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Brasília

Cursinho comunitário impulsiona jovens da Ceilândia a notas de destaque no Enem

Com apoio do cursinho comunitário Pré-Vest Jex, do programa Jovem Expressão, Priscila Ribeiro alcançou 940 pontos na redação, enquanto Miguel Sampaio conquistou 839,9 pontos em Matemática.

Camila Coimbra

19/01/2026 21h04

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Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

A educação transformou a rotina de dois jovens da Ceilândia em histórias de destaque no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2025. Com apoio do cursinho comunitário Pré-Vest Jex, do programa Jovem Expressão, Priscila Ribeiro alcançou 940 pontos na redação, enquanto Miguel Sampaio conquistou 839,9 pontos em Matemática. Os resultados refletem disciplina, método de estudo e o impacto de uma iniciativa que oferece preparação gratuita e acompanhamento pedagógico a estudantes do Distrito Federal.

A conquista dos 940 pontos na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi resultado de uma rotina intensa e de muita disciplina para Priscila Ribeiro, de 18 anos, estudante do cursinho popular do Jovem de Expressão. “Esse ano de estudos para o Enem foi uma loucura, porque foram muitos compromissos. Eu tentava a todo custo encaixar um horário para estudar com qualidade”, relata.

Durante boa parte do período de preparação, Priscila conciliou os estudos com um trabalho exaustivo como cuidadora de idosos. “Eu trabalhava em um turno de 12 horas, das 7h da manhã às 7h da noite, fora o tempo de transporte. Acordava muito cedo para ir trabalhar”, conta. A estratégia para não abandonar os estudos foi aproveitar cada intervalo possível. “Enquanto o idoso dormia, eu estudava. Pegava esses minutinhos para fazer alguma questão, revisar algum conteúdo”, afirma.

A rotina seguia até o período noturno. “Do trabalho, eu ia direto para o cursinho. As aulas eram à noite, então eu saía e já seguia para o curso”, diz. Além disso, Priscila precisou administrar outros compromissos pessoais. “Eu também canto, tenho um projeto de música na igreja, então era muita coisa ao mesmo tempo. Mas qualquer horário livre eu tentava encaixar estudo, seja no ônibus, no metrô.”

Segundo ela, o tempo dedicado aos estudos variava conforme os dias. “Eu estudava, no mínimo, de quatro a oito horas por dia. Teve dia que chegou a 12 horas, principalmente quando eu não estava trabalhando e conseguia compensar os dias mais puxados”, explica. Na reta final, a redação ganhou atenção especial. “Eu comecei a estudar redação para valer uns dois ou três meses antes do Enem. Peguei muito pesado mesmo, acompanhava notícias, buscava repertório.”

A experiência profissional de Priscila como cuidadora de idosos também fez parte do processo de amadurecimento pessoal que ela levou para a redação do Enem. Acostumada a lidar diariamente com a realidade dessa população, a estudante afirma que o contato direto com diferentes histórias e desafios contribuiu para ampliar seu repertório e sua visão de mundo, elementos que, segundo ela, foram fundamentais na construção de um texto mais sensível e argumentativo.

Priscila conta que escrevia, em média, duas redações por semana e teve acompanhamento próximo da professora Daniele Souza. “Eu consegui monitoria com a professora Dani duas vezes por semana e foi isso que me ajudou a alcançar essa pontuação tão alta. Essas monitorias fizeram toda a diferença”, afirma.

A trajetória de Miguel Sampaio, também de 18 anos, complementa o cenário de dedicação vivido no Jovem de Expressão. Diferentemente de Priscila, ele conheceu o cursinho por meio da irmã, ex-aluna do projeto. “Ela passou para terapia ocupacional e falou muito bem dos professores. Isso me motivou a procurar o cursinho”, relata.

Miguel afirma que chegou inseguro e com lacunas de aprendizado, mas encontrou apoio constante. “Mesmo com pouco tempo, a gente trabalhou muito. Toda dúvida que surgia, os professores estavam ali para ajudar, corrigir redação e orientar”, diz. O estudante destaca especialmente a evolução em matemática, disciplina em que obteve 840 pontos no Enem. “A gente correu muito atrás e conseguiu evoluir bastante.”

Hoje, Miguel pretende ingressar na área de tecnologia da informação, com o objetivo de cursar Ciência da Computação na Universidade de Brasília. Priscila, por sua vez, planeja seguir para as engenharias no campus do Gama, com interesse em engenharia eletrônica. 

Olhar do educador 

A professora Daniele Souza, de 27 anos, atua há dez anos na preparação de estudantes para a redação do Enem. Ela conta que sua metodologia começa antes mesmo das técnicas de escrita. “A minha metodologia sempre começa no acolhimento, no estabelecimento da confiança e especialmente da autoconfiança do estudante”, afirma. Segundo ela, é preciso considerar a defasagem educacional e a falta de tempo dos alunos para se dedicar à escrita no dia a dia, o que exige sensibilidade no processo de ensino.

