Uma trajetória de um negócio de sucesso começa muitas vezes a partir de um sonho, ou apenas a vontade de fazer uma renda extra. Dentro de um universo de 328,3 mil empreendedores no Distrito Federal, 116 mil são mulheres, segundo dados recentes do Sebrae-DF. O número representa um crescimento expressivo ao longo dos últimos anos e reforça o avanço da participação feminina no empreendedorismo local.
Em comparação a 2012, houve um aumento de 51,6% de mulheres que se tornaram donas dos próprios negócios na capital federal. A participação feminina avançou 3,5 pontos percentuais no período. Apesar dos números revelarem um avanço na presença feminina no empreendedorismo, a ampliação da participação ainda ocorre de forma gradual.
De acordo com o Sebrae, as empreendedoras estão concentradas principalmente no setor de serviços, responsável por 72,6% das atividades lideradas por mulheres, o que inclui áreas como estética, alimentação, consultoria, educação, comércio especializado e serviços profissionais.
O perfil também demonstra a forte presença feminina na liderança familiar: 52,3% das mulheres donas de negócio são chefes de domicílio, indicando que o empreendedorismo muitas vezes está diretamente ligado à geração de renda e à manutenção financeira das famílias.
Dona da loja de acessórios online LaMade, Ana Paula Lima faz parte das mais de 100 mil mulheres que empreendem no Distrito Federal atualmente. Começou o negócio ainda jovem, quando tinha apenas 15 anos e guardava o dinheiro que ganhava com as vendas para comprar os lanches na escola. No início, a atividade era apenas um passatempo, e hoje se tornou sua principal fonte de renda.

“Na época eu estava muito deprimida, muito mal, estava passando por algumas coisas. E um dos processos terapêuticos era que eu tivesse um hobby ou algo para me distrair. Eu gostava muito de artesanato, de fazer acessórios, esse tipo de coisa e eu voltei a fazer.
Nisso, comecei a vender na minha escola na época, para conseguir pagar meus lanches”, relembra.

Quem ajudou a investir na loja foi a mãe. Pegou R$ 200 para comprar materiais e sempre separava uma quantia das vendas para repor material. A meta, na época, era usar R$ 300 para a compra de novos itens para confeccionar os acessórios. Aos poucos, percebeu que a atividade deixou de ser apenas uma renda extra e se tornou a principal fonte de sustento.

“Percebi que deixou de ser renda extra justamente quando comecei a notar que faltava dinheiro no caixa para comprar material porque eu estava usando para uso pessoal. Quando comecei a ver o crescimento disso, as pessoas reconhecendo a marca, comecei a ser chamada de empreendedora. E aí fui entender do que é que se tratava, e vi que podia se tornar uma fonte de renda. Aí comecei a estudar. Lembro que na época eu ainda usava o Facebook e tinha comunidades e cursos para mulheres empreendedoras. E eu vi que aquilo ali podia se tornar algo maior”, conta.

