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Brasília

Dia da Consciência Negra: o orgulho no lugar do preconceito

Arquivo Geral

20/11/2017 6h00

Arine ensina balé: “A menina negra na dança não tem tanta visibilidade”. Foto: John Stan

João Paulo Mariano
redacao@grupojbr.com.br

O homenageado do dia, Zumbi dos Palmares, morreu há mais de 320 anos, mas sua identidade e sua luta ainda correm nas veias da maior parte da população do País. Mais da metade dos moradores do DF se declara preta ou parda – 57,92%, de acordo com a última Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad). Neste Dia da Consciência Negra, a história de mãe e filha nascidas aqui exemplifica bem o que a data representa.

A enfermeira e especialista em saúde Maura Lúcia, 55, se emociona ao ver a filha, Arine Alby Sousa, 23, falando sobre o orgulho que tem de ser o que é: negra, independente, arte educadora e formada por uma instituição pública federal.

“Esperei a vida toda para ver minha filha falar com essa propriedade sobre o que ela é. Isso é motivo de muito orgulho. É toda a história de uma raça, uma ancestralidade, que foi sofrida demais”, afirma.

A mulher não é a primeira “lutadora” da família. Sua mãe, lavadeira analfabeta, mãe de seis filhos e abandonada pelo marido, a ensinou desde muito pequena a importância da educação, do trabalho e de amar aquilo que você é.

Saiba mais

  • No DF, a população negra prevalece nas regiões de menor poder aquisitivo, como o Varjão (64,73%), algo contrário do que ocorre na de maior renda, onde 69,53% das pessoas se declaram brancas.
  • Além disso, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo IBGE, mostra que dos 13 milhões de desempregados no terceiro trimestre de 2017, 8,3 milhões, o equivalente a 63,7% do total, eram pretos ou pardos.

Mau exemplo na escola

Na juventude, apesar das boas lembranças, existem aquelas que afligem por um motivo covarde: o racismo. “Na aula de religião, a professora da Arine falou que branco era do bem e preto era do mal. Os alunos, por verem que minha filha era preta, falaram que ela era do capeta”, relembra a mãe.

Isso ocorreu quando Arine era pequena, mas o último episódio de racismo foi há pouco tempo. Arine conta que, ao entrar na escola do Lago Sul onde dá aula de dança, uma menina que estava no parquinho a viu entrando e gritou: “corre que está vindo um ladrão”. Ao chegar na sala de aula, ela perguntou aos presentes se eles tinham visto o que ocorreu e se concordavam com o que a menina havia falado. Uma de suas alunas respondeu: “Você não é bandida porque é nossa professora”.

Como a mãe, Arine pegou a via da educação e acredita que por ela a sociedade possa mudar. Assim, criou um projeto para ajudar a autoestima de meninas em situação social vulnerável, em especial negras. O Adote uma Bailarina começou em 2013, como parte da disciplina de estágio da jovem, e atendia 45 alunas por semestre.

“A menina negra na dança não tem tanta visibilidade. Ainda mais na dança clássica, por ser de origem europeia. Com o projeto, as meninas começaram a perceber que elas poderiam fazer parte daquele mundo”, comenta.

Atualmente, o projeto está parado por falta de apoio, mas ela quer colocá-lo para funcionar novamente o quanto antes.

Data

  • Instituída em alusão à morte de Zumbi dos Palmares, ocorrida em 20 de novembro de 1695, foi oficialmente implementada em novembro de 2011. É feriado em alguns estados, como o Rio de Janeiro, mas não em Brasília. O homenageado, Zumbi, foi um pernambucano e criou o Quilombo dos Palmares, uma comunidade formada pelos escravos que fugiam das prisões e senzalas.

Da margem para o centro

Para a pesquisadora Lia Maria dos Santos de Deus, mestre em Educação pela UnB, a situação de Maura e Arine mostra que a pessoa negra não está mais à margem das discussões, mas no centro dela, argumentando, reclamando e construindo a mudança. “Temos dados ruins, mas temos mais espaço que antigamente”, complementa.

Lia acredita que a luta é contínua, até porque é preciso mudar realidades e quebrar estigmas. Ela comemora que um dos fatores importantes para a mudança de pensamento da própria pessoa negra foi a recuperação da autoestima. “Hoje vemos o black power, as tranças. Isso não é só estética. É uma maneira de a pessoa estar à vontade de ser quem é”.

A coordenadora regional do Movimento Negro Unificado, Jacira da Silva, considera que o Dia da Consciência Negra é importante para auxiliar nesse processo de conscientização: “É um grito de resistência. O brasileiro tem que ter orgulho dos ancestrais africanos e de todo o seu legado”.

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