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Brasília

Desespero no ônibus: falha mecânica, imprudência ou acidente?

Arquivo Geral

07/03/2018 14h59

João Stangherlin

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

Aconteceu de novo. Uma menina de 17 anos foi arremessada de um ônibus em movimento no meio de uma rodovia da capital. A porta se abriu misteriosamente, e a garota está em estado grave. Dois anos atrás, a vítima foi Andreza Costa. Ela ficou 84 dias internada e perdeu completamente a audição, mas se vê como um milagre. Hoje, a jovem de 23 anos luta para conseguir um implante coclear e retomar a qualidade de vida.

Na manhã de ontem, a menina de 17 anos saiu cedo de casa, em Sobradinho, com destino ao colégio Gisno, na Asa Norte, onde cursa o 2º ano do Ensino Médio. Depois de entrar no coletivo, ela sequer chegou ao ponto seguinte. Com o veículo lotado, a mochila da passageira teria ficado presa na porta dianteira. Ao sair do ponto de ônibus, já em movimento, a porta apresentou defeito e abriu, provocando a queda da menina na marginal da BR-020.

A Secretaria de Saúde não indicou o estado clínico da menina, mas, segundo a mãe, ela passou o dia desorientada. Ela quebrou a clavícula, fez exames de sangue e no crânio. “Tive muito medo de perder minha filha. Quando vi a cabeça cheia de sangue pensei no pior, mas vejo que ela está viva e fico mais tranquila. Eu entrego nas mãos de Deus”, diz, apreensiva, a diarista Maria Alessandra Alves Moreira, 40 anos.

A mãe ressalta que, naquele horário, os ônibus são lotados. “Pedem para não encostar na porta, mas às vezes não tem o que fazer. Se levantar o pé nem tem como colocar de volta. Mas a abertura das portas é por ar, deveria ser difícil de acontecer”, analisa. Maria espera que as investigações indiquem a real causa do acidente.

Investigação

O caso é apurado pela 13ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho. Em depoimento, o motorista do ônibus da empresa Piracicabana disse que o veículo não permite a arrancada sem as portas fechadas, que ela abriu sozinha e que só percebeu o fato após ruído do ar comprimido do sistema de fechamento. Se o condutor tiver acionado a abertura com o veículo em movimento, ele poderá ser responsabilizado por negligência.

Segundo o delegado Hernane Cosseti de Almeida, relatos de testemunhas e o laudo pericial ajudarão a determinar as causas do acidente. “Uma passageira que estava antes da roleta acredita que quando o ônibus começou a se movimentar estava com a porta fechada, mas não conseguiu dar certeza”, afirmou.

O veículo Mercedes Benz da Viação Piracicabana é de ano/modelo 2013/2014 e tem prazo de validade nas ruas até 2020. Ele saiu de Sobradinho em direção à W3 Norte. Segundo a Secretaria de Mobilidade, o coletivo foi inspecionado no dia 6 de novembro de 2017 e sua vistoria ainda está válida. Procurada, a Piracicabana informou que acompanha o caso e que é necessário aguardar a perícia para apontar possíveis causas.

Versão oficial

A Secretaria de Mobilidade diz que mantém um “rigoroso processo de inspeções em todos os veículos que operam no Sistema de Transporte Público Coletivo do DF (STPC/DF) tanto por meio das vistorias periódicas obrigatórias quanto nas fiscalizações em campo”. O procedimento de inspeção compreende fiscalização das partes mecânica e elétrica, além da condição dos pneus, portas, faróis, itens de segurança, acessibilidade.

Em caso de constatação de irregularidades, as empresas estão sujeitas a penalidades, que incluem sanções contratuais e disciplinares, como advertência, multa e suspensão, além de retenção e a retirada do veículo de circulação até que o problema seja resolvido. “Mesmo com as vistorias em dia, os veículos estão sujeitos a falhas”, ressalta a pasta. A Semob afirma que Brasília tem uma das frotas mais novas do País, com média de 4 anos.

Sequela para a vida toda

A vida de Andreza Costa, 23 anos, mudou exatamente no dia 28 de março de 2016. Ela voltava do trabalho e pegou um ônibus na Rodoviária do Plano Piloto com destino a São Sebastião, onde mora, mas foi jogada para fora do coletivo em uma curva na L4 Sul. Ela teve traumatismo craniano, quebrou o esterno e teve contusão pulmonar. Até hoje, ela não lembra do que aconteceu.
Por 84 dias, esteve internada entre a vida e a morte. Depois da alta, ficou 18 dias em casa e retornou às pressas para o hospital por conta de um derrame no peito. “Ela é meu milagre. Sobreviveu ao acidente, a uma broncoaspiração que quase a matou, e ao derrame”, comemora a mãe, Joelma Costa, 38.

O uso de um remédio destruiu as células auditivas de Andreza por oxidação. A jovem, que antes trabalhava com telemarketing, vive no mundo do silêncio e conversa improvisadamente com leitura labial ou troca de mensagens. Ela está na fila por um implante coclear na rede pública. A cirurgia custa cerca de R$ 80 mil, fora a manutenção perpétua. “Nossa aposta é que esse implante devolva a qualidade de vida da minha filha. É nossa única esperança”, diz a mãe.

Com a notícia de um caso parecido ontem, a família teve de reviver as memórias do ocorrido e suas consequências. À mãe da adolescente, Joelma recomenda: “Tem que ter muita fé e ficar de olho nos procedimentos e profissionais”.

O inquérito foi registrado na 1ª Delegacia de Polícia, na Asa Sul. Conforme o delegado João Ataliba Nogueira Neto, o documento foi concluído um ano após o acidente, em maio passado. O laudo pericial não apontou elementos que determinassem a causa, mas indicou que a porta se abriu por uma força de dentro para fora quando o ônibus estava a R$ 40 km/h. O delegado sugeriu arquivamento à Justiça. “Três testemunhas foram ouvidas e relataram que a moça estava sentada no fundo do ônibus, e, quando se levantou, estava com o telefone na mão e teria se distraído quando o ônibus fez a curva. Assim, não conseguiu se segurar”, conta Nogueira.

Checklist

No ano passado, a Operação Checklist da Polícia Civil e do Ministério Público do DF revelou um esquema de cobrança de propina para liberar micro-ônibus com falhas mecânicas às ruas da capital. As investigações identificaram que os pagamentos de até R$ 40 por veículo eram feitos semanalmente pelas cooperativas aos fiscais. Os despachantes das empresas recolhiam e repassavam o dinheiro a funcionários públicos. Casos de irregularidades no freio, vazamento de óleo, pneus carecas e falhas no sistema de velocidade eram ignorados por fiscais após pagamento de propina.

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