Entre o desespero e a dor, familiares que perdem um parente precisam lidar com um assunto burocrático e racional: o funeral. No DF, 900 sepultamentos são realizados mensalmente nos seis cemitérios por 60 empresas que prestam serviços funerários, movimentando R$ 50 milhões por ano apenas na capital.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento do setor em todo o País é de 20%. As mortes não cessam, e os empresários dizem ter de adaptar os pacotes em função da crise financeira. Se despedir definitivamente de alguém pode custar mais de R$ 60 mil.
O IBGE revelou que o setor movimenta uma receita líquida de R$ 1,2 bilhão no País – incluindo todos os serviços associados (floriculturas, velas, pedras e construção civil dedicada ao nicho). O mercado impulsionou a criação de empregos que, na última década, aumentou 150%, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
No DF, a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Informações Funerárias (Abrasif) estima que o faturamento mensal no mercado da morte é de aproximadamente R$ 4 milhões. Em 12 meses, o setor movimenta cerca de R$ 50 milhões, “incluindo sepultamento, cerimonial, flores e apetrechos”, destaca o presidente da entidade, Maurício Costa.
Ainda assim, o presidente da Associação das Funerárias do DF (Asfundf) diz que o serviço sofre adaptações. Há 16 anos no mercado, Francisco Ribeiro conta que o que sustenta a empresa são as indicações. “Mesmo a gente vendendo um serviço mais barato, tem que se adequar à situação financeira das famílias. Nesse momento, cheques voltam e dívidas se acumulam”, explica.
Os preços exercidos pelas funerárias são tabelados, e o último reajuste dos serviços básicos foi publicado em setembro. Nesse catálogo, a versão mais barata (urna, ornamentação com crisântemos e remoção) sai por R$ 563,52. Após 24 horas do óbito, é necessária a formolização, que custa R$ 353,08.
Os agentes funerários dizem que os valores são quase impraticáveis porque os clientes escolhem o que está incluso em cada pacote e não se limitam ao básico. “O serviço tabelado não é o que a família deseja porque é muito simples. Todo serviço deve começar pelo tabelado, mas, dificilmente, se vende”, garante o presidente da Asfundf, embora saiba de empresas que partem do mais caro.
“Ninguém procura aquelas urnas do governo. Não é que cobramos mais caro, é o que a família pede mais”, revela o agente funerário Everton Sacchi, de uma unidade na Asa Sul. Lá, conta, os funerais mais caros podem passar dos R$ 50 mil: “Nós trabalhamos com mais requinte porque nosso público permite”.
Luxos também na despedida
Entre os luxos que podem ser incluídos na despedida de um ente querido no Distrito Federal estão o transporte do corpo feito por helicóptero, caixão importado de madeira nobre, estofado em tecido ilustre e alças de bronze, coroa de flores de orquídeas, lírios, rosas vermelhas e aluguel de salões nobres ou mansões para o velório, que pode contar, ainda, com bufê, músicos e coral.
Os valores dos serviços funerários variam por região. Em Ceilândia, o teto não chega a R$ 5 mil e, mesmo assim, o modelo básico, tabelado pelo governo, encalha no estoque. Em uma unidade, próxima ao hospital regional, há seis anos, cinco urnas “enfeitam” o depósito.
Ivonete Silva, proprietária de uma funerária em Taguatinga, diz que sequer trabalha com o modelo I determinado pela planilha do GDF. “Não sai. As pessoas preferem pagar R$ 40 a mais por uma urna mais confortável. Aqui, o pacote mais barato sai por cerca de R$ 1 mil e não passa de R$ 12 mil – com caixão presidencial, flores diferentes e coroa de flores. O serviço é sempre o mesmo”, diz.
Além da funerária, o sepultamento
Além dos gastos na funerária, o brasiliense ainda precisa arcar com os valores para sepultamento no cemitério. Nas seis unidades do Distrito Federal, os pacotes mais baratos saem a partir de R$ 40, quando as famílias já têm sepulturas, e por pelo menos R$ 460 para aqueles que ainda têm de adquirir um espaço.
De acordo com o Campo da Esperança Ltda, concessionária que administra os espaços, nos valores estão incluídos os serviços de sepultamento e a utilização de um jazigo de uma gaveta por até dez anos.
Sepultura perpétua
O valor aumenta quase três vezes quando a intenção é ter a sepultura perpétua. Pelo menos é o que informam oficialmente. Nas unidades, os pacotes oferecidos são de, em média, R$ 3 mil, e o arrendamento não é recomendado pelos atendentes.
O custo dos enterros no Distrito Federal varia de acordo com os itens opcionais que cada família opta, que pode incluir serviços de limousine (até R$ 603), café, água, chá (R$ 59) e cadeiras (R$ 23) no velório. Um sepultamento pode passar dos R$ 4 mil, além dos custos na funerária.
Serviços são regulados pelo governo do DF
Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) regulamenta o funcionamento das funerárias no Distrito Federal. Isso é válido até que seja feita uma licitação para o setor. O coordenador de Assuntos Funerários (CAF) da Secretaria de Justiça, Adailson Oliveira, afirma que o processo para lançar o edital está em fase de conclusão, após três anos de elaboração.
O consórcio Campo da Esperança Ltda venceu um processo licitatório para gestão de todos os cemitérios do Distrito Federal em 2001, com validade de 30 anos. Embora empresários do setor funerário critiquem a gestão, o coordenador da CAF lembra que “a concorrência existiu, foi transparente e uma delas ganhou”.
O governo tem o papel de fiscalizar o serviço, que é essencial à população e não é oferecido gratuitamente. O coordenador da CAF garante que são feitas visitas periódicas em todas as 60 unidades funerárias do Distrito Federal e que, mensalmente, os documentos das empresas são analisados.
Para Francisco Ribeiro, presidente da Associação das Funerárias do Distrito Federal (Asfundf), a ação do Governo do Distirto Federal deveria ser mais dura. “Eu sou a favor da fiscalização. Quanto mais, melhor. Isso vai tirar as ruins (empresas) do mercado e colocar ordem”, argumenta Ribeiro.