O brasiliense deve começar a perceber nos próximos dias os primeiros sinais de uma mudança aguardada há meses. Depois de enfrentar calor intenso e umidade baixa, o Distrito Federal tem previsão de pancadas de chuva e trovoadas isoladas a partir de quarta-feira (23). A água, no entanto, ainda não significa o fim da seca: nesta semana, os termômetros podem chegar aos 36°C e a tendência é de alternância entre dias quentes e secos e episódios isolados de chuva até que o período chuvoso se estabeleça de forma mais regular.
A virada coincide com o início da primavera, nesta terça-feira (22), e marca o começo da transição entre as estações seca e chuvosa no Brasil Central. Segundo a meteorologista Andrea Ramos, a mudança ocorre com a entrada gradual de umidade sobre a região. Nesta época do ano, o transporte de vapor d’água proveniente da Amazônia começa a se intensificar em direção ao Centro-Oeste, criando condições mais favoráveis para a formação de áreas de instabilidade.
“A previsão indica pancadas de chuva e trovoadas isoladas na quarta-feira, dia 23, e na quinta-feira, dia 24, mostrando que a atmosfera começa a ficar mais favorável à formação de áreas de instabilidade”, explica Andrea.
Apesar do retorno da chuva, guarda-chuva e garrafinha de água ainda devem dividir espaço na bolsa do brasiliense. A meteorologista ressalta que as primeiras precipitações não representam o estabelecimento definitivo da estação chuvosa. É comum, durante essa transição, que as chuvas sejam irregulares tanto em relação ao local quanto ao momento em que ocorrem.
“Pode chover em uma área do DF e praticamente não chover em outra. Da mesma forma, podemos ter um ou dois dias com pancadas e, posteriormente, voltar a registrar tardes quentes e muito secas”, afirma.
A previsão para esta semana exemplifica essa oscilação. Na quarta-feira, a temperatura deve variar entre 21°C e 31°C, com possibilidade de pancadas de chuva e trovoadas isoladas. Na quinta, a mínima prevista é de 20°C e a máxima de 30°C, também com previsão de chuva. Já na sexta-feira (25), os termômetros podem voltar a disparar e atingir 36°C.
Calor ainda não vai embora
As altas temperaturas às vésperas das primeiras chuvas não são uma contradição. De acordo com Andrea, o calor intenso é característico do fim da estação seca na região central do país. A forte incidência de radiação solar, a pouca presença de nuvens e o solo seco depois de um longo período sem precipitações favorecem o aquecimento da superfície e do ar.
Essa combinação também ajuda a explicar por que as primeiras chuvas podem chegar acompanhadas de fenômenos mais intensos e localizados. Quando a atmosfera quente próxima à superfície passa a receber mais umidade, aumenta a disponibilidade de energia para a formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical.
“Uma atmosfera quente próxima à superfície combinada com maior disponibilidade de umidade pode favorecer rapidamente o desenvolvimento de nuvens convectivas e chuvas em forma de pancadas, com trovoadas, rajadas de vento e até granizo”, explica a meteorologista.
Isso não significa, porém, que o DF terá necessariamente tempestades severas generalizadas nesta semana. Andrea faz a ressalva de que o cenário indica possibilidade de eventos convectivos localizados. Na prática, uma região pode enfrentar uma pancada mais forte enquanto outra, a poucos quilômetros de distância, permanece sem chuva.
Seca sentida no corpo
Enquanto a chuva não se torna frequente, quem vive no Distrito Federal ainda enfrenta os efeitos de meses de baixa umidade. Para Allana Macedo, consultora de noivas e moradora do Paranoá, o desconforto já interfere até mesmo no descanso.
“Neste tempo seco, fico sem disposição e isso tem atrapalhado até o meu sono. A baixa umidade também dificulta muito a respiração”, conta.
Entre calor e seca, Allana não tem dúvidas sobre o que mais pesa na rotina. “Os dois são bem insuportáveis, mas a baixa umidade é muito mais difícil”, afirma.
A hidratação passou a exigir atenção redobrada. Ela conta que aumentou o consumo de água e tenta adaptar a rotina para diminuir o desconforto provocado pelas altas temperaturas. “Bebo bastante água e tento, ao máximo, fazer o que consigo para suar menos, porque incomoda muito”, relata.
A possibilidade de chuva nos próximos dias, por isso, é recebida com alívio. Ao contrário de trabalhadores cuja rotina pode ser prejudicada pela precipitação, Allana afirma que a mudança não atrapalha o trabalho na loja. “Graças a Deus, não tenho dificuldade. Acho até melhor”, brinca.
Uma transição gradual
A chegada da primavera abre caminho para uma mudança mais consistente no padrão do tempo, mas o processo deve ocorrer aos poucos. Conforme Andrea Ramos, a tendência é que, ao longo da estação, a frequência e a distribuição das chuvas aumentem no Distrito Federal e em outras áreas do Brasil Central.
O principal fator é justamente a intensificação do transporte de umidade da Amazônia. Mais adiante na primavera, também podem ocorrer os primeiros episódios relacionados à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), sistema meteorológico associado a períodos de chuva persistente em áreas do Centro-Oeste e do Sudeste.
Até lá, o brasiliense ainda deve conviver com as duas estações quase ao mesmo tempo.
“A primavera começa esse período de transição. A tendência daqui para frente é de aumento gradual da umidade e da frequência das pancadas de chuva no DF, mas isso não significa o fim imediato do calor e do tempo seco”, explica Andrea.
Segundo a meteorologista, dias de temperaturas elevadas e baixa umidade ainda devem aparecer intercalados com episódios de chuva até que o novo padrão se consolide. “Ainda teremos uma alternância entre dias muito quentes e secos e episódios de chuva, até que o regime chuvoso consiga se estabelecer de forma mais regular”, conclui.