“Coloco uma pedra no coração para dar conta do trabalho”, afirma a conselheira tutelar Alciene Claudia da Silva, de 37 anos. Mãe de quatro filhos, ela custa a entender como é possível alguém desamparar um recém-nascido. “É muito triste ver isso”, constata. A situação, entretanto, acontece com frequência no Distrito Federal. Só no primeiro semestre deste ano, a Secretaria de Segurança registrou 50 casos de abandono de incapaz. Ou seja, em média, por semana, mais de duas crianças foram rejeitadas pelos pais.
Com base nos casos, a Vara da Infância traçou o perfil das mulheres que entregam crianças em adoção: elas têm entre 18 e 34 anos, muitas com outros filhos sob os cuidados de terceiros. Normalmente, estão desempregadas, sem apoio ou suporte familiar, abandonadas pelo companheiro e com baixo nível de escolaridade. Além disso, a maioria não faz parte de programas sociais.
Na manhã de ontem, o pequeno Rafael (nome fictício), com apenas dois meses de vida, entrou nas estatísticas da Secretaria de Segurança. Abandonado próximo a um local apontado como boca de fumo, em São Sebastião, o bebê foi encontrado por um sargento da PM, que recebeu a denúncia por volta das 9h40.
Atendimento
De acordo com a ocorrência, “de imediato, a criança foi encaminhada à 30ª Delegacia de Polícia, onde ficou sob os cuidados da conselheira tutelar Alciene Claudia da Silva, que a levou até a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da cidade”.
O menino, que pesa aproximadamente 5,5 kg, teria sido abandonado na rua pela própria mãe, que é usuária de drogas, segundo relato do pai, T., de 32 anos. “Ela bebe, usa drogas. Eu já tentei tirá-la dessa vida, mas não sai. Não quer sair. Eu tinha ido visitar meu irmão e, quando volto, fico sabendo disso. Só fico pensando em como ele sobreviveu ao frio da madrugada. É muito bom saber que, pelo menos, ele está bem”, disse o autônomo, após ir ao Conselho Tutelar ver a situação do filho. Ele e a mãe de Rafael, L., 22 anos, têm outra criança, de dois anos. Ele promete pedir a guarda delas.
Por volta das 16h30, a jovem, que prestou depoimento na 30ª DP, também foi ao Conselho Tutelar em busca do filho. “Isso está errado, eu não fiz nada. Quero meu filho de volta”, dizia, chorando, aos conselheiros.