Lucas Lavoyer
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Apesar da sabedoria comum sobre os malefícios provenientes do universo das drogas, a oferta e o consumo de alucinógenos e estimulantes têm aumentado escandalosamente na vida noturna do Distrito Federal. Na maior parte dos eventos, promovidos tanto em áreas nobres, quanto periféricas, ecstasy – conhecido popularmente como bala –, lança-perfume, cocaína, maconha e/ou LSD, entre outras, têm presença certa.
Entre janeiro e novembro de 2012, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) apreendeu 4.410 comprimidos de ecstasy e 4.161 frascos de lança-perfume, principais ilícitos ofertados em baladas. Se comparados com 2010, quando houve repressão de apenas 51 pílulas e três tubos, os números representam aumento correspondente a 8.547% e 138.600%, respectivamente.
As drogas mais consumidas na vida noturna do DF provêm do exterior. De acordo com a Coordenação de Repressão às Drogas (Cord) da PCDF, o Paraguai, juntamente com países da Europa, é responsável por 90% do ecstasy presente nas baladas de Brasília. Uma pequena parte também é trazida de outros municípios ou capitais, como Goiânia (GO), São Paulo e Foz do Iguaçu (PR). Quanto ao lança-perfume, que permanece logo abaixo do comprimido estimulante na lista de ilícitos mais populares no DF, toda a importação vem dos vizinhos sul-americanos Argentina e, novamente, Paraguai.
Revendas lucrativas
Para suprir demandas, quadrilhas especializadas, ou traficantes isolados, importam pílulas por valores que somam até R$ 10 por unidade. As revendas superfaturadas mostram-se lucrativas: para adquiri-las em uma balada, o usuário precisa desembolsar R$ 30, em média. Mas as ofertas facilmente podem variar e extrapolar os R$ 50, a depender de local, fornecedor – também conhecido pelo termo americano dealer – e procura.
Segundo o delegado responsável pela Cord, Leonardo de Castro, os traficantes têm atuado mais na parte central de Brasília, principalmente por conta do custo elevado da mercadoria. “Esse tipo de droga costuma ser comercializada em áreas nobres, apesar de também haver em outras regiões. Normalmente, ocorre mais no Plano Piloto”, apontou.
O Jornal de Brasília compareceu a uma festa tradicional da Asa Sul, organizada semanalmente, para ver de perto como funciona o universo do tráfico de drogas na capital. Antes de entrar no recinto, o cheiro característico do consumo de maconha deu as boas vindas no ar, nas imediações do espaço e na própria fila para comprar ingressos.
A balada começou a encher apenas 2h depois do início, por volta das 0h30 de sexta-feira. Antes disso, o uso de drogas mostrou-se comedido. O embalo na pista de dança intensificou a ingestão de bebida alcoólica e procura por balas e maconha. Abordadas sobre onde poderia conseguir erva ou ecstasy, duas amigas responderam com modéstia. “É fácil. Não precisa nem comprar, é só pedir para qualquer um que esteja usando, todo mundo compartilha”, comentaram.
As amigas disseram a verdade. Outro usuário de maconha ofereceu um pouco e apontou quem poderia conseguir balas na festa. “Eu trouxe de casa (a maconha). Você quer? Pode puxar um trago. Não tenho ecstasy, mas sei quem tem”, disse.
O dealer mantinha uma atitude insuspeita, não adotava um canto obscuro e resguardado exclusivamente para o comércio negro. Encontrava-se exatamente no meio da pista de dança, vestido com roupas claras e camuflado entre o público e em meio a muitos conhecidos. Exceto pelas interrupções e abordagens que sofria constantemente, agia de maneira completamente normal para uma balada. “Quem quer bala? Você quer bala? Eu vendo, pô. Custa R$ 35 cada. Fico sempre aqui, no mesmo lugar. Se quiser, é só chegar aqui”, informou.
Nessa festa em particular, havia cerca de 350 pessoas. Para manter a ordem, haviam pelo menos dez seguranças no local, distribuídos por vários setores. A vista grossa com que observavam o consumo de maconha e ecstasy chamou a atenção. Os usuários tragavam seus cigarros de maconha ao lado de alguns funcionários de paletó, que não fizeram nenhuma abordagem enquanto o Jornal de Brasília esteve no espaço, entre 22h e 2h30. Sobre o assunto, o delegado da Cord confirmou o problema. “Na maior parte das festas investigadas, isso acontece”, revelou.
Paisanas vão às festas
A PCDF parte de denúncias para instaurar inquéritos e investigar supostos envolvidos. Agentes à paisana comparecem a inúmeros tipos de festa para recolher dados e repreender o tráfico de drogas. As penas para detidos por envolvimentos com fornecimento de drogas podem somar entre oito e 25 anos de regime fechado. No mês passado, a polícia apreendeu R$ 700 mil em lança-perfume e ecstasy, em um depósito localizado no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). Oito suspeitos foram presos.
Criminalidade
O consumo de alucinógenos sintéticos engloba dois problemas principais: criminalidade proveniente do tráfico e nocividade à saúde do usuário. Para financiar a importação e distribuição do ecstasy, lança-perfume e LSD, traficantes e envolvidos costumam praticar ações criminosas. Estimativas da Cord apontam que 80% dos crimes violentos têm relação com o tráfico.
O ecstasy é ingerido para providenciar uma sensação temporal de energia, disposição e euforia, além de causar mudanças em noção de espaço, como se o mundo ao redor do usuário girasse mais lentamente. Os riscos do consumo assustam. A depender de condições especiais, a também conhecida como pílula do amor, por conta dos efeitos que origina, pode matar.