Mesmo com retração no comércio exterior ao longo de 2024, o Distrito Federal conseguiu reduzir o déficit da balança comercial e ampliar sua participação em nichos específicos de exportação. De acordo com o Boletim do Comércio Exterior, divulgado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), o saldo negativo da balança foi de US$ 1,33 bilhão, demonstrando uma melhora diante dos anos anteriores, mesmo representando uma queda de 25,6% na comparação com 2023.
A chamada corrente de comércio, que soma exportações e importações, movimentou US$ 1,93 bilhão ao longo do ano, valor que representa uma retração de 23,7%. Ainda assim, o desempenho de setores como moda, alimentação e agricultura familiar aponta para caminhos alternativos à tradicional concentração da pauta comercial em commodities.
O volume total exportado pelo DF em 2024 foi de US$ 298,8 milhões, redução de 19,1% em relação a 2023. A soja segue como principal produto da balança exportadora, respondendo por 34% do total comercializado, mas enfrentou queda de 25,8% em valor e 8,8% em volume.
Ainda assim, o DF emplacou posições importantes no mercado externo. Dados da Secretaria de Comércio Exterior apontam que cinco produtos concentraram 78,9% do valor exportado: soja (US$ 101,5 milhões), pedaços e miudezas de frango (US$ 48 milhões), querosene de aviação (US$ 43,5 milhões), peitos desossados de frango (US$ 21,8 milhões) e carnes não cortadas de galinha (US$ 20,8 milhões).
Mesmo com a concentração nos setores agropecuário e de combustíveis, o IPEDF destaca o surgimento de novos protagonistas. O DF liderou, por exemplo, as exportações nacionais de saias de malha feitas de fibras sintéticas no terceiro trimestre. Também alcançou a segunda colocação na exportação de massa para pão e a terceira em morangos frescos, produtos com alta agregação de valor e representatividade na agricultura familiar.
Segundo Francisca Lucena, diretora de Estatística e Pesquisas Socioeconômicas do IPEDF, a contribuição do Boletim do Comércio Exterior para a sociedade é evidenciar que, apesar de representar menos de 1% das exportações e importações nacionais, o comércio internacional do Distrito Federal desempenha um relevante papel para a economia local, mobilizando diversos setores e produtos, mesmo com as vantagens em nichos específicos como o de carnes de galos/galinhas e o de soja.
Em 2024, o Distrito Federal exportou 338 produtos diferentes para 121 países, consolidando-se como um polo que, embora modesto em volume, mostra capilaridade em destinos e tipos de mercadoria.
A China, que comprou quase 80% da soja brasiliense, foi o maior destino. Já a Arábia Saudita se manteve como principal compradora das carnes de frango, movimentando mais de US$ 64 milhões. O bloco asiático, aliás, respondeu por uma parcela significativa da corrente de comércio, especialmente no agronegócio.
A diversificação de mercados é vista por especialistas como fator essencial para a sustentabilidade da balança nos próximos anos. O crescimento em nichos específicos também pode tornar o DF menos vulnerável às oscilações de preços de commodities, que seguem instáveis no cenário global.
Importações pela indústria farmacêutica
Do outro lado da balança, o DF importou US$ 1,63 bilhão em 2024, queda de 24,5% em comparação ao ano anterior. Um dos principais fatores foi a redução nos custos e na demanda por insumos industriais no segundo semestre, especialmente os ligados à área da saúde.
A fabricação de produtos farmacêuticos, químicos, medicinais e botânicos respondeu por 84% de todas as compras internacionais. O volume, estimado em US$ 1,37 bilhão, reforça a centralidade do setor na economia do DF, que abriga importantes centros hospitalares, laboratórios e instituições de pesquisa.
Os principais países fornecedores foram Alemanha (US$ 372 milhões) e Estados Unidos (US$ 312,6 milhões). Juntos, os dois países respondem por mais da metade dos medicamentos e insumos químicos comprados pela capital federal.
Ao todo, o Distrito Federal importou 1.715 produtos distintos de 78 países, o que indica uma base sólida de parceiros comerciais e forte dependência tecnológica e científica.
Trimestres irregulares
A variação trimestral da balança comercial do DF mostrou oscilações significativas. O segundo trimestre foi o mais positivo em termos de volume exportado e importado, com US$ 81,3 milhões em exportações e US$ 531,1 milhões em importações. Já o primeiro trimestre teve os piores números, reflexo das incertezas econômicas e da desaceleração da demanda internacional no início do ano.
O quarto trimestre, por sua vez, sinalizou uma leve recuperação, com aumento de 4,5% na comparação com o trimestre anterior. Ainda assim, os dados reforçam a necessidade de atenção às variações sazonais e à dependência do DF em setores estratégicos.
O cenário global também impactou o comércio exterior brasiliense. De acordo com o Banco Mundial, os preços de commodities agrícolas subiram 10,3% entre dezembro de 2023 e dezembro de 2024. Produtos minerais e metálicos tiveram alta de 3,5%, enquanto os energéticos caíram 3,1%. Esses movimentos influenciaram diretamente o valor das exportações, sobretudo no agronegócio.
Economia criativa e pequenos negócios: futuro da exportação no DF?
O boletim do IPEDF aponta que o DF tem potencial para expandir sua atuação em setores criativos e de pequeno porte. A presença crescente de produtos como vestuário, alimentos processados e frutas na balança exportadora mostra que há espaço para novos protagonistas.
Iniciativas que incentivam a agricultura familiar, o empreendedorismo feminino e os microempreendedores individuais (MEIs) podem ganhar protagonismo se forem acompanhadas de políticas públicas para logística, capacitação e certificação internacional.
“Ao trazer luz sobre esses dados, o Boletim também cumpre a função de subsidiar políticas públicas e decisões estratégicas, tanto do setor público quanto da iniciativa privada”, completa Francisca Lucena. “É esse tipo de informação que permite enxergar o potencial de mercados ainda pouco explorados e planejar o crescimento com base em evidências”.
Mesmo com um volume modesto em relação a outros estados, o Distrito Federal mostra que é possível conquistar mercados com criatividade, qualidade e foco em nichos. O desafio, agora, é transformar essas exceções em estratégia de longo prazo.