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Brasília

Dia dos Pais: os chefes dos novos núcleos familiares

Arquivo Geral

10/08/2014 9h10

A família brasileira não é a mesma. Aquela de comerciais de margarina se desprendeu de estereótipos históricos e passou a criar novos núcleos familiares. É comum encontrar árvores genealógicas difíceis de entender, mas o coração sabe explicar cada galho. Filhos de sangue ou de coração formam quase o roteiro do filme “Os meus, os seus e os nossos”, estrelado pelo paizão Dennis Quaid. No longa de 2005, são 18 filhos na mesma casa. Com as devidas proporções, famílias brasilienses têm seu próprio protagonista nessa história. São pais que hoje comemoram seu dia com variados laços emocionais e muito carinho.

Aos 49 anos, Carlos Geraldo tem cinco filhos, de três casamentos. São quatro rapazes e uma garota, com diferença de 28 anos entre o mais velho e o caçula, de pouco mais de um ano. Eles costumam se encontrar em comemorações feitas em casa, passeios e viagens. “São todos meus meninos, independentemente da idade, e paparico muito eles. É bom demais ter todos por perto”, garante. O pai se orgulha do fato de que, mesmo sendo filhos de casamentos diferentes, todos são apegados. “Recentemente fizemos uma viagem com quase todos. Um, infelizmente, não conseguiu férias. Mas foi o máximo! Sempre nos divertimos juntos.”

Três filhos moram com Carlos e a atual esposa. Débora, a única menina, vive com a mãe e apenas um é casado. Leonardo, 28, deixou a casa do pai há pouco mais de um ano. “No mesmo mês, nasceu o caçula Davi”, conta Carlos. A criança é resultado de anos de tratamento para gravidez. Após o segundo casamento, o pai fez vasectomia, revertida para tentar realizar o sonho da terceira esposa: ter um filho. Para complicar, Michelle tinha dificuldades para engravidar. 

Nesse ínterim, o casal descobriu que uma conhecida, grávida por acidente, não ficaria com a criança. Após muita conversa, decidiram adotar o bebê, que hoje tem 8 anos, e é paparicado pelos irmãos e, claro, pelos pais. Da mesma forma, Davi é só cuidados com o bebê recém-chegado à casa.

 Modelo de família moderna

De acordo com o censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16,3% das famílias são resultado de recasamentos. Em 2012, último ano de registro, foi identificado que 531 casais com filhos se divorciaram no Distrito Federal. Isso representa 2,58% das separações no Brasil naquele ano. No entanto, 825 casais em que ambos eram divorciados com filhos, recasaram, formando novos núcleos familiares.

“Tendência de mudança”

O psicólogo Flávio Lobo Guimarães explica que durante muito tempo o modelo “tradicional” de família foi normatizado como “correto”, promovendo a segregação das famílias reconstruídas. “Hoje, existe uma tendência de mudança. Para as crianças, o comum é ter pais divorciados, causando até estranheza quando um amigo tem os pais morando na mesma casa, em algumas ocasiões”, relata, enfatizando que o certo e o errado são condições socialmente construídas e mutáveis. E exemplos não faltam.

Oito filhos após cinco mulheres

No quinto relacionamento, o funcionário público aposentado José Calazans Souza, 58, tem oito filhos. Desde cedo, fez com que todos convivessem juntos. Já era rotina: quando um nascia, ia de casa em casa conhecer os irmãos. “Procurei fazer com que se tornassem amigos”, conta. E diz ter conseguido.

Dos filhos, um é de coração. Quando começou a última relação, a esposa era recém-viúva com um filho pequeno. José explica que assumiu com carinho a criança: “Foi amor à primeira vista. Ele já se identificou comigo e eu com ele e, desde o início, tratei como meu filho. As pessoas demoram a saber que não sou o pai biológico dele”.

Luiz, hoje com 27 anos, teve, desde sempre, a referência de pai vinda do aposentado. E o paizão se orgulha: “Sou feliz por todos os meus filhos, do que se tornaram e do que ainda virá pela frente”. Flávio, Felipe, Fernando, Adriana, Aline, Amanda e Anna Clara completam o time. A última, mais nova, tem 18 anos, e é a única a dividir a casa com o pai. “Os outros já criaram asas”.

“Sempre me preocupei em ser presente na vida de todos os filhos e fazê-los amigos, até como referência de meu próprio pai. Sou amigo, confidente e pai”, diz o aposentado. Nos dias dos pais, o encontro é dividido, mas um desejo antigo de José é reunir todos os filhos. “Não é fácil conciliar os horários porque cada um tem sua vida, seus afazeres, mas ainda vou conseguir.” Os netos preenchem uma palma da mão e o avô-coruja se derrete. “Se com os filhos fui próximo, com os netos sou mais carinhoso ainda”, declara.

Fruto de “escorregada”

São três filhas: duas de um casamento que já dura 28 anos e outra de uma “escorregada”. Assim é a família do funcionário público Humberto Luis Alves, 48, que olha, com orgulho, elas convivendo em harmonia. Do relacionamento extraconjugal, Laara Martins, 15, nasceu. “No começo, tive muitos problemas. Minha esposa queria ir embora, passei por muitas dificuldades. Hoje, graças a Deus, estamos bem”, conta o pai.

Laara revela que, quando era menor, a relação com as irmãs Jackeline, 25, e Jannaína, 23, era turbulenta. Há apenas dois anos, a convivência passou a melhorar: “Fomos nos aceitando, nos engolindo, e hoje somos melhores amigas, irmãs de verdade”.

Jogo de cintura para manter a harmonia

 Para o psicólogo Flávio Lobo Guimarães, é natural haver sentimentos de rivalidade e ciúme em família, mas devem ser acompanhados pelos pais. O coletivo é importante, mas o particular, ter contato único com cada filho, também deve ser explorado. Thiago Blanco, psiquiatra da criança e do adolescente, concorda. “É preciso ter regras, manejo familiar e expressão de afeto e, ainda mais importante, harmonia”, enumera. O encontro entre os filhos é recomendado, mas a individualidade deve ser explorada.

Blanco e Guimarães entendem que o maior prejuízo que pode haver é o conflito entre os pais. Quanto mais harmonizado é o convívio entre os irmãos e as famílias, mais simples será o entendimento da realidade que vivem. O mesmo ocorre com a naturalidade encarada por todos. “De maneira geral, a função parental é simples: muito amor e limites. No contexto familiar, não existem regras, mas o que não pode é haver sofrimento”, explica. Assim, é importante elogiar, fazer carinho, ter contato físico e fazer parte do cotidiano dos filhos, mas também é necessário impor limites.

 

Um fator que contribui para essa realidade é o reconhecimento judicial da paternidade socioafetiva, que, por vezes, de acordo com a especialista, é até mais importante que a biológica. É importante, entretanto, que essa relação afetiva seja construída ao longo do tempo e não imposta.

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