Dione Maycon
dione.maycon@jornaldebrasilia.com.br
A busca pelo corpo perfeito, ditado pelo universo da moda, e o medo de engordar podem ocasionar sérios problemas de saúde e, em alguns casos, levar até à morte. O uso excessivo de laxantes e diuréticos, jejuns, vômitos induzidos, dietas radicais e exercícios intensos indicam que a pessoa tem anorexia, doença, um comportamento persistente que leva uma pessoa a tentar manter seu peso corporal abaixo dos níveis esperados para sua estatura, e atinge, principalmente, mulheres em todo o mundo. No Distrito Federal, segundo um levantamento do Grupo de Atendimento a Transtornos Alimentares (Gata), da Secretaria de Saúde, entre 2007 e 2010, foram registrados 31 casos de anorexia e outros 25 de bulimia, quando o paciente come muito e, depois, tenta vomitar ou toma laxantes para compensar. A maioria dos casos foram identificados em Ceilândia, Gama e Santa Maria, o que revela que a doença não escolhe classe social.
Muitas vezes o mercado da moda, que apresenta modelos lindas e magreza às vezes excessiva, se torna uma imposição para várias mulheres. Mas, se isso se tornar uma obsessão, pode ser perigoso à saúde. Mudar radicalmente os hábitos alimentares para perder peso pode ter consequências drásticas.
O Gata funciona desde 2007 e é ligado ao Centro de Orientação Médica e Psico-Pedagógica (Compp), da Secretaria de Saúde. Ao longo destes anos, 259 pessoas já passaram pelo grupo. Além dos casos que levam à magreza excessiva, o grupo presta atendimento a pessoas que sofrem com complexo alimentar periódico, no qual não consegue parar de comer.
Os casos mais comuns que chegam ao Gata são de pessoas vítimas de bullying, depressão, violência sexual e que querem chegar a um corpo escultural. Dos casos atendidos, um teve resultado em seis meses, porém, há acompanhamentos que podem durar mais tempo. A nutricionista e coordenadora do Gata, Graciane de Castro Carneiro, ressalta o trabalho na orientação aos pais para que passem a observar melhor os filhos e a promover atividades coletivas, inclusive, na hora do almoço. “Há casos em que ela usa roupas largas para não demonstrar a doença e isto pode retardar o conhecimento da família sobre a doença”, afirma.
Exemplo vem da superação
Em Samambaia Norte, um caso chamou a atenção de vários internautas em todo o País. Anna Reis, 22 anos, que sofreu com a doença entre os anos de 2006 e 2009, conseguiu driblar a anorexia e dar um novo rumo a sua vida. Após vencer a doença, a jovem fez um vídeo com uma declaração e postou no You Tube. Mais de sete mil pessoas já visualizaram o depoimento.
Anna conta que os sintomas vieram após receber duras críticas, com um desenho, na qual a insultavam e insinuavam que estava obesa. “Hoje, eu posso dizer que não era e nunca fui gorda. Na época do desenho, eu tinha 16 anos e pesava 56 quilos. Após o incidente eu só queria emagrecer. Me via gorda, parei de comer e criei um complexo que me levou a achar que tudo tinha caloria e me faria engordar.
Até xampu eu olhava se tinha caloria”, recorda Anna Reis. Outro fator, além do bullying, que Anna acredita ser forte é o preconceito da sociedade. “Em todos os aspectos as pessoas veem defeitos. Seja na roupa, sapato, enfim, seja qual for o estilo tem gente pegando no seu pé ou te olhando torto. O preconceito é doloroso e terrível. Só quem passa por isso sabe o quanto é duro”, comenta.
Além da anorexia, Anna sofreu com a bulimia, na qual forçava vômito em tudo que comia. Ela chegou a ser internada duas vezes com desidratação. Na época do vídeo, ela criou uma campanha na qual ajudou várias jovens de outros estados a se livrar da doença. A campanha contava com ajuda de outras jovens que passaram pelo mesmo problema e transmitiam seus depoimentos pela internet.
Anna se considera uma vencedora e alerta as jovens a não entrarem nessa onda. “Estou feliz e tranquila. Quando vejo as fotos daquela época, me questiono como achei que era gorda? Cheguei a pesar 46 quilos. Hoje estou com 54 e me acho normal”, afirma.
Para pessoas que sofrem com a doença, a jovem orienta a buscar ajuda. “Quando a pessoa está assim é muito difícil querer ajuda. Você não sente fome e quando sente não quer comer, porque aquilo, em sua consciência, vai te engordar. O apoio da família foi determinante para minha cura e recomendo a todos que tenham anorexia a procurar ajuda médica e não ter vergonha de se revelar”, recomenda.