Jéssica Antunes
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Reduto de criminosos e ponto de uso e tráfico de drogas, o esqueleto de um prédio erguido há 30 anos começa a ser demolido em Ceilândia. Apelidada de “Batcaverna”, em alusão à moradia sombria da ficção, a construção de 3,6 mil metros quadrados e 15 metros de altura deve dar lugar a equipamento público. A mesma promessa foi feita, em 2012, quando o chamado “Castelo de Grayskull” foi ao chão, a dois quilômetros dali. A obra iniciada há mais de um ano está parada.
Na frente do canteiro de obras da Praça da Juventude, na QNN 13, ao lado da estação de metrô Ceilândia Norte, uma placa indica que a construção deveria ter sido concluída em outubro passado, nove meses após o que deveria ter sido o início das obras. O projeto é de um minicentro olímpico.
Estavam previstas quadras de vôlei de praia, área destinada a exercícios e alongamento, pista de skate, campo de futebol society, quadra poliesportiva coberta, vestiários, teatro de arena com palco, quiosque de alimentação, arquibancadas e sanitários, além de um centro de convivência com salas para ginástica, atividades para idosos, administração e reuniões. Mas, por trás dos tapumes, ainda não há sinais de que a estrutura será inaugurada.
Ali, havia uma construção abandonada e demolida em 2012. O “Castelo de Grayskull” era tido como uma das maiores cracolândias da capital e a insegurança reinava. Também foram necessários 20 anos de reivindicações até a derrubada.
A Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos do DF (Sinesp) admite a paralisação da obra, que havia sido retomada em janeiro deste ano. Segundo a pasta, antes da interrupção, a empresa havia feito escavações para colocação de estacas e montagem de alambrados das quadras.
Em função dos atrasos, a empresa foi notificada e a Sinesp trabalha na rescisão do contrato, de R$ 2,7 milhões. O órgão informa que “tão logo sejam resolvidos os impasses contratuais, as obras serão retomadas.”
Saiba mais
- Diretor-geral da Polícia Civil, Eric Seba confirmou que 23ª DP investiga uma suspeita de estupro na “Batcaverna”, além de roubos e tráfico. Ele afirmou que a demolição pode contribuir para a redução da criminalidade. O início da demolição, que pode acabar hoje, foi acompanhada e comemorada por dezenas de moradores.
Esperança
Quando chegou à QNN 19, há 27 anos, a assistente administrativa Maria do Socorro de Sousa, 62, soube que teria um centro clínico na esquina de casa. Naquela época, o prédio estava em construção, mas o maquinário sumiu e logo se tornou abrigo para moradores de rua e criminosos. Pela escuridão e perigo, foi apelidado de “Batcaverna”.
“Estava prestes a fazer acabamento, mas, depois que o dono morreu, teve problema entre os herdeiros e acabou. Entrava e saía governo, mas nenhuma das nossas reclamações era atendida”, lembra a moradora.
Segundo o administrador regional de Ceilândia, Vilson José de Oliveira, a população será mobilizada para um mutirão com o objetivo de revitalizar o espaço e decidirá o que fazer no local.
O maior problema era a insegurança. “Já houve assaltos, estupros, tráfico e outros crimes. Também tinha tiros, esfaqueamentos, barulho e sujeira”, conta Maria do Socorro. Ela mesma diz ter sido assaltada pelo menos duas vezes nos últimos meses e prestou ajuda a outra vítima.
Conta será enviada a herdeiros
A área da “Batcaverna” é uma propriedade privada e, de acordo com a diretora-presidente da Agefis, Bruna Pinheiro, os responsáveis ignoraram todas as notificações prévias cabíveis até chegar ao ato demolitório. O trabalho inicial será lento. Pela proximidade com imóveis residenciais, técnicos da Novacap deram início à destruição por um procedimento manual por partes, com uso de máquinas, tratores e marteletes.
De acordo com Bruna, a implosão, além de cara, demandaria meses de planejamento. O governo se responsabilizou pela demolição, mas o custo da operação, somado ao fim do processo, será cobrado dos proprietários. Segundo o coronel Lopes, engenheiro da Defesa Civil, o prédio tinha infiltrações, bolores e irregularidades construtivas. Parte da estrutura corria risco de desabar.
Além disso, informou o governador Rodrigo Rollemberg, há uma recomendação do Ministério Público do DF e Territórios de que esse prédio seja derrubado por desobedecer aos padrões urbanísticos. “Foi construído de forma irregular e está servindo como ponto de esconderijo de marginais”, critica o chefe do Executivo.