O Distrito Federal tem 34,1 mil pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que representa 1,2% da população local, de acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A unidade da federação ocupa a 15ª posição no ranking nacional. Em todo o país, 2,4% receberam o diagnóstico, o que equivale a 1,2% da população brasileira. A prevalência é maior entre os homens, que somam 1,4 milhão, enquanto entre as mulheres o número chega a 1 milhão.
Para o neurologista Maciel Pontes, o diagnóstico de autismo é cerca de quatro vezes mais comum em meninos. “Embora fatores biológicos possam ter influência, muitos especialistas apontam que o autismo em meninas costuma se manifestar de forma diferente e pode ser mascarado por habilidades sociais aprendidas. Isso faz com que muitas meninas autistas, especialmente com sintomas leves, permaneçam sem diagnóstico, refletindo uma invisibilidade nos diagnósticos femininos”, explica.
Diagnosticada aos 19 anos, a jornalista Ana Karolina Freitas relata que há uma diferença significativa na forma como os homens e mulheres são percebidos. “No começo o autismo era tido como um transtorno exclusivamente masculino porque os ‘comportamentos autistas’ que os meninos manifestavam eram socialmente impostos às meninas. Sempre houve muito preconceito porque ainda não se chegou ao entendimento geral que o Autismo é um espectro muito amplo e que se manifesta de maneiras muito diferentes em cada pessoa”.
Segundo ela, a representação midiática também contribuiu para essa distorção. “Quando as pessoas pensam em um autista, imaginam um menino pequeno que gosta muito de trens e que é bom em exatas. Isso apaga completamente as meninas e mulheres autistas, principalmente as que têm níveis de suporte mais baixos”, completa.
No Distrito Federal, o diagnóstico precoce ainda é um desafio. Segundo a Secretaria de Saúde, por se tratar de uma síndrome complexa e de difícil identificação, o caminho até o laudo pode ser longo. A orientação é que, ao menor sinal de suspeita, a família procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde o paciente será avaliado e, se necessário, encaminhado para o atendimento especializado.
“O processo de descobrir o TEA foi um misto de alívio e choque. Alívio porque passei muito tempo buscando o que havia de errado, porque eu me sentia esgotada e deprimida com tanta frequência e finalmente tive uma resposta para tudo que notei de diferente em mim a vida toda. E o choque de ver como eu tive minha saúde, principalmente mental, negligenciada toda a minha vida pela falta do diagnóstico. É como se eu tivesse passado a vida inteira com miopia e só aos 19 começasse a usar óculos”, conclui Ana.
Uma vez feito o diagnóstico, ou até mesmo com suspeita clínica de TEA, o paciente pode ser direcionado para os serviços de reabilitação. O objetivo é não perder a janela de oportunidade da neuroplasticidade cerebral, que favorece o desenvolvimento. Para cada caso, é elaborado um plano terapêutico individual, respeitando o espectro de sinais e sintomas de cada pessoa.
Sinais
Para Maciel, os sinais mais comuns incluem dificuldade de contato visual, atraso na fala, comportamentos repetitivos, sensibilidade sensorial e dificuldade em interações sociais. “Esses comportamentos, quando observados de forma persistente, geralmente levam pais ou responsáveis a procurarem avaliação com profissionais especializados”, afirma.
Uma vez identificado o diagnóstico, caso a criança não esteja apresentando crises epilépticas, comportamentos de autoagressão ou agressividade, ela pode continuar sendo acompanhada na pediatria geral enquanto aguarda o início das terapias de estimulação. Nesses casos, não há necessidade imediata de encaminhamento para um especialista em neuropediatria.
Se houver sofrimento psíquico associado, a rede pública de saúde mental também está disponível para apoio, especialmente por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem atendimento gratuito e especializado.
Com relação a condições de bipolaridade, por exemplo, a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) reforça que as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) desempenham um papel central no cuidado em saúde mental. Atualmente, 176 UBSs oferecem suporte psicossocial, atuando como porta de entrada para acolhimento, triagem e, quando necessário, encaminhamento a serviços especializados, como os próprios CAPS e ambulatórios.
A SES-DF também disponibiliza Práticas Integrativas em Saúde (PIS), que incluem atividades como acupuntura, meditação, musicoterapia e yoga. Os atendimentos psiquiátricos são organizados pelas Regiões de Saúde de acordo com a demanda local, o que garante o direcionamento adequado para cada caso.