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Brasília

Em tom descontraído, Abiail Ferreira faz do casamento um dia inesquecível

Arquivo Geral

16/12/2014 7h20

“Ser feliz é bom demais, principalmente ao lado de quem se ama”, diz Abiail Ferreira, juíza de paz que já uniu mais de cinco mil casais no Distrito Federal. Seja no cartório, no presídio, no São João do Cerrado, no Estádio Nacional Mané Garrincha ou em residências, ela tem um jeito diferente de celebrar o matrimônio: faz questão de palestrar e fazer daquele dia um dos mais importantes na vida das pessoas. Incentiva os votos de casamento, a troca de alianças e o beijo caloroso após assinar os documentos. “Nada de selinho”, recomenda, sorridente, a cada casal. 

São mais de 80 casamentos por semana, apenas nos cartórios de Samambaia e Ceilândia. Somente neste ano, fez 200 celebrações coletivas no Estádio Nacional Mané Garrincha e no São João do Cerrado, lugares onde atua há oito anos. Pelos números, não é de se espantar que a chamem de juíza casamenteira. 

Na pequena sala do cartório cabem pouco menos de 40 pessoas, mas antes mesmo de abrir, às 9h, os noivos, testemunhas e familiares se aglomeram em frente ao prédio do 6º Ofício de Registro Civil, Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas, em Samambaia. Elas aparecem com produção digna de um dia de casamento. Penteado, salto alto, maquiagem e arranjo no cabelo. Eles, de roupa social, cabelo e barba bem feitos. Os convidados não ficam atrás: todos arrumados para o grande dia. 

Enquanto aguardam a entrada quase triunfal da juíza, balançam as pernas e mexem as mãos. Os seis casais da vez, sentados juntos, se entreolham e demonstram sinais de ansiedade. “Olá, eu sou Abiail Ferreira e estou aqui para torná-los um só”, afirma, ao entrar. 

Nada de conto de fadas

O poder a ela investido está estampado na faixa com as cores do Brasil que carrega no ombro. O sorriso no rosto é outro “acessório” que não tira em nenhum momento. Mas antes de transformar os noivos em marido e mulher, há um discurso de quase uma hora. Com a própria experiência, ela avisa: a vida não é um conto de fadas. 

União, diálogo e respeito. Estas palavras mais ditas são, para Abiail, as que trazem os conceitos mais importantes para um casamento. Mas se engana quem pensa que o discurso é seco, grosso ou rude. Vários sorrisos são arrancados da plateia durante a fala da juíza. 

O fotógrafo Francisco Tavares, 60 anos, trabalha há 13 anos nas celebrações do cartório. “Nunca vi um juiz como a doutora Abiail. Ela conversa, aconselha, brinca e é sensível. E não tem medo de demorar um pouco mais. Os outros juízes são mais diretos. Falam muito pouco e vão direto ao ponto”, diz, revelando que muita gente já saiu daquela sala aos prantos de emoção.

Surpresa a noivos e convidados

Enquanto aguardam o momento de ouvir o famoso “em nome da lei, eu os declaro marido e mulher”, os noivos recebem, atentos, as recomendações da experiente juíza Abiail Ferreira. A espontaneidade costuma pegar os noivos de surpresa. “Eu não esperava um discurso como o que ela fez. Me senti até privilegiada e foi muito tocante”, revelou a recém-casada Kézia Alves de Lima, comerciária, 21, ao sair do cartório. 

“Eu não esperava. Acreditava que ela falaria algo simbólico com apenas algumas palavras. Foi uma grata surpresa”, acrescentou o conferente Yuri Alves, 28. 

A palestra da juíza não é direcionada apenas aos noivos, mas aos familiares, testemunhas e convidados. Há dicas de como encarar a nova fase  e evitar conflitos. O casal Rayane de Souza e Claudiney aparecido, de 26 e 29 anos, dizem que vão levar para o resto da vida o que foi dito  antes de trocarem alianças. 

Discurso esclarecedor e encorajador 
 
Aos 16 anos, Nathália Barreto, grávida de seis meses, oficializou a união com o militar Magno Santos, 21. “A juíza foi bem precisa no que disse. Suas palavras foram esclarecedoras e tenho certeza que será importante para nós”, destacou o jovem. 
 
Quem teve a oportunidade de passar por uma nova experiência foi a mãe da noiva, Sílvia Rosália, de 36 anos: “Eu casei em um cartório em Goiás. Lá não teve discurso nem nada. Só chegamos, assinamos os papéis e colocamos as alianças. Até por eles serem muito jovens, achei ótimo ouvirem a juíza”, afirma.
 
Trajetória
 
A pernambucana Abiail Ferreira tem 66 anos e veio de Olinda para o DF aos 20 anos. É viúva,  mãe de um casal e avó de duas meninas. Guarda com carinho parte das lembranças que recebe durante as celebrações. Há 17 anos é juíza de paz. Em 1997, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios convocou uma série de novos juízes e ela estava na lista. 
“Tivemos instruções de como celebrar o casamento e como tratar os noivos, mas achei uma coisa muito fria. O casamento é um momento único da vida de uma pessoa e não importa em que lugar ela esteja casando, se é a primeira vez, se já tem filhos. É o dia deles. Não dá para ser grossa, rude e fria”, revela.  
 
Logo de início, a mandaram para Brazlândia, Samambaia e Ceilândia, lugares que, segundo ela, eram preteridos pelos demais profissionais. “Mas eu adorei. Achei uma bênção porque sabia que eles precisariam de mim e poderia passar aquilo que sei”, diz. 
 
Para ela, a população daqueles lugares precisava de uma instrução diferenciada do que é um casamento. “Minha intenção é levar uma mensagem positiva a eles, que, às vezes, não sabem nem por que estão casando”, garante. 
Sua atitude diferenciada faz com que casais peçam diretamente a ela que celebre os casamentos. Depois, recebe ligações e cumprimentos nas ruas. “Eu acho tão bonito quando passo na rua e um casal me aborda dizendo que casou comigo. Aí eu brinco: Não casei com ninguém, só uni os dois”, afirma.
 
Experiências inusitadas  nas lembranças
 
Nos quase 20 anos unindo as pessoas, Abiail Ferreira conta que já passou por situações inusitadas. Em uma delas, o pai da noiva não aceitava o casamento com um homem negro. “Tivemos que mandar prendê-lo até o fim do casamento”, lembra. Em outra ocasião, uma mãe queria bater em todo mundo e fazer confusão. “Aí eu mandei a levarem para o cárcere até acabar a cerimônia, depois a chamei de volta”, relata. 
 
O fato de a juíza ser negra, segundo ela, já fez muita gente evitar entrar no cartório. “Às vezes acontece. Normalmente, são os mais velhos. Entram, me estranham e preferem ficar de fora. Mas eu acabo os convencendo a acompanhar a celebração e muitos saem me pedindo desculpas”, conta. 
 
Ela diz que não esquenta a cabeça com o preconceito: “Ninguém  vai me ver branca. Eu sou assim mesmo e me sinto feliz. Quem tiver preconceito que tenha, eu estou passando”. O mais importante é fazer os outros felizes.
 
Amor
 
“Amo fazer casamentos. Tenho fascínio por isso. Vejo as pessoas emocionadas com a celebração e testemunhas que me dizem que renovei o casamento delas. Eu gosto. Faço com meu coração, meu espírito e minha alma porque ser feliz é bom demais. Fazer casamento é uma bênção”, assegura ela, que diz não ter data para se aposentar das celebrações.
 

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