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Brasília

DF enfrenta extremos na virada para outubro

Após temperatura chegar a 35,5°C e umidade cair a 11%, Distrito Federal se prepara para as primeiras chuvas de outubro, que podem vir acompanhadas de rajadas de vento, raios e até granizo

Isabele Mendes

29/09/2026 18h07

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Fotos: Isabele Mendes/ Jornal de Brasília

O Distrito Federal chega ao fim de setembro entre o calor intenso, a umidade em níveis extremos e a expectativa pelas primeiras chuvas de outubro. Depois de os termômetros alcançarem 35,5°C na segunda-feira (28), nesta terça (29) a umidade relativa do ar caiu a 11% em Águas Emendadas, em Planaltina, o menor índice registrado no DF em 2026. No Plano Piloto, chegou a 12%. A mudança no tempo deve começar já nesta quinta-feira (1º/10), com previsão de chuva que pode ocorrer de forma intensa e localizada, acompanhada de fortes rajadas de vento, raios e eventual queda de granizo.

Mesmo com a chegada da chuva, o calor não deve desaparecer de imediato. Segundo a meteorologista Thaís Cortez, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as temperaturas devem continuar elevadas ao longo da semana e um novo recorde não está descartado. A partir de sexta-feira (2), a máxima deve deixar a casa dos 35°C e cair para a faixa dos 32°C. No sábado, pode chegar a cerca de 30°C.

Os números dos últimos dias aproximam o DF de marcas históricas. O maior valor de temperatura da série histórica do Distrito Federal foi registrado em outubro de 2020, quando o Gama alcançou 37,8°C. Em Brasília, o recorde é de 36,5°C, também naquele mês. Segundo o Inmet, outubro costuma ser quente, principalmente quando há atraso na chegada das chuvas.

Na umidade, o cenário também chama atenção. Os 11% registrados nesta terça-feira em Águas Emendadas representam o menor índice do DF em 2026, enquanto o Plano Piloto chegou a 12%. Ainda assim, os valores permanecem acima dos recordes da série histórica. A menor umidade já registrada no Distrito Federal foi de 7%, no Gama, em 3 de setembro de 2024. Em Brasília, o recorde é de 10%, registrado em 15 de setembro do mesmo ano.

Apesar dos extremos recentes, o Inmet avalia que a estiagem de 2026 está, de forma geral, dentro do comportamento esperado para a época. Uma das principais diferenças deste ano foi a ausência de frio mais expressivo. As temperaturas ficaram acima do normal e, até os últimos dias, não foram observadas tantas jornadas com umidade em níveis extremos quanto em outros invernos.

Outro fator chama atenção: nenhuma frente fria atuou sobre o Distrito Federal neste ano. Por outro lado, houve registros de chuva em junho, agosto e setembro. Para o Inmet, essas características ajudam a diferenciar a estiagem de 2026 de outros períodos secos enfrentados pela capital.

Chuva chega, mas pode vir forte

A mudança mais significativa no tempo deve começar na quinta-feira. A previsão do Inmet indica chuva no Distrito Federal a partir de 1º de outubro, com possibilidade de continuidade durante o fim de semana. As precipitações podem ocorrer de maneira intensa e localizada e vir acompanhadas de fortes rajadas de vento, raios e eventual queda de granizo.

A combinação está relacionada justamente à transição entre as estações. Thaís explica que a primavera marca a passagem do inverno seco para o verão chuvoso. Neste período, as temperaturas continuam elevadas ao mesmo tempo em que começa a aumentar a quantidade de água disponível na atmosfera.

“Além da alta temperatura, começamos a ter o aumento do conteúdo de água na atmosfera, ou seja, calor e umidade, o que favorece as chuvas pontualmente intensas neste período”, explica a meteorologista.

A chegada das primeiras precipitações também não significa uma queda imediata e definitiva das temperaturas. O calor deve permanecer nos próximos dias e, segundo o Inmet, a possibilidade de um novo recorde ainda não está descartada. Outubro, historicamente, também costuma registrar temperaturas elevadas, especialmente quando as chuvas demoram a se estabelecer de maneira mais regular.