No campo técnico, Daniele destaca o trabalho com a reescrita como eixo central. “Gosto de trabalhar com a reescrita, que é passar uma proposta para que o estudante possa refletir criticamente sobre o tema e sistematizar suas ideias dentro do gênero textual cobrado no Enem”, explica. O método inclui o detalhamento das cinco competências avaliadas na prova e, de acordo com a professora, trata-se de “um trabalho dedicado, quase artesanal, mas que tem dado bons resultados”.

Ao comentar o acompanhamento da estudante Priscila, Daniele relata que a proximidade foi maior porque atuou como monitora no semestre, realizando atendimentos on-line. “Eles me apresentam a redação e eu vou dizendo o que precisa ser melhorado, os pontos que precisam de mais atenção”, conta. Priscila costumava enviar de uma a duas redações por semana, número que, em alguns períodos, chegou a quatro. “Trabalhávamos temas que considerávamos importantes para o debate e para termos uma perspectiva crítica sobre problemáticas sociais no Brasil”, diz. Durante as correções, o foco não se limitava à gramática. “Eu dava feedbacks da escrita, da abordagem e também íamos desenvolvendo o pensamento crítico a partir dessas conversas.”

Para a professora, o que diferencia uma redação acima de 900 pontos é a autenticidade. “É uma redação autoral, que foge de modelos prontos e mostra a autoria do estudante”, afirma. Segundo ela, textos de alto desempenho são aqueles que demonstram capacidade crítica e domínio de repertórios socioculturais construídos ao longo do ano.

Entre os erros mais recorrentes, Daniele aponta falhas de concordância verbal, problemas de coesão e o emprego inadequado de repertórios. A solução, segundo ela, é simples e exige disciplina. “Treinando bastante. A cada escrita e feedback, vamos adequando cada vez melhor o texto ao que o Enem deseja”, explica.

Para quem está começando a se preparar, o conselho é claro: “Esqueça os modelos prontos”. Daniele defende que o estudante invista no desenvolvimento da criticidade por meio da leitura, do acompanhamento de notícias, de filmes, livros e outros bens culturais. “Além disso, é fundamental entender bem quais são as regras do exame dentro das cinco competências e buscar aprimorar ao máximo o domínio dessa escrita dentro da grade do Enem”, conclui.

Programa educacional do Jovem de Expressão 

A coordenadora pedagógica do Jovem de Expressão, Vitória Deolino, explica que a principal proposta do cursinho é ampliar o acesso de jovens da periferia ao ensino superior. “Nossa ideia é promover o acesso de vestibulandos que fizeram o ensino médio em escola pública a uma educação de qualidade, para que cheguem mais preparados às provas de seleção e às universidades”, afirma.

Segundo ela, o grande diferencial do projeto está no acolhimento. “Entender quem são esses estudantes como pessoas e humanizar um processo que muitas vezes é árduo e cheio de cobranças é o nosso maior diferencial”, destaca. Para Vitória, o objetivo vai além da aprovação. “A gente acolhe, motiva e prepara não só para o vestibular, mas para a construção de uma trajetória educacional.”

Ao comentar os resultados alcançados pelos alunos, a coordenadora ressalta que as notas representam um retorno importante do trabalho desenvolvido. “A nota não define quem são os nossos alunos, mas quando ela vem, colhemos um fruto muito bonito de tudo o que foi plantado”, diz. “Um aluno motivado, preparado e acolhido tende a alcançar resultados positivos.”

Vitória lembra que o cursinho funciona desde 2016 e está organizado em dois ciclos anuais. “No primeiro semestre, o foco é o vestibular tradicional da Universidade de Brasília. No segundo, abrimos novas inscrições para o pré-Enem”, detalha. Em cada ciclo, são selecionados 50 estudantes, totalizando cerca de 100 atendidos por ano.

Apesar da consolidação do projeto, ela reconhece que a ampliação das vagas depende de apoio externo. “Para abrir mais turmas, precisamos de espaço físico e de recursos financeiros. Precisamos de condições para garantir transporte, alimentação e para ampliar a equipe, o que permitiria atender mais alunos”, afirma.

O cursinho integra o programa Jovem de Expressão, que reúne diferentes iniciativas sociais e educacionais. Atualmente, conta com parcerias como o Instituto CNP Brasil e o apoio do Ministério da Cultura. Interessados em contribuir podem procurar a organização pelas redes sociais @jovemdeexpressao, pelo site institucional ou então entrar em contato pelo e-mail: administrativo@jovemdeexpressão.com.br

Para Vitória, a seriedade do trabalho é um ponto central. “Existe uma visão equivocada de que educação popular é feita sem responsabilidade. Aqui, temos gestão, organização e resultados”, afirma. Ela reforça ainda que o cuidado com os estudantes vai além do conteúdo acadêmico. “Educação é também entender como o estudante chega naquele dia e cuidar da saúde mental das juventudes. Nosso acolhimento constrói uma rede de apoio que vai muito além da prova”, conclui.

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