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Brasília

Dia do Professor: profissão atrai poucos jovens

Arquivo Geral

15/10/2014 7h40

Ser professora de biologia não era o objetivo de Harumy Sakata,   23 anos, quando fez o vestibular para o curso de Ciências Biológicas. “Foi por falta de opção”, revela. Hoje, com apreço pela profissão, destaca o caráter social dos docentes, mas observa que o número de profissionais na área de Exatas diminui com o passar do tempo. E ela está certa. Neste Dia do Professor, especialistas  apontam evidência da redução da procura por cursos de licenciatura, que pode se agravar em um futuro não tão distante. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) confirmam a sensação. 

De 2011 a 2012, o número de concluintes dos cursos que formam professores diminuiu 9,2%. Nos cursos de Ciências Exatas – Ciências, Física, Química, Matemática  –, além de Biologia, a redução foi de 12%. Das 5.448 das pessoas que se formaram para lecionar em 2012, último ano computado, apenas 623 eram dessas áreas. Isso significa que há cada vez menos professores habilitados para   aulas específicas. 

Reflexo

Quem mais sofre são os alunos do Ensino Médio e dos anos finais do Ensino Fundamental, que  dependem mais de profissionais de áreas específicas. “Se não tivermos professores dessas áreas, que são prioritárias, há o risco de prejudicar o ensino”, diz, categoricamente, a especialista em educação Benigna Villas Boas. No DF, o grande número de turmas que ficam sem professores todos os anos “é um indício  de que, aqui, essa falta de docentes qualificados já existe”, entende. 

“Há vários estudos que mostram redução na formação de professores. O grande gargalo está nas formações específicas,  como Física, Matemática e Biologia”, revela Selma Maquiné Barbosa, especialista e professora do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb).  

Isso pode ser visto nas turmas de licenciatura. “Se juntarmos os alunos de Exatas em uma única sala, não dá um terço do que há em um curso como administração”, conta Afonso Galvão, doutor em psicologia educacional e ex-reitor da Universidade Católica. A redução é vista não só na admissão, mas também nas formaturas. 

Especialistas explicam que essa redução pode ser provocada por três fatores: desvalorização da profissão,  o “baixo status social” vinculado aos professores e a dificuldade elevada dos cursos, associada a uma má formação básica.

Profissão como um “plano B”
 
A professora Harumy Sakata afirma que foi parar  na sala de aula por acaso, após perceber que as oportunidades para ser pesquisadora na área de Ciências Biológicas eram complicadas. Em paralelo às disciplinas do bacharelado, se matriculava nas turmas que formavam docentes.  “Os concursos públicos da área de educação   têm muitas vagas. Fiz sem estudar e passei”, conta. 
 
Apesar do claro descontentamento, ela pretende continuar como professora, “mas como segunda opção”, alerta. “É uma coisa que gosto, tem um caráter social muito grande e eu sei o quanto é importante ter um profissional de qualidade e que seja um exemplo dentro de sala de aula. Acho que posso contribuir bastante com a educação, mas também quero ter um emprego que me mantenha financeiramente”, analisa. 
 
Afonso Galvão, doutor em psicologia educacional, avalia o atual cenário da profissão: “O problema subjacente mais forte é que o Brasil, apesar dos esforços, não tem conseguido fazer uma política de desenvolvimento profissional capaz de atrair pessoas para a profissão de professor. Isso faz parte de uma ausência de determinação de políticas públicas”.
 
Mudança de planos na faculdade
 
Hiago Faria, 22 anos, é licenciado em Matemática. Entrou na universidade aos 16 anos e aos 20 anos já tinha o diploma. “Meu objetivo sempre foi ser professor, mas hoje não é minha prioridade. Quero passar em um concurso público para outra área”, confessa. Para ele, as pessoas muito inteligentes, que poderiam fazer a diferença, não têm o objetivo de lecionar justamente pela desvalorização da profissão. 
 
As salas de aula, então, podem ser ocupadas por profissionais sem formação adequada para áreas específicas. É o que afirma Selma Maquiné Barbosa, que, além de mestre em Educação, é coordenadora do curso de Pedagogia do Iesb.
“Estudos mostram que 70% dos professores que atuam nessas áreas não têm formação adequada. São pedagogos dando aula de biologia, por exemplo”, afirma. 
 
