Rafaella Panceri
redacao@grupojbr.com
A inflação, que significa perda do poder de compra, não é a mesma para todos. Famílias mais pobres, por exemplo, priorizam a alimentação. Famílias mais ricas dedicam frações maiores do orçamento a educação, saúde e lazer. Em novembro, as parcelas da população com renda mais baixa apresentaram as menores taxas de inflação, de acordo com o Indicador Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de inflação por faixa de renda.
O levantamento apurou que, entre as famílias mais pobres (com renda menor que R$ 900), a inflação teve alta de 0,07%. Entre as famílias mais ricas, cuja faixa salarial supera os R$ 9 mil, o crescimento foi de 0,34%. No ano, a tendência foi a mesma. A inflação entre os mais pobres foi menor – acumulou alta de 1,8%, contra 3,2% nas classes mais abastadas. O indicador é calculado com base nas variações de preços de bens e serviços pesquisados pelo Sistema Nacional de Índice de Preços ao Consumidor (SNIPC) do IBGE.
Entre extremos, a classe média ficou com alta de 0,29%. “Ficou na média”, atesta o diretor de macroeconomia do Ipea, José Ronaldo de Castro Souza Júnior. “A classe média perdeu mais poder de compra do que os mais pobres porque tem um gasto percentual menor com alimentos”, interpreta. Ele esclarece que os produtos responsáveis por empurrar a inflação para níveis mais baixos foram os alimentos, cuja deflação de 0,38%, registrada em novembro, contribuiu para reduzir em 0,16 ponto percentual a inflação para os mais pobres. Para classes mais favorecidas, essa ajuda foi menor – 0,05 ponto percentual.
A aposentada Matilde Cardoso dos Santos, 69, vai ao supermercado toda semana e sentiu que pode comprar mais com o mesmo orçamento. “No começo do ano, senti que as coisas estavam bem mais caras. Agora baixou um pouco, mas só compro quando tem promoção”. Ela gasta em média R$ 1 mil por mês para garantir a alimentação de 10 integrantes da família, incluindo filhos desempregados e netos.
Para integrantes de classes sociais de menor poder aquisitivo, a busca por promoções é uma constante, independentemente dos preços. Porém, eles percebem que os alimentos agora estão mais em conta.
Poder de compra sobre, se pesquisar
O desempregado Dilson da Silva Pereira, 48, sentiu aumento no poder de compra neste último trimestre. “No fim do ano, acho que as coisas ficam mais baratas, mas tem que pesquisar. O arroz, por exemplo, estava na faixa de R$ 15 e R$ 17. Agora sai por R$ 13”.
Integrante da classe média, a administradora Rose Fontenele, 44, moradora do Guará, percebe que os preços dos produtos alimentícios aumentaram no último mês. “Mas não muito. Ainda assim, o governo precisa fazer algo para melhorar essa situação, porque os nossos salários não acompanham a inflação”, desabafa. Na cesta de compras da administradora, frutas e verduras custam até R$ 500 por mês.
Para o diretor de macroeconomia do Ipea, José Ronaldo de Castro Souza Júnior, os dados de novembro indicam uma trajetória inflacionária mais favorável às classes mais pobres, ainda que a desaceleração ao longo dos meses tenha ocorrido de modo significativo em todas as faixas de renda. “No curto prazo, é um bom cenário. Esperamos terminar o próximo ano com a inflação abaixo da meta”, afirma.
Enquanto os alimentos puxaram a inflação dos mais pobres para baixo, o grupo habitação agiu em sentido contrário, conforme o indicador do Ipea. O reajustes nas tarifas de energia elétrica (4,2%) e do gás de botijão (1,6%), impactaram positivamente bem mais a inflação dos mais pobres (0,29 pontos percentuais) do que a dos mais ricos (0,11 pontos percentuais).