Incêndios florestais, estiagens, erosões, alagamentos e chuvas intensas. Em dez anos, o Distrito Federal contabilizou 14 registros oficiais de desastres climáticos, uma média que, embora considerada baixa pelo próprio levantamento, esconde episódios com impactos diretos sobre a população. Somente em 2024, quatro ocorrências foram notificadas: três incêndios florestais e uma chuva intensa. As precipitações daquele ano deixaram 80 pessoas desabrigadas ou desalojadas.

Os números fazem parte do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026, elaborado em colaboração entre o Centro Brasil no Clima (CBC) e o Instituto Clima e Sociedade (iCS). O documento reúne informações sobre riscos, políticas e capacidade de resposta das unidades da Federação e alerta para a necessidade de fortalecer mecanismos de prevenção, resposta e resiliência diante de desastres ambientais e climáticos.

É diante desse cenário que Brasília precisa se preparar para eventos que podem assumir características diferentes, da falta ao excesso de chuva. O Jornal de Brasília esteve em São Paulo, nos dias 6 e 7 de agosto, a convite do E-mundi, em uma programação realizada em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), que reuniu especialistas para debater El Niño, mudanças climáticas e adaptação a eventos extremos.

Mais do que tentar antecipar com exatidão quando ocorrerá o próximo episódio severo, uma das discussões foi sobre o que cidades e governos conseguem fazer antes dele. E, nesse ponto, os dados nacionais apresentados durante o seminário mostram que ainda existe um longo caminho.


Prevenção começa no território
Durante a programação, o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-secretário do Ministério da Agricultura Guilherme Bastos chamou atenção para a capacidade de resposta no nível local. Segundo os dados apresentados por ele, 87% dos municípios brasileiros não possuem plano municipal de redução de riscos, cerca de 78% não têm plano de contingência e 53% não contam com qualquer instrumento de gestão de risco.
Para Bastos, é justamente na esfera local que está um dos principais gargalos da adaptação às mudanças climáticas. “A gente tem que pensar o seguinte: quais as ferramentas que a gente tem na mão e como que a gente deve estar preparado para atender esses problemas. […] O gargalo da adaptação às mudanças climáticas é exatamente no município”, afirmou.
A lógica apresentada pelo especialista divide responsabilidades. Enquanto a União atua no monitoramento, na definição de normas e no financiamento, estados têm papel de articulação e apoio, inclusive no mapeamento de áreas de risco e na elaboração de planos de contingência. Na ponta, cabe aos governos locais executar protocolos, manter contato com a população atingida, atualizar planos, antecipar alertas e organizar respostas como evacuações, quando necessárias.
“Adaptação se decide no município”, resumiu Bastos. Para ele, a nova realidade climática apresenta riscos diferentes conforme o território, o que torna insuficiente uma resposta única para todo o país.
No Distrito Federal, embora a organização administrativa seja diferente da estrutura municipal dos demais estados, a discussão encontra paralelo nos registros reunidos pelo anuário. 2021 foi o ano com maior número de notificações climáticas no período analisado, com sete ocorrências, principalmente relacionadas a erosões e alagamentos. Três anos depois, incêndios florestais representaram 75% dos desastres oficialmente registrados em 2024.
DF prepara plano para o El Niño
O planejamento ganha ainda mais importância diante da perspectiva de atuação do El Niño. Questionado pelo Jornal de Brasília sobre a preparação da capital, o Governo do Distrito Federal informou que os principais efeitos associados ao fenômeno e à variabilidade climática no DF são atraso das chuvas, calor extremo e agravamento da seca.
A Secretaria de Saúde, em articulação com outros órgãos e instituições do GDF e com o Ministério da Saúde, está elaborando o Plano de Preparação do DF para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño. A proposta é estruturar ações de preparação, contingência e resposta aos impactos sobre a saúde pública decorrentes de eventos climáticos intensificados pelo fenômeno. O documento e a pactuação das responsabilidades entre as instituições envolvidas ainda estão em andamento.
Mesmo antes da conclusão do plano, a Gerência de Vigilância Ambiental de Fatores Não Biológicos, vinculada à Diretoria de Vigilância Ambiental em Saúde (Dival), já mantém ações permanentes voltadas aos extremos climáticos. Entre elas estão a comunicação de riscos aos serviços de saúde e a divulgação de alertas e orientações técnicas sobre calor extremo, baixa umidade e fumaça de queimadas.
O professor da FGV Eduardo Assad ressaltou durante o encontro que um dos efeitos que merecem atenção no Centro-Oeste são justamente as ondas de calor. Segundo ele, há relação entre a presença do El Niño e o aumento desses episódios na região.
Diferentes fenômenos exigem diferentes respostas. Para Assad, inclusive, ainda não é possível determinar com precisão a intensidade que o El Niño alcançará, o que não elimina a necessidade de preparação.
Planejar para um clima que mudou
O desafio não está apenas em responder às emergências. O próprio Anuário Estadual de Mudanças Climáticas foi estruturado para avaliar a capacidade institucional dos governos e identificar avanços e fragilidades na implementação de políticas de mitigação e adaptação. O levantamento considera que a sistematização dos dados sobre desastres ajuda a dimensionar riscos e evidencia a necessidade de fortalecer prevenção e resiliência.
O Distrito Federal aparece entre as unidades da Federação que possuem planejamento específico de descarbonização, segundo o documento. O diagnóstico, porém, mostra que planejamento climático envolve também preparar serviços públicos e infraestrutura para riscos que já se apresentam de maneiras distintas no território.
Bastos defendeu que a discussão saia da tentativa de calcular apenas o tamanho da próxima perda e avance sobre as condições disponíveis para evitá-la. “Ao invés de ficar muito preocupado em saber o quanto que vai quebrar, quanto que pode realmente impactar, eu acho que a gente tem que olhar exatamente para o nível da esfera municipal e estadual também para cobrar ações preventivas”, afirmou.
Outros focos
Os debates se estenderam ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde, no dia 6, o iCS e a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) promoveram o encontro “Riscos Climáticos e o Setor Segurador: como ampliar a resiliência do Brasil?”, dentro da programação do World Climate Summit São Paulo.
No Masp, a discussão avançou sobre outro lado da mesma questão: o custo de não se preparar. Especialistas debateram como riscos climáticos precisam ser incorporados ao planejamento das cidades, da infraestrutura e dos negócios, além do papel dos seguros na recuperação após eventos extremos. A avaliação apresentada foi de que a incerteza sobre onde ou quando ocorrerá o próximo desastre não pode ser usada como justificativa para adiar decisões de prevenção.
Como resumiu a presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima da Organização Meteorológica Mundial, Thelma Krug, durante o encontro: “Eu não sei dizer exatamente o que vai acontecer, mas sei que vai acontecer. Não precisamos esperar para agir.”