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Brasília

Escola cria projeto que estimula alunos a votar e a entender o processo eleitoral

Arquivo Geral

04/10/2018 7h00

Atualizada 03/10/2018 23h20

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Rafaella Panceri
rafaella.panceri@grupojbr.com

Política virou assunto de criança na Escola Classe 314 Sul. Desde 1º de outubro, 327 alunos com idade entre seis e dez anos participam do projeto “Diretor mirim por um dia”, que simula o processo eleitoral de maneira didática, discute temas como corrupção e estimula a cidadania.

Durante a semana, as crianças se organizaram em 16 chapas, distribuíram santinhos entre os colegas, fizeram comícios, participaram de debates e gravaram vídeos para a propaganda eleitoral gratuita, exibida na própria escola.

Amanhã é o dia D: estudantes, professores, auxiliares, voluntários e terceirizados da escola vão eleger duas chapas: uma para o período da manhã e outra para o da tarde. A votação será feita por um programa de computador criado por um pai voluntário.

A dinâmica é simples. A escola criou títulos de eleitor fictícios nos quais consta o número de matrícula de cada aluno. Um professor assumirá a função de mesário e digitará, no teclado do computador, a identificação das crianças. Secretamente, cada aluno escolhe a chapa favorita e confirma o voto, após visualizar a imagem da chapa. Haverá a opção de votar em branco.

Ao final da eleição, o sistema cria um relatório com o resultado. “Se houver empate, vamos para o segundo turno”, explica a vice-diretora, Bernadete Caparica.

Depois das urnas
Depois da posse, os alunos ocuparão os cargos de diretor, vice-diretor, supervisor e secretário da escola por um dia, com acompanhamento dos servidores. Eles deverão, ainda, cumprir o que prometeram na campanha. As propostas envolvem limpeza dos banheiros, oferta de merenda saudável, cuidado com as plantas, música no lugar do sinal e a volta de atividades recreativas durante o intervalo.

Envolvimento
Conceitos como corrupção, impugnação de candidatura, uso da máquina pública e compra de votos tiveram espaço no projeto. “Um dos alunos estava oferecendo R$ 1 para quem votasse nele e outro oferecia doces. Explicamos que era ilegal”, conta a vice-diretora.

“Algumas chapas quiseram utilizar a máquina de xerox da escola para fazer cópias dos santinhos, mas esclarecemos que o uso da máquina pública não era permitido. Uma candidata pediu a impugnação de outra porque a colega jogou o cartaz contra o rosto dela”.

As regras do jogo, lembra, fazem analogia à Lei da Ficha Limpa: respeitar os demais, fazer o dever de casa e não falar palavrão.

Para a direção, o comprometimento dos estudantes superou as expectativas. “E se estendeu aos pais”, compartilha a diretora, Sandra Niel. “É muito importante porque as crianças estão formando a personalidade nessa faixa etária”.

Bernadete Caparica vai além. “Vivemos um dos momentos mais críticos na política brasileira. Os candidatos não apresentam propostas, mas protagonizam embates. Ensinamos que, para melhorar o país, dependemos da honestidade. Dizemos os alunos que eles serão os candidatos dos nossos netos. Vai marcar a vida de todos”.

A diretora, Sandra Niel, e a vice, Bernadete Caparica: tudo minuciosamente pensado para conscientizar a garotada. Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Família também participa da ação

Mãe de um aluno da EC 314, a analista de sistemas Simone Magalhães, 43, percebe que o garoto, de oito anos, está animadíssimo com o projeto. “Todos os dias ele chega com uma novidade em casa: a elaboração da logomarca do partido e do jingle da campanha, a escolha dos candidatos ficha-limpa, a discussão das propostas e os cartazes de propaganda”, conta.

“Essas crianças serão os futuros candidatos e eleitores. Devem saber desde cedo o que é democracia, que todos podem opinar e que a vontade da maioria vence”, observa, e diz que política é assunto para os pequenos. “Quanto mais cedo eles aprendem a importância da política, mais mudanças haverá no futuro”, imagina.

Participação

O analista de sistemas Marcos Santos, 40, decidiu atuar diretamente no projeto. Pai de uma das candidatas na eleição simbólica, idealizou o sistema de votação da escola. Em cinco dias, colocou a solução em prática com ajuda da mulher, que é professora.

“Foi simples, porque o processo de votação também é. Basta escolher uma chapa e fazer a contagem após o término”, explica. A ideia de ajudar surgiu quando Marcos viu a filha comentando sobre o assunto com a mãe. “Ela disse que seria votação de papel e eu falei que poderia ser tudo digital, para ser mais rápido, transparente e próximo da realidade”.


Saiba Mais

Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do DF organizou uma palestra itinerante que passou por 11 escolas. Nos encontros, um representante da Escola Judiciária do DF abordou temas como fake news, sistema político, importância do voto e corrupção.

Escolas do Areal, Asa Sul e Norte, Ceilândia, Guará, Park Way, São Sebastião, Samambaia, Sobradinho e Taguatinga receberam o conteúdo, apresentado em uma peça teatral. Houve debates entre os alunos e uma eleição simbólica.

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