Jurana Lopes
jurana.lopes@jornaldebrasilia.com.br
Brigas entre alunos são algo que sempre existiu, desde os primórdios da educação. Entretanto, a violência entre colegas de classe está cada vez mais frequente e preocupa pais, professores e até mesmo a polícia. Algo que tem chamado a atenção é o fato de que os embates, na maioria das vezes corporais, têm ocorrido com maior frequência entre as meninas, seja dentro ou nas imediações dos colégios.
O sexo feminino, considerado mais calmo e tranquilo, dentro de sala de aula está cada dia mais violento e enfurecido. As brigas, quase sempre filmadas por colegas, mostram meninas se agredindo com extrema violência, trocando socos, tapas e puxões de cabelo, dentro ou na porta de escolas.
Somente na última semana, ocorreram, pelo menos, cinco brigas envolvendo alunos, em grande parte garotas. Os motivos de tanta intolerância e fúria entre as meninas, geralmente, envolvem namoros no ambiente escolar e disputa de poder.
Números
De acordo com dados do Batalhão Escolar da Polícia Militar (BPEsc), somente este ano, foram registradas 67 ocorrências envolvendo alunos. Em 2014, o total foi de 63 registros. Houve um aumento de 6,3% no quantitativo de brigas entre estudantes.
Além disso, a maioria das ocorrências atendidas pelo Batalhão Escolar acontece em escolas de Ensino Fundamental. As cidades que possuem maior número de brigas entre alunos são Guará, Taguatinga, Gama, Plano Piloto, Sobradinho e Ceilândia.
Motivos
Segundo o tenente- coronel Júlio Cesar de Oliveira, comandante do Batalhão Escolar (BPEsc), os principais motivos dos atritos entre alunos são disputa de poder, discussões, bullying, desavenças e redes sociais.
O comandante do BPEsc informou também que, das brigas registradas, a maioria é entre meninos. Mas houve aumento de garotas envolvidas em brigas, comparando com o mesmo período do ano passado. O tenente-coronel Júlio Cesar explicou que o Batalhão Escolar atua de forma preventiva para evitar conflitos entre estudantes.
Ponto de vista
Na opinião da psicóloga Mariana Juras, especialista em terapia familiar, as brigas envolvendo meninas pode estar relacionada a uma questão cultural que a sociedade vive atualmente. “Vivemos em uma época de questionamento e mudança de valores, especialmente nas relações entre homens e mulheres, crianças e adultos. Acredito que a nossa cultura tem se aberto mais para a discussão dos papéis masculinos e femininos e questionando as posições de poder, que são dadas mais aos homens”, analisou. Segundo ela, as mulheres estão lutando e buscando por maior reconhecimento.
A especialista acredita que a educação de cada indivíduo varia conforme a maneira que ele foi criado em casa. “Toda família tem uma forma de educar e varia de acordo com fatores sociais, culturais, familiares e individuais. A lógica da educação pautada no autoritarismo, na repressão e na força precisa ser repensada e transformada em uma educação mais participativa, democrática e baseada no respeito às diferenças. Isso não significa que os adultos (pais ou professores) devam perder seu papel de autoridade”, explicou a psicóloga Mariana Juras.
Segundo Mariana, o que existe na educação familiar muitas vezes é uma incoerência entre o que é esperado das crianças e o modelo que os adultos exercem e passam. “Pautar a educação no uso da força resultará, provavelmente, em atos de violência por parte das crianças e dos adolescentes. Ainda mais neste momento social, em que há maior espaço para que eles se expressem mais abertamente”, avaliou a especialista.
Namoradas de traficantes
Segundo o vice-diretor do CEM 3 de Ceilândia, Rogério Neil, as brigas são motivadas, principalmente, por namorados e disputa de poder. “As garotas que namoram com os traficantes da região se sentem mais poderosas. Quando são trocadas por outras, acham que podem brigar. Hoje, as meninas estão tocando o terror”, lamenta.
Neil complementa que, por causa da violência entre as gangues, bons alunos estão pedindo transferência. “Muitas vezes, esses alunos são ameaçados só porque são sérios e estão na escola para aprender”, lamentou. Segundo ele, a escola possui 3,5 mil alunos, sendo 84 deles em ressocialização.
“Lugar de estudar”
Estudante do CEM 3 de Ceilândia, L., 17 anos, conta que já presenciou várias brigas na porta da escola envolvendo, principalmente, meninas. “Estudo aqui há dois anos e sempre tem alguma briga. As garotas brigam por bobagem, até por fones de ouvido. Eu acho errado brigar, porque escola é lugar de estudar e aprender”, avaliou. A aluna conta que só não pediu transferência para outra escola porque prefere estudar perto de casa.
