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Brasília

É melhor prevenir para não ter de remediar

Arquivo Geral

29/11/2013 15h30

O HIV já não é mais um mistério para a ciência. Apesar de incurável, existe tratamento para controlar os sintomas da doença. Hoje, o mais difícil é combater o retrovírus, que avança de forma persistente na sociedade. Por isso, o Dia Mundial de Luta contra a Aids, 1º de dezembro,  lembra o muito a ser feito, o pouco a se comemorar e a necessidade de prevenção. Só no Distrito Federal são mais de 500 novos casos diagnosticados por ano, com 337 confirmações só em 2012.  Até setembro deste ano, a imunodeficiência provocou 59 óbitos. 

 

O perfil dos infectados, porém, vem mudando: 60% dos 245 casos diagnosticados até setembro de 2013 concentram-se em pessoas com faixa etária de 20 a 39 anos.  A população de baixa renda também já não  representa a maioria entre os soropositivos. De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde do DF, a maioria dos homens infectados tem ensino superior, seguido do ensino médio. “O que a gente percebeu ao longo dos anos foi o crescimento do número de casos em populações mais jovens, dos 15 aos 20 anos, entre homens”, alerta o gerente de doenças sexualmente transmissíveis da pasta, Sérgio Dávila. Já a maioria das mulheres infectadas possui apenas o ensino fundamental ou médio e 90% delas são heterossexuais. Entre o sexo masculino, contudo, bissexuais e homossexuais representam 63% dos diagnósticos.

 

Outros problemas

 

Apesar da facilidade em se obter diagnósticos rápidos e tratamento gratuito por meio do SUS, com a disponibilização de antirretrovirais e a  diminuição  da  transmissão  materno  infantil,  outras questões são identificadas quando o assunto é o combate ao HIV. Os efeitos adversos da terapia antirretroviral, o estímulo à adesão da terapia e a focalização de ações voltadas aos segmentos populacionais mais vulneráveis ao HIV/Aids ainda são pontos a serem desenvolvidos na região, que ocupa hoje o 25º lugar no ranking de incidência da doença,  com uma média  de  18  casos  por  cem mil habitantes. O número, porém, não anima o Ministério da Saúde, que ainda o considera alto. 

 

Prevenção

 

Para Dávila, o caminho para chegar ao combate efetivo da doença é mesmo a ampliação de ações de prevenção. “O ideal é juntar o discurso à prática. Como se faz isso? Ampliando a oferta de preservativo nas escolas, na rede pública de saúde. Trabalhar voltado às populações mais vulneráveis, como homens jovens que fazem sexo como homens, profissionais do sexo e usuários de drogas”, diz o gerente da Secretaria de Saúde.  

 

Teste rápido e seguro
 
 
O Brasil já fabrica 11 dos 20 medicamentos ARV usados no tratamento do HIV, o que facilitou o acesso dos portadores do vírus ao chamado coquetel. Dependendo da situação do infectado, os remédios devem ser tomados mais de uma vez por dia. A baixa defesa do corpo ainda facilita a entrada de outros tipos de doença nas células, como câncer e tuberculose, o que, por vezes, dificulta ainda mais a terapia. 
É consenso entre infectologistas que, quanto mais cedo for diagnosticado, mais eficaz é o tratamento. O teste para diagnosticar o HIV pode ser feito no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), único do DF, localizado no mezanino da Rodoviária do Plano Piloto. “A pessoa não precisa de um pedido médico. E o resultado sai em no máximo 1 hora, com garantia do anonimato. Em outubro, foram 750 testes feitos só na Rodoviária”, salienta Sérgio Dávila. 
 
 
Atendimentos
 
 
O local também oferece aconselhamento pré e pós-teste.  Quando os resultados são  positivos, o CTA encaminha para tratamento nos serviços de referência. Entre julho e agosto foram atendidos 977 usuários da rede, sendo 59% homens  e  41% mulheres.
 
 
Preconceito ainda existe
 
 
Além de alertar a população sobre a necessidade de prevenção,  o dia 1º de dezembro deveria também  reforçar a solidariedade, a tolerância e a compreensão com as pessoas infectadas pelo vírus HIV. Contudo, para boa parte deles, a ideia ainda fica só no papel. Exemplo disso é a comunidade criada para abrigar soropositivos no Recanto das Emas, em uma chácara distante e escondida entre árvores e estradas de terra: a Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale). No local, aproximadamente 200 pessoas dividem-se entre 38 casas coloridas de 20 e 40 metros quadrados, todas construídas por Antônio de Almeida, 44 anos, portador da doença. 
 
 
Outra barreira no combate à epidemia, de acordo com portadores da doença, é o apoio adequado e a assistência. De acordo com Carlos Augusto, morador da Fale, atualmente a instituição não possui um médico fixo que vá até o local para fazer exames de rotina. “Nós temos um apoio do SUS, que vez em quando vem aqui. O certo, eu sei, seria termos um infectologista. Nós tínhamos um médico que vinha, mas ele sofreu um acidente e não veio mais”, conta. 
 
 
Famílias
 
 
Muitos famílias moram no local. Entre elas, crianças de apenas um, dois anos, que vivem com a doença desde o primeiro dia de vida. A maioria é saudável e corre de um lado para o outro no espaço. Mesmo com os poucos recursos, são bem cuidadas e amadas. Parecem mesmo ter no sangue algo de diferente: já nasceram com o dom da compaixão. E mostram isso no olhar. No horário de almoço, sentam-se ao lado dos pais para comer no refeitório. A comida é preparada pelos próprios internos.
 
 
Não sou vista
 
 
Uma das moradoras da Fale, Silma Araújo, 38 anos, tem três filhos e os netos que vivem no local há quase 20 anos. A filha mais nova, Jussara, é portadora do vírus, como a mãe, que há 22 anos soube ter HIV. “O meu ex-marido era envolvido com drogas e ele que passou pra mim e pra minha filha”, conta. Se pudesse mudar o passado, diz Silma, “não teria nem casado com o ex-marido. Ou teria usado preservativo”. Hoje, a doença está começando a afetar as funções locomotoras de Jussara, o que ela conta com tristeza nos olhos. Contudo, para ela, a Aids não tem só o lado negativo. “Acredito ser uma doença que Deus colocou no mundo para que as pessoas olhassem mais para as outras”, aponta. Por isso, ressalta: “Não sou desrespeitada, mas também não sou vista, entende? A sociedade deveria se importar mais com os portadores, olhar mais para quem precisa de ajuda”, diz Silma.

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