas estão fechadas no Setor Comercial Sul, segundo ele, devido à falta de segurança e de estacionamento. “Isso abre espaço para o comércio informal, que leva o bônus e nos deixa o ônus”, critica. Outro motivo de reclamação é pelos ambulantes tomarem as vagas em frente à W3.
“Tudo o que poderíamos fazer para dialogar com o governo nós tentamos”, esbraveja Pires. “Somos ouvidos, mas não somos escutados. Isso não é um sentimento só da ACDF, é da sociedade”, diz.
Os camelôs se defendem. “Esse espaço não é de graça. A gente paga, se não me engano, R$ 1,20 por metro quadrado. Se tivessem carros aqui, não estariam gerando um centavo para os cofres do governo”, alega o presidente da associação de ambulantes, Márcio Afonso.
Versão oficial
Conforme a Administração de Brasília, os ambulantes possuem uma autorização eventual para se instalarem no Setor Comercial Sul três vezes por semana em locais alternados ao longo do mês. “Eles se organizaram em associação e, inclusive, promovemos palestras em parceria com o Sebrae para informá-los sobre como eles podem se tornar microempreendedores individuais”, afirmou a assessoria do órgão. A administração disse ter interesse na regularização das atividades do grupo, como parte de um projeto de revitalização do centro de Brasília.
Ao contrário do informado pelo presidente da associação dos ambulantes, porém, a administração afirmou que o valor pago pelo metro quadrado é de R$ 0,55, um “valor simbólico”, mas não soube, até o fechamento desta matéria, precisar a metragem da área ocupada pela feira.