De acordo com o coordenador da Regional de Ceilândia, Marcos Antônio de Sousa, a Secretaria de Educação (SEDF) começaria a aplicar um questionário em todas as escolas de Ceilândia para avaliar quais são os principais problemas apontados na comunidade escolar.
“Esse é um projeto-piloto que será iniciado em Ceilândia e, depois, levado para todas as regionais de ensino do Distrito Federal. O objetivo é identificar os problemas e implantar soluções”, explicou. Segundo Marcos Antônio, o projeto será realizado em parceria com a SEDF, Secretaria de Segurança Pública e Paz Social e Batalhão Escolar da Polícia Militar.
Fofocas e ameaças
Ameaçadas por colegas, as estudantes B., V. e J., todas de 16 anos, estudantes do Centro Educacional 4 de Taguatinga, contaram que uma intriga começou porque surgiu uma fofoca de que elas estariam chamando as outras garotas de gordas. “Aí vieram tirar satisfação e nos ameaçaram de morte. Tentaram bater na gente e fomos parar na direção”, contou uma das estudantes.
Se separar, tem pedrada
O tenente-coronel Júlio Cesar de Oliveira, comandante do Batalhão Escolar (BPEsc), afirma que a corporação realiza palestras educativas com diversos temas, visando fortalecer a cultura de paz no ambiente escolar. “Além disso, o batalhão tem realizado operações preventivas, como operações de visibilidade e visitas preventivas”, afirmou.
Segundo Oliveira, até o presente momento, foram realizadas mais de 21 mil visitas em todas as escolas do Distrito Federal. O comandante do BPEsc destacou também a intensificação do patrulhamento no perímetro escolar por meio do policiamento motorizado (viaturas e motos).
No Centro de Ensino Médio 3 de Ceilândia, o número de brigas entre estudantes é alto. De acordo com a direção da escola, o maior problema ocorre por conta do tráfico de drogas no perímetro escolar e das rixas entre gangues formadas pelos próprios alunos.
“Infelizmente, há muitas brigas entre os alunos. E, ultimamente, a maioria é entre gangues formadas por meninas. Os atritos são tão violentos que, na semana passada, os policiais que tentaram separar duas delas acabaram levando pedradas”, relatou Rogério Neil, vice-diretor do CEM 3 de Ceilândia. Ele diz que sofre ameaças constantes por causa de sua atuação no combate ao tráfico na área escolar.
Câmeras
A situação é tão grave que a direção do colégio decidiu instalar câmeras de monitoramento para tentar identificar os alunos mais problemáticos da escola.
“Os alunos não respeitam o ambiente escolar, e o que tem assustado é a violência entre as meninas. Na última briga entre nossas alunas, uma garota foi agredida com um porrete e teve que ir para o hospital”, contou Neil. Ele acrescenta que o Batalhão Escolar sempre dá apoio, mas nem sempre resolve.
“Precisamos manter policiais dentro e nos arredores da escola em todos os horários de funcionamento. Só com a presença constante da polícia podemos resolver a situação”, afirmou o vice-diretor.
“Me chamou de folgada”
R., de 14 anos, estuda no Centro Educacional 4 de Taguatinga e contou que já se envolveu em uma briga porque uma colega de classe a destratou.
“A guria me chamou de folgada e, então, acabamos brigando. Depois, fomos para a direção e chamaram nossos pais. Eu não assinei advertência porque quem começou a confusão foi ela. Em casa, meus pais conversaram comigo e pediram para eu ser mais tolerante”, relatou.
A colega de classe de R., M., de 16 anos, conta que já chegou a discutir em sala de aula, mas nunca chegou ao ponto de agredir alguém. “Eu evito me envolver em confusão. Meus pais sempre me aconselham”, disse a estudante.
Segundo as estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental, as brigas entre as garotas acontecem sempre por causa de namorados ou bobagens. Já as de meninos ocorrem, na maioria das vezes, porque um encarou o outro ou por causa de drogas.
Medo
De acordo com as estudantes B. V. e J., todas de 16 anos, estudantes do CED 4 de Taguatinga, quando se envolveram em confusão, os pais foram chamados à direção. Elas sentem medo de sofrer agressões por outras meninas.
“Aqui, a gente não pode nem olhar para ninguém que já é motivo de briga. Rola porrada até porque uma fala da sandália da outra ou porque alguém diz que fulana é mais bonita”, relatou uma das alunas da unidade de ensino de Taguatinga.