
“Ser feliz é bom demais, principalmente ao lado de quem se ama”, diz Abiail Ferreira, juíza de paz que já uniu mais de cinco mil casais no Distrito Federal. Seja no cartório, no presídio, no São João do Cerrado, no Estádio Nacional Mané Garrincha ou em residências, ela tem um jeito diferente de celebrar o matrimônio: faz questão de palestrar e fazer daquele dia um dos mais importantes na vida das pessoas. Incentiva os votos de casamento, a troca de alianças e o beijo caloroso após assinar os documentos. “Nada de selinho”, recomenda, sorridente, a cada casal.
São mais de 80 casamentos por semana, apenas nos cartórios de Samambaia e Ceilândia. Somente neste ano, fez 200 celebrações coletivas no Estádio Nacional Mané Garrincha e no São João do Cerrado, lugares onde atua há oito anos. Pelos números, não é de se espantar que a chamem de juíza casamenteira.
Na pequena sala do cartório cabem pouco menos de 40 pessoas, mas antes mesmo de abrir, às 9h, os noivos, testemunhas e familiares se aglomeram em frente ao prédio do 6º Ofício de Registro Civil, Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas, em Samambaia. Elas aparecem com produção digna de um dia de casamento. Penteado, salto alto, maquiagem e arranjo no cabelo. Eles, de roupa social, cabelo e barba bem feitos. Os convidados não ficam atrás: todos arrumados para o grande dia.
Enquanto aguardam a entrada quase triunfal da juíza, balançam as pernas e mexem as mãos. Os seis casais da vez, sentados juntos, se entreolham e demonstram sinais de ansiedade. “Olá, eu sou Abiail Ferreira e estou aqui para torná-los um só”, afirma, ao entrar.
Nada de conto de fadas
O poder a ela investido está estampado na faixa com as cores do Brasil que carrega no ombro. O sorriso no rosto é outro “acessório” que não tira em nenhum momento. Mas antes de transformar os noivos em marido e mulher, há um discurso de quase uma hora. Com a própria experiência, ela avisa: a vida não é um conto de fadas.
União, diálogo e respeito. Estas palavras mais ditas são, para Abiail, as que trazem os conceitos mais importantes para um casamento. Mas se engana quem pensa que o discurso é seco, grosso ou rude. Vários sorrisos são arrancados da plateia durante a fala da juíza.
O fotógrafo Francisco Tavares, 60 anos, trabalha há 13 anos nas celebrações do cartório. “Nunca vi um juiz como a doutora Abiail. Ela conversa, aconselha, brinca e é sensível. E não tem medo de demorar um pouco mais. Os outros juízes são mais diretos. Falam muito pouco e vão direto ao ponto”, diz, revelando que muita gente já saiu daquela sala aos prantos de emoção.
Surpresa a noivos e convidados
Enquanto aguardam o momento de ouvir o famoso “em nome da lei, eu os declaro marido e mulher”, os noivos recebem, atentos, as recomendações da experiente juíza Abiail Ferreira. A espontaneidade costuma pegar os noivos de surpresa. “Eu não esperava um discurso como o que ela fez. Me senti até privilegiada e foi muito tocante”, revelou a recém-casada Kézia Alves de Lima, comerciária, 21, ao sair do cartório.
“Eu não esperava. Acreditava que ela falaria algo simbólico com apenas algumas palavras. Foi uma grata surpresa”, acrescentou o conferente Yuri Alves, 28.
A palestra da juíza não é direcionada apenas aos noivos, mas aos familiares, testemunhas e convidados. Há dicas de como encarar a nova fase e evitar conflitos. O casal Rayane de Souza e Claudiney aparecido, de 26 e 29 anos, dizem que vão levar para o resto da vida o que foi dito antes de trocarem alianças.