É o caso de Téculo Ramos, 45 anos. Pedagogo, lecionou Matemática durante anos. “Na escola onde trabalho precisavam de um professor da disciplina, mas havia dificuldade de encontrar. Eu tinha afinidade e um pouco de conhecimento”, lembra. Hoje, ele muda a perspectiva. Está prestes a concluir a licenciatura em Matemática para se qualificar.
 
“O curso não é simples. Quem pensa que vai ver o que temos que dar em sala de aula está errado”, conta Téculo. “Por isso, muitos dos que entraram comigo já desistiram”, emenda. Mesmo assim,  ele revela que há quem pense em um futuro de déficit de profissionais. “Tem quem entre pela falta de demanda. No futuro, como serão menos os profissionais qualificados, poderemos ser melhores vistos pela sociedade e governo”, afirmou. 
 
Perspectivas desanimam adolescentes
 
Alunos do primeiro ano de uma escola pública, João Melo e Júlia Moreschi, de 16 e 15 anos, descartam a possibilidade de seguir carreira como professores.   “Não é algo que quero pra mim. A profissão é desvalorizada demais. Minha mãe é professora, sei bem como é, mas se eu não tivesse desistido dessa ideia, ela me serviria de exemplo”,  explica Júlia.  
 
A desvalorização e média salarial baixa são pontos  apontados pelos jovens. João, por exemplo, pondera que a escolha por Engenharia seria mais viável. 
 
Já Luan Nunes também cursa o primeiro ano e tem em mente a área de Exatas. A opção é justamente  Engenharia, mas não descarta ser professor. “Daria aula de matemática”, aponta.
 
 Não é por falta de influência. O pai e a mãe são professores de História e Matemática. “Gosto da área. Quem sabe eu também siga a profissão”, planeja. 
 
Aluno do colégio Sigma, Lucas Felipe,   17, coloca apenas a timidez como empecilho para ser professor. “Por mais que a profissão seja desvalorizada, quem faz é porque gosta. Acho que dependendo do caso é possível ganhar bem”, diz.
 
 
Poucos chegam ao final
 
Na Universidade de Brasília, nos últimos três semestres, 95 pessoas entraram para o curso de Matemática e apenas 30 se formaram. Hiago Faria faz as contas: “Entraram 40 alunos na minha turma. Quatro anos depois, cinco se formaram. Destes, apenas dois eram licenciados”. A desistência é atribuída não apenas ao nível de dificuldade das disciplinas, mas também à realidade da docência. 
 
“Há um choque de realidade. Não aprendemos a ser professores. Nada do que estudei na universidade posso aplicar na sala de aula. O que diferencia a licenciatura de Matemática na UnB das demais áreas de exatas são as disciplinas de matemática aplicada, e é o tipo de conteúdo que não dá para passar para alunos de nível médio”, diz. Até por isso, seus planos mudaram. “Quando entrei, queria realmente ser professor, queria dar aula. Hoje  não é minha prioridade”.
 
A  professora Harumy Sakata também destaca problemas na formação. Apesar de ser habilitada a lecionar, sua formação foi de pesquisadora. “Acho que esse é um grande problema na formação de professores. Qualquer curso a distância, por exemplo, oferece licenciatura e forma docentes. Por que não se faz isso com médico e engenheiro?”, questiona. 
 
A dificuldade  da graduação também pode ser um fator que interfira no número de formandos. “São cursos com nível de dificuldade   elevado e que são caros e, por isso, muitas faculdades sequer oferecem a licenciatura”, revela o ex-reitor da Universidade Católica, Afonso Galvão.
 
Saiba mais
 
No Distrito Federal existem 60 instituições de ensino superior: duas universidades, cinco centros universitários, 52 faculdades e um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. 
 
Ao todo, há 27 cursos que formam professores em biologia, física, matemática e química. 
Em 2012, das 2.532 cadeiras oferecidas nesses cursos, 1.412 foram ocupadas. Isso significa que apenas 55% das vagas foram preenchidas.
 
Para ser professor dos ensinos Fundamental e Médio, é preciso cursar alguma licenciatura. Já os cursos de bacharelado preparam o aluno para atuar de forma mais ampla no mercado.
 
 

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