Seca muda a rotina

Enquanto a chuva não chega, quem vive no DF adapta a rotina para enfrentar o calor e o ar seco. O estudante de Geologia da Universidade de Brasília (UnB) Patrick Santos, de 19 anos, mudou até o horário dos exercícios. Acostumado a treinar à tarde, passou a frequentar a academia à noite.

estudante patrick santos, de 19 anos
Estudante Patrick Santos, de 19 anos

“Na época de seca a respiração fica muito pior e meu nariz fica muito seco e é muito difícil treinar”, conta. Patrick relata que, em outra ocasião, durante uma corrida realizada neste mês, precisou interromper o exercício e procurar uma sombra para descansar porque já não conseguia manter o ritmo. Agora, diz que também aumentou o consumo de água durante os treinos.

A estudante Valéria de Oliveira, de 62 anos, também precisou mudar os hábitos. A caminhada que costumava fazer pela manhã foi suspensa diante do calor. Mesmo mantendo uma garrafa de água por perto e cuidando da hidratação, ela relata que os efeitos aparecem durante o dia. “A gente fica muito cansado, fica indisposto, às vezes com dor de cabeça, mesmo tomando cuidado da hidratação”, conta.

estudante valéria de oliveira, de 62 anos
Estudante Valéria de Oliveira, de 62 anos

Para quem trabalha exposto ao calor, manter esses cuidados pode ser ainda mais difícil. Há sete anos vendendo marmitas na UnB, Patrícia Pereira conta que a rotina corrida e a distância até o bebedouro dificultam até um hábito básico. “A gente quase não bebe água. O bebedouro é muito longe e o sol é muito quente para a gente ir lá”, relata.

vendedora de marmita há 7 anos patrícia pereira (blusa roxa)
Vendedora de marmita há 7 anos, Patrícia Pereira (blusa roxa)

O calor também interfere no trabalho. As marmitas precisam permanecer em caixas de isopor e as bebidas são levadas previamente resfriadas ou parcialmente congeladas para suportar as altas temperaturas até a hora da venda.

Corpo sente os efeitos

O professor de Medicina Lucas Albanaz explica que não existe uma quantidade única de água indicada para todas as pessoas. A necessidade varia conforme idade, peso, alimentação, temperatura ambiente, atividade física e condições de saúde. Nos períodos em que o tempo seco está associado ao calor ou à prática de exercícios, as perdas de água pela pele e pela respiração aumentam.

Por isso, mais do que perseguir uma quantidade fixa, a recomendação para a maioria dos adultos saudáveis é consumir líquidos regularmente ao longo do dia e observar os sinais do próprio organismo. Sede aumentada, boca e lábios secos, cansaço, dor de cabeça, tontura e redução da quantidade de urina estão entre os primeiros indícios de hidratação inadequada. Além disso, o médico ainda faz um alerta: “pessoas com insuficiência cardíaca, doença renal avançada, cirrose ou alguma orientação médica para restringir líquidos não devem simplesmente aumentar muito o consumo de água sem conversar com seu médico”

Quando a desidratação avança, podem surgir fraqueza, palpitações, sonolência, irritabilidade e dificuldade de concentração. Confusão mental, desmaio, redução acentuada ou ausência de urina e incapacidade de beber líquidos são sinais de alerta e exigem avaliação médica rápida.

O ar seco também afeta diretamente as vias respiratórias. Rinite, asma, sinusite, bronquite crônica, enfisema e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) podem apresentar piora. Mesmo pessoas sem doença respiratória conhecida podem sentir tosse seca, ardência, rouquidão, pigarro e a sensação de garganta arranhando.

Para quem pratica atividade física, o cardiologista Hober Fasciani recomenda evitar exercícios entre 10h e 17h, quando as temperaturas atingem os maiores valores e a umidade fica mais baixa. A preferência deve ser pelo início da manhã ou, como alternativa, depois das 18h. A intensidade e a duração dos treinos também podem ser reduzidas, com aumento da frequência das pausas. “Nós temos os riscos de treinar nos horários mais quentes e secos, como desidratação, o ar seco, o suor evapora rápido e a pessoa não se sente molhada. Ela perde mais líquido do que percebe e ainda soma a perda respiratória, que aumenta com a hiperventilação do esforço.” explica o cardiologista.

Os cuidados ganham importância justamente nos últimos dias antes da mudança esperada no tempo. Depois de um fim de setembro marcado por calor e umidade em níveis extremos, outubro começa com a expectativa de chuva. Ela deve trazer algum alívio, mas também exige atenção: nesse encontro entre altas temperaturas e o retorno da umidade à atmosfera, as primeiras precipitações podem chegar de forma intensa.

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