História semelhante é a de Raquel Furquim, dona do Spa que leva seu nome. Quando pensou em abrir o espaço, já atuava como fisioterapeuta e instrutora de pilates em clínicas de terceiros. A vontade era abrir seu próprio estabelecimento para levar bem-estar aos clientes e formar novos profissionais na área da massoterapia, onde também havia feito carreira.
Para começar a atender, investiu em um colchonete e ia até a casa dos pacientes. Sempre que dava, comprava materiais para melhorar a experiência: um equipamento de som para tocar música enquanto atendia e uma luminária. Depois, o negócio se expandiu até que conseguiu obter seu próprio espaço com a ajuda financeira de clientes que acreditaram no trabalho oferecido.
“Quando já estava com dois anos com meu espaço aberto, vi que precisava de outras pessoas atendendo comigo. Mas precisava que essas pessoas tivessem uma qualidade para que os clientes quisessem ser atendidos, porque já estavam muito acostumados com a minha forma. Então comecei a capacitar os profissionais. Vi que precisava focar nessa área e largar outras atividades que me distraíam. Precisei ficar só ali para que outras pessoas tivessem a oportunidade de crescer e o espaço pudesse ser mais utilizado”, detalha.
Desafios
A maior dificuldade encontrada no universo do empreendedorismo, para Ana, é administrar as finanças. “Quando você empreende com algo onde precisa comprar material e ainda por cima tem que administrar o lucro, é uma dificuldade muito grande para entender o que é seu e o que é da empresa. É preciso fazer essa separação porque é nessa que muitas vezes você se embola”, argumenta.
Além disso, existe a tão desgastante jornada dupla, e em alguns casos até tripla. É preciso conciliar o trabalho e as outras áreas da vida como a família, os afazeres domésticos e a vida social. Durante um período, Ana precisou se dividir entre a faculdade de jornalismo e a loja. Hoje, não há uma rotina consolidada e acaba trabalhando durante o dia inteiro.
“Entrei na faculdade, me formei, e com isso vieram outras responsabilidades, outro trabalho. O pouco tempo que tenho, vou fazer as peças. Às vezes vou numa consulta e assim que chego, vou produzir. É difícil estabelecer uma rotina quando você tem tantas outras responsabilidades e ainda tem que produzir aquilo que você comercializa. Não estabeleci uma rotina fixa, a minha produção é full time. O tempo que tenho, vou produzindo e às vezes viro a madrugada, às vezes é 12 horas de trabalho, e vou seguindo assim”, desabafa.
A situação financeira também foi um obstáculo que Raquel precisou enfrentar. “Tive uma ajuda muito grande dessas pessoas que acreditavam no meu trabalho, que já me conheciam há muitos anos e que me ajudaram. Eu sei que isso é raro, a gente não pode contar com isso, mas foi uma grande sorte que tive, já que não tinha outras condições.
A dificuldade era essa e trabalhar muito. Trabalhar muito para pagar essas pessoas. Não tinha hora: era começar cedo, terminar tarde, trabalhar em fim de semana”, relembra.
Expectativas
Apesar de terem seus próprios negócios consolidados, ainda há um caminho que as empreendedoras pretendem trilhar para expandir os estabelecimentos. Ana e Raquel buscam ampliar os conhecimentos em suas áreas cada vez mais.
Diferentemente de Raquel, Ana toca a loja sozinha e as expectativas para os próximos anos é a contratação de colaboradores para auxiliar nas demandas. “Ainda faço tudo sozinha. Tenho amigos, parceiros e voluntários que me ajudam, mas em suma maioria sou eu que cuido de tudo e isso é um gargalo. Entendo a necessidade de ter uma equipe para trabalhar comigo. Esse é um dos grandes objetivos da LaMade, ter uma equipe. Para eu conseguir distribuir essas funções e ter mais tempo de qualidade para profissionalizar ainda mais a marca”, explica.
Por outro lado, Raquel busca ampliar as oportunidades de atendimento e até abrir uma nova unidade maior e com uma cartela de serviços mais diversificada. “Depois da pandemia sinto que a gente começou de novo. É como se eu tivesse que refazer grande parte do trabalho que fiz de solidificar. É preciso ampliar também o conhecimento dos clientes sobre como a massoterapia pode ajudar em problemas de saúde, por exemplo”, diz.
Apoio ao empreendedorismo feminino
Para ampliar as iniciativas voltadas ao fortalecimento dos negócios liderados por mulheres, o Sebrae-DF disponibiliza programas de capacitação, consultorias e apoio à gestão empresarial. Entre as iniciativas está o Movimente, evento que ocorre anualmente e reúne participantes em debates e painéis sobre empreendedorismo feminino, políticas públicas, liderança e oportunidades de crescimento para mulheres à frente de negócios.
A diretora Administrativa e Financeira do Sebrae no DF, Adélia Bonfim, destaca que o empreendedorismo tem sido um importante caminho de autonomia para muitas mulheres. “Cada vez mais mulheres estão empreendendo e transformando suas realidades por meio dos próprios negócios. Para que esse movimento continue crescendo, é fundamental ampliar o acesso à orientação, ao planejamento financeiro e ao crédito, fortalecendo essas empreendedoras e seus negócios”, afirma.
Segundo a diretora técnica do Sebrae no DF, Diná Ferraz, ampliar o acesso à qualificação é um dos caminhos para consolidar o avanço no fortalecimento do empreendedorismo feminino. “Quando ampliamos o acesso à informação, à capacitação e às ferramentas de gestão, criamos condições para que essas empreendedoras fortaleçam seus negócios e se posicionem de forma mais competitiva no mercado”, afirma.