O aumento nas despesas essenciais e o encarecimento do crédito são dois dos fatores que comprometem o orçamento das famílias no Distrito Federal. Gastos fixos com água, energia elétrica, combustível e aluguel absorvem uma grande parte da renda da população, principalmente entre as pessoas com menor poder aquisitivo. Como resposta ao cenário econômico, os consumidores diminuem as compras não essenciais, buscam produtos mais baratos e reformulam seus hábitos de consumo.
Dados de inflação e o impacto no orçamento
Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) revelam grandes altas em itens básicos do dia a dia do brasiliense no acumulado do ano de 2026. A cebola acumula uma alta de 45,16%, enquanto o feijão-carioca registra uma disparada de 44,30%. O leite longa vida teve um aumento de 20,45%, o pão francês subiu 4,89% e as carnes 4,60%.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada em 2018 pelo IBGE, representa como esses aumentos afetam mais a população de baixa renda. Em famílias com rendimento mensal de até R$1.908, a alimentação consome cerca de 17,5% do orçamento dessa família, enquanto o aluguel compromete 22,7% da renda. Já para famílias com renda maior que R$23.850, a alimentação representa somente 5,8% da despesa do mês e o aluguel apenas 9,7%.
Impacto no orçamento e peso das contas fixas
Essa alta nos preços da alimentação e da moradia reflete na rotina de quem vive no Distrito Federal. Magda dos Anjos, empresária no ramo da contabilidade, descreve o aperto do orçamento nas idas ao supermercado e no pagamento do aluguel. “Eu acredito que seja mercado, questão de alimentação, tá muito caro. Cada mês que você vai ou cada semana que você vai ao mercado, você traz menos mercadoria e deixa mais dinheiro. E a questão da habitação, a questão de aluguel e até pagamento de prestação de habitação, tá caro também”, relata Magda dos Anjos.
César Bergo, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), reforça o impacto desigual entre as regiões administrativas do DF.”Famílias de maior renda absorvem preços mais elevados e as famílias com renda menor comprometem uma parcela maior do seu orçamento com os gastos. Então no DF você tem uma desigualdade grande entre as regiões administrativas”, explica Bergo.
O economista não deixa de fora o peso dos juros no orçamento doméstico. “Com essa taxa de juros as pessoas estão endividadas, sobretudo no cartão de crédito e também no cheque especial”, pontuou César.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio-DF), também aponta que esses compromissos fixos e o pagamento de dívidas diminuem a capacidade de compras da população.
A Fecomércio-DF também aponta que os compromissos fixos e o pagamento de dívidas retiram a capacidade de compra da população. “O aumento das despesas essenciais tem reduzido a parcela da renda disponível das famílias para o consumo de bens e serviços de caráter discricionário”, acrescentou a entidade.
Mudança de hábitos e comércio de vizinhança
Na rotina do comércio varejista do DF também houve adaptações. A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), realizada pelo IBGE, mostra que as vendas do varejo registraram uma queda de 0,3% no mês de julho, se comparado ao mês anterior.
Diante de restrições financeiras como esta, famílias aplicam estratégias na hora de escolher os produtos, buscam por promoções e trocam marcas. A Fecomércio-DF observa essa mudança no estilo de consumo: “O que se observa é uma reorganização das prioridades das famílias, com maior seletividade nas compras, pesquisa de preços, substituição de produtos e redução das despesas consideradas não essenciais”
A localização e o preço do transporte também afetam os valores no comércio de bairro. “Nas regiões administrativas você tem menos concorrência, então os supermercados menores costumam cobrar um preço maior porque a escala do comerciante é maior em termos de ganho para compensar um pouco essa questão da falta de variedade de produtos”, explicou Bergo, sobre os supermercados menores.
Perspectivas econômicas e orientação financeira
Na hora de enfrentar momentos de inflação alta, é necessário ter disciplina financeira. Magda dos Anjos ressalta que após se organizar foi possível criar uma reserva para imprevistos. “Hoje eu me organizei financeiramente, hoje eu tenho uma reserva de emergência, mas há um tempo atrás eu não conseguia, isso foi questão de se organizar mesmo”, relata a empresária.
As projeções do setor produtivo e de analistas para os próximos meses, indicam cautela mas com possibilidade de acomodar alguns setores. César Bergo prevê que os preços dos alimentos no geral vão estabilizar, embora os combustíveis continuem sob pressão do mercado internacional do petróleo e da oscilação do câmbio.
Frente a inflação, Bergo reforça a importância do planejamento e da organização das compras coletivas. “Dentro da educação financeira, a regra é disciplina e planejamento. Não comprar por impulso”, reforçou César. Ele ainda sugere que os moradores se unam para comprar produtos em maior escala no atacado.
Com a chegada das festas de final de ano, a Fecomércio-DF projeta uma melhora nas vendas, já que terá Black Friday e o Natal, alimentada pela chegada do décimo terceiro salário. Porém, a Federação relembra que o juros e o endividamento ainda são entraves no consumo. “A perspectiva para os próximos meses é de cautela, mas com possibilidade de melhora sazonal do consumo no último trimestre do ano”, finalizou a instituição.